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quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Fernando Pessoa: dois poemas sobre o outono

O outono chegou! Porque as folhas das árvores mudam de cor?
imagem em Tempo.pt

Canção de outono

No entardecer da terra,
O sopro do longo outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas volve e revolve
Esvai-se ainda outra vez.
Mas a folha não repousa
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E mesmo o que hoje sou
Amanhã direi: quem dera
Volver a sê-lo! mais frio.
O vento vago voltou.



Outono no Gerês | PARQUE NACIONAL PENEDA GERÊS (Portugal) | Vítor Ribeiro |  Flickr
imagem obtida em flickr.com 


ESQUEÇO-ME DAS HORAS TRANSVIADAS…

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros…
Hóstia de assombro a alma, e toda estradas…

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco… Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…

No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância…

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

quinta-feira, 25 de abril de 2024

"Porque é abril"! E abril evoca a Liberdade...


imagens de liberdade de www.pinterest.pt

imagem: in www.pinterest.pt

Lula da Silva e os cravos vermelhos do 25 de abril em Portugal

imagem obtida in: pt.linkedin.com


Porque é Abril...

Liberdade querida e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena; 

Liberdade, a meus olhos mais serena, 

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada 

Por ver-te, por gozar-te a face amena; 

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha, 

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade; 

Dos céus descende, pois dos Céus és filha, 

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

BOCAGE

Celeste Caeiro, a mulher que deu os cravos à Revolução: “Está a ver os  soldados com os cravos? Fui eu que lhos dei”
imagem obtida in: pt.pinterest.com