terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"É Carnaval, ninguém leva a mal"

imagem in: www.etsy.com

(máscara veneziana)

O Entrudo festeja-se hoje. 

Sim, o Carnaval é folia, mas não só... 

Por acaso, conhecemos a origem dos costumes e brincadeiras desta época?

Donde provém o termo ENTRUDO?

Com base no que procurei, encontrei:
1.
'...(...)...a palavra Entrudo provém do latim introitus, que significa «acto de entrar, entrada, acesso, introdução, começo». Nos textos medievais, aparecem registados os termos entruido e entroydo. Mais tarde, o termo apresenta a (grafia com i: Intrudo. O Entrudo começou por designar a noite de terça-feira, que era a entrada da Quaresma; depois a própria terça-feira e, finalmente, os três dias que precedem imediatamente a entrada da Quaresma.'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/entrudo-novamente/26236 [consultado em 19-02-2026]

2.
'O Carnaval é uma das festas mais populares do mundo. No Brasil, em Portugal e em tantos outros países, ele é sinónimo de música, cor, máscaras e celebração. Mas de onde vem esta tradição? Será apenas uma festa antes da Quaresma cristã ou terá raízes mais antigas?

Ao longo da história, muitos investigadores procuraram responder a esta pergunta. Um dos estudos que ajuda a compreender melhor este percurso é a dissertação: “O Entrudo: Ensaio sobre as raízes clássicas do Carnaval“, de Elen Regina da Costa (2022), onde se analisa a ligação entre o Carnaval, o antigo Entrudo português e as festas da Antiguidade Clássica.

O que era o Entrudo?

Antes do Carnaval moderno, existia o Entrudo. Em Portugal, especialmente nas regiões do Norte e também na Galiza, o Entrudo era marcado por brincadeiras populares, uso de máscaras, inversão de papéis sociais, crítica e exagero. Havia jogos com água, farinha e outros elementos que simbolizavam purificação e renovação.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, levaram consigo estas tradições. No Nordeste brasileiro, por exemplo, ainda se encontram manifestações que recordam o antigo Entrudo. A autora da dissertação observa precisamente essas permanências culturais e mostra como certos elementos atravessaram séculos e oceanos.

Muito antes do Cristianismo

Embora o Carnaval esteja hoje ligado ao calendário cristão, sobretudo por anteceder a Quaresma, as suas raízes são muito mais antigas. Para compreender essa origem, é preciso recuar à Antiguidade Greco-Romana.

Na Roma antiga celebravam-se as Saturnais, festas dedicadas ao deus Saturno. Durante esses dias, a ordem social era temporariamente invertida: os escravos podiam sentar-se à mesa com os senhores, havia troca de presentes e liberdade para brincar e satirizar. Era um tempo de suspensão das regras habituais.

Outra festa importante eram as Lupercais, ligadas à fertilidade e à purificação. Celebradas em fevereiro, marcavam o final do inverno e pediam proteção para os rebanhos e para a comunidade.

No mundo grego, destacavam-se as festas Dionisíacas, dedicadas a Dioniso, deus do vinho, da festa e do teatro. Nessas celebrações havia música, dança, máscaras e representações dramáticas, elementos que continuam presentes no Carnaval atual.

O ciclo do inverno e a fertilidade

Um ponto central no estudo das origens do Carnaval é o chamado “ciclo do inverno”. Muitas festas antigas estavam ligadas ao calendário agrícola. O inverno era um período de espera e incerteza. Celebrar significava pedir fertilidade para a terra, proteção para os rebanhos e renovação da vida.

Rituais de purificação, máscaras e inversões sociais tinham um significado simbólico profundo: o mundo precisava ser “virado ao contrário” para renascer. O caos temporário ajudava a restaurar a ordem.

Com o tempo, essas práticas foram sendo reinterpretadas. Quando o Cristianismo se afirmou na Europa, muitas festas pagãs não desapareceram completamente. Em vez disso, foram adaptadas ao novo calendário religioso.

Da festa pagã ao Carnaval cristão

O Carnaval passou a situar-se antes da Quaresma, período de jejum e reflexão. Assim, os dias de festa tornaram-se uma espécie de despedida dos excessos antes da penitência.

A própria palavra “Carnaval” é frequentemente associada à ideia de “adeus à carne”, remetendo para a abstinência quaresmal. No entanto, a energia da celebração, a liberdade temporária e o uso de máscaras são heranças muito mais antigas.

O que mudou ao longo dos séculos foi o sentido cultural. O que começou como ritual religioso ligado à fertilidade tornou-se festa popular, depois manifestação urbana organizada, e em muitos lugares, espetáculo turístico e mediático.

Permanências e transformações

O mais fascinante na história do Carnaval é perceber como certas estruturas culturais resistem ao tempo. A inversão de papéis, a crítica social disfarçada, a máscara como símbolo de liberdade, o riso coletivo, tudo isso já existia na Antiguidade.

Ao mesmo tempo, cada época acrescentou novos significados. Hoje, o Carnaval pode ser expressão de identidade local, afirmação cultural ou simplesmente momento de alegria partilhada.

A investigação de Elen Regina da Costa mostra que o Carnaval não é apenas uma festa moderna, mas o resultado de uma longa caminhada histórica. Ele liga o mundo rural antigo às cidades contemporâneas, atravessa o paganismo, o Cristianismo e a modernidade, mantendo viva a necessidade humana de celebrar, rir e renovar.

Conclusão

O Carnaval é muito mais do que desfiles. Ele é herdeiro de rituais antigos, de festas ligadas ao inverno e à fertilidade, de celebrações dedicadas a deuses como Saturno e Dioniso.

Ao longo dos séculos, transformou-se, adaptou-se e ganhou novos significados. Mas continua a cumprir algo essencial: criar um tempo diferente dentro do tempo comum, um espaço onde a ordem pode ser suspensa e a vida celebrada.

Talvez seja essa a verdadeira razão da sua permanência. O Carnaval recorda-nos que, antes da disciplina, há sempre um momento para a festa, e que celebrar também faz parte da história da humanidade.

in espacomaria.com (Referência bibliográfica: Costa, E. R. (2022). O Entrudo: Ensaio sobre as raízes clássicas do Carnaval (Tese de mestrado). Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.


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