segunda-feira, 28 de novembro de 2016

E agora, como vai Cuba reagir?


imagem in: Cuba Archives - Outings & Adventures 
Como o tema é delicado e exige muito conhecimento sobre líderes de países por esse mundo fora, vou transcrever um artigo de que gostei muito de ler no OBSERVADOR, escrito decerto por quem muito estuda essas personalidades:

"E agora, Cuba...?", por João de Almeida Dias:

"As relações diplomáticas entre os EUA e Cuba estiveram cortadas entre 1961 e 2015. Pelo meio, houve picos de tensão, como a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis ou o êxodo de Mariel. Barack Obama e Raúl Castro tentaram mudar esse estado de coisas.
Desde então, as relações diplomáticas entre os dois países foram retomadas — um gesto que teve como momento alto a visita de Barack Obama a Cuba em março deste ano. Desde então, foram levantadas grande parte das restrições para os americanos poderem viajar para Cuba, com os números de voos a saírem dos EUA para a ilha a aumentarem 50% desde essa altura.
O encontro entre os dois chefes de Estado deu-se numa altura em que Donald Trump iniciava a sua caminhada triunfal que só terminou com a vitória nas eleições presidenciais de 8 de novembro. Em março, acusou Obama de ter conseguido um “acordo muito fraco”. E, apontando para os galões de empresário, prometeu que iria fazer melhor. “Assim, nós não ganhamos nada, o povo de Cuba não ganha nada, e eu farei tudo o que for necessário para conseguir um bom acordo.”
Em agosto, Donald Trump disse que iria fechar a embaixada dos EUA “até que seja feito um acordo realmente muito bom”. Em setembro, disse que iria anular todas as ações de Barack Obama — foram ordens executivas, que Trump pode reverter logo no seu primeiro dia na Casa Branca, 20 de janeiro de 2017 — e que tinha exigências a apresentar a Cuba. “As exigências vão incluir liberdade religiosa e política para o povo cubano e a libertação de presos políticos”, referiu.
Agora, Donald Trump reagiu de forma mais enigmática. Depois de ter tweetado apenas “Fidel Castro está morto!”, o Presidente eleito dos EUA emitiu um comunicado onde garantia que o seu executivo “fará tudo o que puder para assegurar que o povo cubano poderá finalmente começar o seu caminho até à prosperidade e liberdade”. “Embora Cuba continue a ser uma ilha totalitária, a minha esperança é que este dia seja marcado por um afastamento dos horrores sofridos durante demasiado tempo e por uma aproximação a um futuro em que o espetacular povo cubano possa finalmente viver com a liberdade que tanto merece”, concluiu.
Que as relações entre os EUA e Cuba vão mudar parece ser certo. Porém, Donald Trump torna a fazer o que grande parte dos seus antecessores fizeram, incluindo Barack Obama até ao seu último ano no poder: chutam a bola para o lado de Cuba e esperam que ela faça alguma coisa. Não se sabe, porém, se Raúl Castro está em condições de receber o passe.
Ainda assim, muito dificilmente os EUA levantarão o embargo de mais de meio século a Cuba. Apesar de as intenções de Donald Trump não serem totalmente conhecidas e deixarem algum espaço para interpretação, o Presidente eleito terá sempre de conseguir a aprovação do Congresso para derrubar o embargo. Além disso, o Donald Trump ainda não anunciou a sua escolha para Secretário de Estado, ou seja, a pessoa responsável por gerir a diplomacia norte-americana. O nome escolhido poderá trazer mais pistas para a resposta a esta pergunta.

Agora que a sombra do seu irmão mais velho desaparece, como vai agir Raúl Castro?
Uma das grandes dúvidas em torno dos últimos 10 anos de Cuba é até que ponto é que Raúl Castro não era orientado e controlado pelo seu irmão mais velho, Fidel. Em 2006, depois de lhe ter sido detetado um tumor nos intestinos, Fidel passou as rédeas temporariamente ao seu irmão — que estivera do seu lado já em 1953, quando encabeçaram uma tentativa de golpe falhada — e dois anos mais tarde renunciou a qualquer cargo governativo.
Agora que Fidel morreu, Cuba e o resto do mundo poderão finalmente perceber qual era o peso da sua sombra no irmão Raúl. Desde 2011, o Presidente cubano levou para a frente algumas medidas que resultaram numa ligeira liberalização do mercado económico. Além de ser encorajada a iniciativa privada, os cubanos passaram a poder vender propriedade privada. Por cima disso, o acesso à internet passou a ser cada vez mais comum. Com a sua política para conseguir um “socialismo próspero e sustentável”, Raúl Castro fez aquilo que o seu irmão muitas vezes se recusou a fazer — e, quando o fez, acabou por voltar atrás.
Sobre as transformações económicas de Raúl Castro, Fidel não se pronunciou, preferindo reservar os textos de opinião no Granma para questões muitas vezes relativas à política internacional. Quando Barack Obama visitou Cuba, Raúl Castro acolheu-o de braços abertos, apesar de terem protagonizado uma conferência de imprensa onde a menção de presos políticos em Cuba causou algum burburinho. Para todos os efeitos, os dois estavam dispostos a pôr de lado algumas das suas diferenças para daí tirarem partido daquilo que têm em comum.
A este episódio, Fidel Castro respondeu com um artigo no Granma, com o irónico título “O irmão Obama”, onde dizia: “Não necessitamos que o império nos ofereça nada”. Ainda assim, quando Raúl Castro anunciou o reatar das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, disse que essa foi uma tomada de “posição que foi expressada ao governo dos EUA, em público e em privado, pelo nosso camarada Fidel em diferentes momentos da nossa longa luta”.
Quando foi eleito pela assembleia nacional em fevereiro de 2013, Raúl Castro disse que aquele seria o seu último mandato. O prazo fica, então, marcado para fevereiro de 2018. Nessa mesma altura, Miguel Díaz-Canel, de 56 anos, foi eleito como primeiro vice-Presidente de Raúl Castro — o que levou a que o seu nome fosse apontado como o grande favorito para suceder ao atual líder de Cuba.
Miguel Díaz-Canel pode ser a cara da renovação da política cubana. Aos 56 anos, este burocrata com formação em engenharia marca uma evidente rutura de estilo com os ex-guerrilheiros Fidel e Raúl.
Ainda assim, nada disto significa que será pela mão de Miguel Díaz-Canel que Cuba voltará à democracia plena, libertando os presos políticos e permitindo o pluripartidarismo, que Fidel Castro destruiu nos primeiros dias à frente do país.
É também possível que, mesmo que Miguel Díaz-Canel suba ao poder e tente ser uma espécie de Mikhail Gorbatchov de Cuba, outros não fiquem satisfeitos com qualquer iniciativa que promova uma liberalização efetiva de Cuba. Um dos nomes entre aqueles que podem vir a travá-lo é o de Alejandro Castro Espín, único filho de Raúl Castro, que é coronel das forças armadas cubanas.
Agora que a figura de Fidel desaparece e Raúl Castro se prepara para sair de cena, existe mais espaço do que alguma vez houve no panorama político cubano para surgir uma luta pelo poder. Porém, esta não deverá estender-se ao povo e às suas decisões, mantendo-se nos apertados corredores do Comité Central e do Bureau Político do Partido Comunista Cubano.
Primeiro, depois de uma era dourada que começou com a viragem do século, a esquerda populista da América Latina perdeu o pai, Hugo Chávez, Presidente da Venezuela entre 1999 e 2013. Agora, perde o avô, Fidel Castro, a quem foram buscar a inspiração e a retórica, mesmo que operem noutra época e, por isso, com outros meios.
Nos últimos anos, todos têm caído naquilo que parece um castelo de cartas a ruir. Cristina Kirchner foi derrotada pela direita nas urnas, Dilma Rousseff foi retirada do poder pela justiça e pelos seus inimigos, e Nicolás Maduro viu as forças que o apoiaram a serem derrotadas no parlamento numa altura em que já nem os chavistas querem o chavismo.
Em 2017, alguns países da América do Sul terão eleições. É o caso da Argentina, que vai a votos para o parlamento onde o kirchnerismo ainda está em maioria; do Chile, com eleições parlamentares e presidenciais, numa altura em que a esquerdista Michele Bachelet apresenta a sua pior taxa de aprovação de sempre; do Equador, onde não é certo que a esquerda consiga preencher o vazio do chavista Rafael Correa nas presidenciais, que tem hoje 51% de desaprovação; e, por fim, é o caso da Venezuela, atualmente mergulhada num caos político, social e económico, que tem eleições regionais marcadas para o ano que vem.

É difícil conceber uma remontada da esquerda sul-americana, que ficou conhecida por “onda rosa”, por ser socialista mas não necessariamente comunista. Resta saber em que medida é que 2017 poderá representar o fim dos populistas de esquerda naquele continente, numa altura em que o preço do petróleo teima em não subir e agora que estão órfãos de referências." (por João de Almeida Dias, 27 novembro 2016 in: observador.pt)

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