Morreu Kenny Rogers, celebrado cantor country, voz de duetos
Kenny Rogers era uma popular figura da country e voz de êxitos pop como a balada romântica We’ve got tonight, com Sheena Easton. Morreu na sexta-feira, de causas naturais, aos 81 anos.
Em Portugal, a sua voz e a sua música tiveram um lugar específico. Anos 1980 e um vídeo em que um homem de barba grisalha e voz bem colocada abre o seu coração à jovem mulher de cabelo curto que, pouco a pouco, questionará o que o seu coração lhe diz. A canção, We’ve got tonight, versão criada em 1983, em dueto com Sheena Easton, do original que Bob Seger gravara cinco anos antes, foi um sucesso mundial e, em Portugal, definiu a sua imagem enquanto cantor de baladas românticas. Não era, porém, o retrato completo do cantor que morreu na sexta-feira aos 81 anos, de causas naturais, rodeado em casa pela família, conforme avançado pelos seus representantes à imprensa norte-americana.No início, a carreira do homem nascido em Houston, no Texas, a 21 de Agosto de 1938, seguiu o curso dos tempos. Começou pelo rock’n’roll, no final dos anos 1950, chegando a gravar em 1957 um single de sucesso moderado, That crazy feeling. Seguiu-se um flirt breve com o jazz, enquanto integrante dos Bobby Doyle Three, e depois a passagem, enquanto vocalista e contrabaixista, pelos New Christy Minstrels, um dos grupos do renascimento folk da década de 1960.
A alvorada do psicadelismo levou a nova mudança e, em 1967, formou os First Edition, banda de rock psicadélico, autora de singles como Just dropped in (To see what condition my condition is in), e em que, pouco a pouco, começaram a sobressair raízes country inicialmente escondidas sob os órgãos, os efeitos das guitarras e as melodias escapistas.
A barba já estava bem desenhada no rosto, mas Kenny Rogers só se transformaria verdadeiramente no Kenny Rogers cuja perda os Estados Unidos agora lamentam a partir do momento em que, em 1976, iniciou a sua carreira a solo. Caminhando com passo decidido entre as baladas, a pop mais orelhuda e os sons, os temas e as mitologias da country, sempre de olhar no Velho Oeste, tornou-se uma das figuras mais celebradas da cultura popular norte-americana.
Canções como Coward of the county, Laura (What’s he got that I ain’t got) ou, principalmente, The gambler, editada em 1978 e que, mais tarde, viria a originar vários filmes televisivos, abriram caminho para uma carreira que, nos Estados Unidos, contabilizou 24 singles no topo das tabelas e mais de 50 milhões de álbuns vendidos. A década de 1980 foi aquela que cimentou o seu estatuto e que o definiu para a posteridade. São os anos das parcerias criativas com Barry Gibb, dos Bee Gees, ou com Lionel Richie. Foram, principalmente, os anos dos duetos. Começara no final da década de 1970, com Dottie West (Everytime two fools colide), e prosseguiu nos anos 1980 com Kim Carnes (Don’t fall in love with a dreamer), Dolly Parton (Islands on the stream) ou, claro, a supracitada Sheena Easton.
Fez incursões pelo cinema (estreou-se na comédia familiar Six Pack) e foi uma das vozes de We are the world (parte das gravações decorreram, aliás, no seu estúdio em Los Angeles). Avançou pelas décadas seguintes com o estatuto de veterano da country, como celebridade pop, como representante respeitado de um certo espírito americano. Em 2015, anunciou a sua digressão de despedida, manifestando o desejo de descansar e dedicar mais tempo à sua família.
O último concerto teve lugar, como seria de esperar, em Nashville, no coração da música country, e reuniu como convidados antigas companheiras de estrada como Dolly Parton e bandas como os Flaming Lips, no que será testemunho da abrangência que congregou no seu país. Em Portugal, continuaremos a vê-lo eternamente sentado na cadeira no jardim, aguardando que Sheena Easton atravesse o corredor iluminado para cantarem juntos a última noite de todas.
(in publico.pt por Mário Lopes 21 de março de 2020)
imagem in https://deusguianossospassos.blogspot.com
A Páscoa é, de acordo com o Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, a «Grande festa judaica e cristã, esta a comemorar a Ressurreição de Jesus Cristo. Do latim vulgar pascua, atestado nas glosas, alteração do latim eclesiástico Pascha, por cruzamento com pascua, «alimento (propriamente "pasto")», pois a Páscoa põe fim ao jejum da Quaresma; aquele termo do latim Pascha provém do grego páscha, forma documental na versão dos Setenta (que significa: «a Páscoa, festa judaica e cristã; "em particular", a refeição da Páscoa; o anho pascal»), com origem no hebreu "pasach", que propriamente significa "passagem" e designa a festa celebrada em recordação da saída do Egipto (...); serviu depois para designar a festa cristã celebrada em honra da Ressurreição de Jesus Cristo, por motivo da coincidência das datas.»
A Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Editorial Verbo, Lisboa) diz, ainda, o seguinte sobre Páscoa: «O seu significado etimológico é incerto. Alguns procuram-no em raiz egípcia e, nesse caso, significaria “golpe”, “ferida”. Há quem prefira ligar a palavra ao siríaco e então significaria “ser feliz”, “estar alegre”. Designaria, portanto, a festa de júbilo por excelência. Entretanto o significado geralmente aceite é o que adquiriu no hebraico bíblico: “saltar”, “passar adiante”. Primariamente, Páscoa designaria uma dança ritual (‘I Re.’, 18,21); aplicar-se-ia também o termo à passagem do Sol pela constelação do Carneiro ou da Lua para o seu zénite. Por fim impôs-se o significado que lhe dá Ex. 12, 12-27: a “passagem” de Javé ao dar a morte aos primogénitos dos egípcios, “saltando” por cima das casas dos hebreus a quem poupou. No TM “pesah” designa o rito sagrado (49 vezes) ou a própria vítima (31 vezes) ou refere-se simultaneamente ao rito e à vítima (2 vezes). Não se sabe exactamente quando começou e em que consistiria na sua origem, antes de estar unida à festa dos Ázimos. Tudo leva a crer que era anterior a Moisés. Seria a festa que os israelitas desejavam celebrar quando tentaram sair do Egipto com os seus rebanhos (Êx. 3, 18; 5, 3; 7, 16). O texto sugere-nos mesmo que se julgavam obrigados a tal celebração (Êx. 8, 21-25). Admite-se geralmente que era comum às tribos semitas e estava ligada à vida nómada e pastoril. Era festa das primícias dos pastores. Ofereciam à divindade os primogénitos do rebanho, talvez com um sentido propiciatório e para afastarem doenças ou malefícios sobre a família ou sobre os rebanhos. (...).»
in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/etimologia-e-significado-de-pascoa/17504 [consultado em 09-03-2020]
100 anos de Leitaria da Quinta do Paço: éclairs, mudanças e muito chantilly
Começou na produção de leite, descobriu o chantilly e juntou tudo o que sabia num éclair que se tornou famoso no Porto e arredores. A Leitaria da Quinta do Paço faz 100 anos e não quer ficar por aqui.
A Leitaria da Quinta do Paço tornou-se conhecida por ser a primeira empresa do setor a distribuir leite pasteurizado em garrafas de vidro no norte do país, aliás eram muitas as mulheres com garrafas na cabeça que calcorreavam as ruas do Porto e há quem ainda se lembre delas. Mais tarde veio a manteiga, o queijo e o iogurte, mas a partir da década de 50 todos os processos de tratamento e engarrafamento de leite foram industrializados, e à fabrica em Paços de Ferreira juntou-se uma estação de recolha e um armazém em Paranhos, um depósito de venda no Mercado do Bom Sucesso, na Boavista, e um posto de venda na Praça Guilherme Gomes Fernandes, na baixa do Porto, que permanece em funcionamento até hoje.
“Os cafés não eram bem vistos na época, a leitaria era um espaço mais familiar que as senhoras já podiam frequentar”, conta ao Observador, José Eduardo Costa, atual responsável pela marca.Nesta mesma praça, famosa desde sempre pela venda de produtos alimentares, eram muitas filas à porta de pessoas que esperavam levar para casa o estranho creme branco chamado chantilly de fabrico próprio e vendido em sacos de papel encerado. Em 1960, Alexandre Furtado Mendonça descobre o éclair recheado com chantilly numa viagem à Suíça e decide reproduzir a receita quando chega a Portugal. É no mesmo prédio da loja mãe, na baixa do Porto, que a iguaria é confecionada, conquistando rapidamente o paladar dos clientes.
Com a morte de Furtado Mendonça, em 1973, o negócio passou para as mãos de dois funcionários e esteve mesmo em risco de fechar devido a má gestão, até que em 2012 José Eduardo e Joana Ramalho Costa ressuscitaram a marca. Nesse mesmo ano registam o éclair clássico como o Doce do Porto e contrariam assim a teoria de que a cidade não tem um doce característico, como o pastel de nata em Lisboa, o jesuíta em Santo Tirso ou o Dom Rodrigo no Algarve.
Uma fábrica onde são os homens que põem a mão na massa
Sem qualquer experiência no universo dos lacticínios, o casal abraçou a história da leitaria e deu-lhe um novo rumo. “É engraçado porque a gerente da nossa loja na baixa foi, na fase mais crítica da marca, a uma vidente que lhe disse que um casal iria salvar a empresa. Não somos da área, mas bastou adicionar farinha e um pouco de açúcar, pois o potencial já estava aqui”, diz José Eduardo ao Observador.
Começaram por transferir a linha de produção para uma antiga casa de família convertida numa pequena fábrica, em Vila Nova de Gaia, que no verão irá ser aumentada, mudaram a imagem, apostaram na cafetaria, lançaram um lote próprio de café e inauguraram os éclairs temáticos para dias especiais. O segredo, dizem, está na qualidade dos ingredientes e tudo começa na massa choux,uma mistura de água com margarina, que depois de derretida, vê adicionada a farinha de trigo e o ovo. Depois de envolvido durante 45 minutos, o preparado é depositado numa máquina que, de forma automática, a corta em retângulos de oito centímetros para os mini éclairs, de 28 centímetros para os grandes, e de 55 centímetros para os novos XL.Filipe Cunha trabalha há sete anos na casa e é de avental e touca branca que nos explica o processo de confeção que conhece de olhos fechados. Depois da massa ser cortada, parte dela é congelada e segue para a loja de Lisboa, para posteriormente ser montado o éclair, a outra parte é distribuída em tabuleiros, que vão para um forno a 200 graus durante 35 minutos. Os retângulos crescem e ficam dourados, tal como se quer. Uma fornada leva 700 éclairs que são depois recheados, de forma automatizada, com chantilly, são produzidos cerca de 60 litros por dia. O doce é depois coberto à mão, graças a um saco de pasteleiro, com um dos 13 preparados possíveis. Além do clássico chocolate de leite, há chocolate negro, chocolate com cereais, limão, caramelo, café, frutos vermelhos ou maçã com canela.
Rodeado de utensílios em inox, sacos de papel com farinha, balanças e frigoríficos XXL, João Correia supervisiona todos os passos. O chef pasteleiro está a trabalhar na leitaria há menos de um mês, é natural de Bragança e até gostava de ser jogador de futebol, mas a herança de uma família ligada à doçaria falou mais alto. Depois de estudar pastelaria em França e em Barcelona, regressou a norte e passou pelo BB Gourmet antes de se aventurar na nova vida desta casa centenária.
De Vila Nova de Gaia saem dois a três mil éclairs por dia, entre as 4h e as 12h seis homens trabalham arduamente com as mãos na massa, mas é Domingos Ramalhão que distribui o que ali é feito. Na sua carrinha refrigerada leva paletes com produtos, dos éclairs aos bolos redondos tradicionais, passando pelos frascos de coberturas, compotas ou marmelada. “Faço duas a três rondas por dia, começo nos centros comerciais, que antes das 10h têm de ter tudo pronto, e termino nas lojas de rua. Hoje, por exemplo, saíram 900 éclairs grandes e 800 pequenos”, partilha.
Encontramos Flávio Santos a lavar espátulas com creme e tábuas com restos de massa — tem 30 anos e é o funcionário mais antigo da casa. A mãe e a irmã já trabalharam ali noutros tempos e com 15 anos começou a tratar os éclairs por tu. Sobreviveu a várias direções e continua a gostar do que faz. O segredo, garante, é fazer tudo com carinho e o éclair de limão é o seu preferido. “Houve uma altura em que comia um por dia, mas agora já não consigo.”
Novas lojas, internacionalização e um éclair comemorativo
A Leitaria da Quinta do Paço tem oito lojas físicas – Baixa do Porto, NorteShopping, Mercado do Bom Sucesso, Matosinhos, Lisboa – Avenida João XXI, Oeiras Parque, Almada Fórum e Braga – mas em 2020 promete abrir portas no El Corte Inglés, em Gaia, e no Mar Shopping, em Matosinhos. “A decoração dos pontos de venda vai ser alternada”, adianta Inês Ferreira da Silva, diretora de marketing da marca, que destaca também a venda de manteigas com origem açoriana produzidas especialmente para a leitaria.
Recuperar a comercialização de outros lacticínios, como o queijo ou o iogurte, faz parte das metas para os próximos anos, mas a prioridade maior é estabilizar o chantilly. “Continuamos a vender o chantilly separadamente e é um produto puro, só leva natas e açúcar, por isso degrada-se muito rapidamente. Em dois dias começa a ganhar soro, não fica estragado, mas visualmente não é apelativo. Estamos a tentar encontrar uma solução com a Universidade de Aveiro”, explica José Eduardo ao Observador.Começaram por transferir a linha de produção para uma antiga casa de família convertida numa pequena fábrica, em Vila Nova de Gaia, que no verão irá ser aumentada, mudaram a imagem, apostaram na cafetaria, lançaram um lote próprio de café e inauguraram os éclairs temáticos para dias especiais. O segredo, dizem, está na qualidade dos ingredientes e tudo começa na massa choux,uma mistura de água com margarina, que depois de derretida, vê adicionada a farinha de trigo e o ovo. Depois de envolvido durante 45 minutos, o preparado é depositado numa máquina que, de forma automática, a corta em retângulos de oito centímetros para os mini éclairs, de 28 centímetros para os grandes, e de 55 centímetros para os novos XL.
há sete anos na casa e é de avental e touca branca que nos explica o processo de confeção que conhece de olhos fechados. Depois da massa ser cortada, parte dela é congelada e segue para a loja de Lisboa, para posteriormente ser montado o éclair, a outra parte é distribuída em tabuleiros, que vão para um forno a 200 graus durante 35 minutos. Os retângulos crescem e ficam dourados, tal como se quer. Uma fornada leva 700 éclairs que são depois recheados, de forma automatizada, com chantilly, são produzidos cerca de 60 litros por dia. O doce é depois coberto à mão, graças a um saco de pasteleiro, com um dos 13 preparados possíveis. Além do clássico chocolate de leite, há chocolate negro, chocolate com cereais, limão, caramelo, café, frutos vermelhos ou maçã com canela.
Rodeado de utensílios em inox, sacos de papel com farinha, balanças e frigoríficos XXL, João Correia supervisiona todos os passos. O chef pasteleiro está a trabalhar na leitaria há menos de um mês, é natural de Bragança e até gostava de ser jogador de futebol, mas a herança de uma família ligada à doçaria falou mais alto. Depois de estudar pastelaria em França e em Barcelona, regressou a norte e passou pelo BB Gourmet antes de se aventurar na nova vida desta casa centenária.
De Vila Nova de Gaia saem dois a três mil éclairs por dia, entre as 4h e as 12h seis homens trabalham arduamente com as mãos na massa, mas é Domingos Ramalhão que distribui o que ali é feito. Na sua carrinha refrigerada leva paletes com produtos, dos éclairs aos bolos redondos tradicionais, passando pelos frascos de coberturas, compotas ou marmelada. “Faço duas a três rondas por dia, começo nos centros comerciais, que antes das 10h têm de ter tudo pronto, e termino nas lojas de rua. Hoje, por exemplo, saíram 900 éclairs grandes e 800 pequenos”, partilha.
Encontramos Flávio Santos a lavar espátulas com creme e tábuas com restos de massa — tem 30 anos e é o funcionário mais antigo da casa. A mãe e a irmã já trabalharam ali noutros tempos e com 15 anos começou a tratar os éclairs por tu. Sobreviveu a várias direções e continua a gostar do que faz. O segredo, garante, é fazer tudo com carinho e o éclair de limão é o seu preferido. “Houve uma altura em que comia um por dia, mas agora já não consigo.”
Novas lojas, internacionalização e um éclair comemorativo
A Leitaria da Quinta do Paço tem oito lojas físicas – Baixa do Porto, NorteShopping, Mercado do Bom Sucesso, Matosinhos, Lisboa – Avenida João XXI, Oeiras Parque, Almada Fórum e Braga – mas em 2020 promete abrir portas no El Corte Inglés, em Gaia, e no Mar Shopping, em Matosinhos. “A decoração dos pontos de venda vai ser alternada”, adianta Inês Ferreira da Silva, diretora de marketing da marca, que destaca também a venda de manteigas com origem açoriana produzidas especialmente para a leitaria.
Recuperar a comercialização de outros lacticínios, como o queijo ou o iogurte, faz parte das metas para os próximos anos, mas a prioridade maior é estabilizar o chantilly. “Continuamos a vender o chantilly separadamente e é um produto puro, só leva natas e açúcar, por isso degrada-se muito rapidamente. Em dois dias começa a ganhar soro, não fica estragado, mas visualmente não é apelativo. Estamos a tentar encontrar uma solução com a Universidade de Aveiro”, explica José Eduardo ao Observador.
O éclair grande clássico, com cobertura de chocolate de leite, custa 2,50€
Internacionalizar a marca, através da partilha de receitas, é outra das intenções da dupla responsável, que vê na Europa e na Ásia continentes com potencial. “Que apareça um investidor”, dizem. Para assinalar os 100 da leitaria está a ser cozinhado um livro e um éclair comemorativo, que deverá ser apresentado a 15 de março.
FONTE: observador.pt 05.03.2020 texto de Maria Martinho