sexta-feira, 3 de julho de 2015

Um Poema de Manuel Alegre: "Resgate"


imagem conseguida em : manuelalegre.com

Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios
cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números e estatística
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida
de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez riso esse
desperdício.
Trazem palavras de outra língua
e quando falam a boca não tem lábios
trazem sermões e regras e dias sem futuro
nós pecadores do sul nos confessamos
amamos a terra o vinho sol o mar
amamos o amor e não pedimos desculpa.
Por isso podem cortar
punir
tirar a música às vogais
recrutar quem os sirva
não podem cortar o verão
nem o azul que mora
aqui
não podem cortar quem somos.
Manuel Alegre
in "Bairro Ocidental", Resgate - D. Quixote 2015

quinta-feira, 2 de julho de 2015

quarta-feira, 1 de julho de 2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"Calçar meias ou vestir meias?"



"Vou calçar umas meias ou Vou vestir umas meias?" 

A expressão correta é: calçar umas meias. 

Quando nos referimos a peças de vestuário para usar nos membros superiores ou inferiores, isto é, nas mãos ou nos pés, utiliza-se o verbo calçar.

Por exemplo: Tenho os pés frios, vou calçar umas meias mais grossas.
                    Tenho as mãos geladas, vou calçar umas luvas de lã.

(segundo leitura de Bom Português, RTP, Porto Editora, 2009)

imagem in: omb.com.pt

domingo, 28 de junho de 2015

"Comida enlatada"...

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Neste mundo há casos insólitos que nos deixam boquiabertos, tal como quando lemos notícias como esta:

 "O caso da assassina da comida enlatada
Linda Jackson, de 59 anos, da Califórnia, foi presa e acusada de matar à pancada o namorado, David Ruiz. O bizarro são as armas do crime. A saber: uma lata de ervilhas, uma lata de cenouras e uma lata de sopa de galinha."

in Revista Sábado, de 25 junho a 1 julho 2015

sábado, 27 de junho de 2015

Patrick Modiano, Prix Nobel de Littérature 2014

(Marcello Duarte Mathias)
in www.wook.pt
Marcello Duarte Mathias, de 76 anos, é diplomata e escritor, ficcionista, memorialista, ensaísta e também autor de alguns diários.

Recebeu dois prémios, o de Jacinto Prado Coelho e o de D. Diniz, da Fundação Casa de Mateus.

Desempenhou na Argentina, na Unesco e na Índia, o cargo de Embaixador de Portugal!

Num dos seus diários, Diário da Abuxarda, escreveu o seguinte sobre Patrick Modiano, Prémio Nobel da Literatura:

"Abuxarda, quinta-feira, 9 de outubro 2014
Ao homenagear um autor como Modiano - o contrário do chamado intelectual engagé - a Academia de Estocolmo resistiu à tentação de valorizar a dimensão política como principal critério na atribuição do prémio. 
Obcecado pela Paris da Ocupação alemã (1940-1944), a sua sensibilidade lembra por vezes, porque se alimentam de idêntico fascínio, a de François Truffaut, n'O Último Metro.
Simplesmente aqui está-se perante uma Paris a preto e branco, com recolher obrigatório, mercado negro, lojecas e estaminés, identidades fictícias por entre denúncias e desaparecimentos. Cenário noturno cruzado por sombras, esquinas e medos.
Um escritor é, antes de mais, um olhar, e o de Modiano é inconfundível. Foi também isso que os académicos suecos quiseram distinguir. Um tom, uma entoação, um timbre de voz, ressonância antiga que gravita, de livro em livro, em torno dos mesmos temas e gentes, à maneira de uma teimosa reminiscência, que não é senão o fantasma da sua memória perdida.
Toda a sua obra é um longo exílio circunscrito a meia dúzia de ruas dessa sua Paris crepuscular. Onde está a verdade e quem a saberá exumar...
Em meu entender, o melhor romance de Modiano, sucinto em extensão à semelhança de todos os seus livros, intitula-se Dora Bruder e inspira-se num facto verdadeiro: o percurso de uma rapariga judia que desaparece sem deixar rasto durante os anos da Ocupação alemã em Paris, vindo a morrer, juntamente com seus pais, em deportação.
A brevidade do estilo, o lado neutro, deliberadamenre cinzento das descrições, aliados a essa espécie de voz off que acompanha a progressão da narrativa, lembra pelo gosto e minúcia do pormenor, o relato de uma investigação policial. Procura de uma presença que é afinal a nossa própria sombra.
Dora Bruder - a alma gémea de Irène Némirovsky?" (in jornal de letras.sapo.pt 15 a 28 abril 2015)

Li a obra vencedora do Prémio Nobel de Literatura 2014, "L'Horizon", e concordo com a leitura que Marcello Duarte Mathias faz dela. Patrick Modiano escreve "à maneira de uma teimosa reminiscência, que não é senão o fantasma da sua memória perdida."

Vou ler, seguramente neste verão, "Dora Bruder", do mesmo autor!