A decisão de Donald Trump tem merecido reações por parte de vários líderes mundiais, de diferentes geografias e interesses geopolíticos. Porém, apesar da diversidade do leque, as reações têm sido invariavelmente negativas, dando notas de preocupação e até de desagrado.
Como já seria de esperar, foi da parte dos vizinhos de Israel que as respostas foram mais negativas, num sinal de que o espaço para a diplomacia está, também daquela parte, a ficar cada vez mais apertado.
A começar pela Autoridade Palestiniana, liderada por Mahmoud Abbas, que tem dado sinais de um possível corte de relações diplomáticas com os EUA. Nabil Shaath, o conselheiro para as relações internacionais da Autoridade Palestiniana disse: “O senhor Trump inventou o slogan ‘negócio do século’ ou ‘a mãe de todas as transações’, como Saddam Hussein diria [o antigo líder iraquiano chamou à primeira Guerra do Golfo, em 1991, como “a mãe de todas as batalhas”]. Mas a mãe de todos os acordos morre aqui nas rochas de Jerusalém se ele disser amanhã que reconhece o todo de Jerusalém como a capital de Israel”. O diplomata acrescentou ainda que essa decisão irá “retirar-lhe qualquer hipótese de ter um papel num acordo, não há nenhum acordo que comece com a destruição da solução dos dois estados”.
Também da Palestina, o Hamas apelou, num comunicado emitido antes da declaração de Donald Trump, a “uma revolta em Jerusalém para que esta conspiração não proceda”. “Chamamos todo o povo palestiniano para se erguer como uma comporta impenetrável e um muro alto contra esta decisão e para renovar a intifada de Jerusalém”, acrescentou. Já depois do discurso do Presidente norte-americano, o Hamas emitiu um comunicado onde o chefe do bureau político do Hamas, Ismail Haniyeh, dizia que a decisão de Washington D.C. “atravessa todas as linhas vermelhas” e é “uma provocação contra os sentimentos de todos os muçulmanos”.
Do lado da Jordânia, que também reclama parte de Jerusalém, uma fonte diplomática disse à Reuters que a jogada de Donald Trump pode “acima de tudo aplacar todos os esforços para fazer avançar o processo de paz e comporta um risco muito grande de provocar os países árabes e muçulmanos e as comunidade muçulmanas no ocidente”.
A preocupação jordana é semelhante à do Egito, cujo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sameh Shukri, disse ter alertado o seu homólogo norte-americano, Rex Tillerson, para os riscos desta mudança do statu quo. “O estatuto legal, religioso e histórico de Jerusalém requer cuidado na maneira como lidamos com este tema sensível, que tem a ver com a identidade nacional do povo da Palestina e o estatuto de Jerusalém entre os povos árabes e muçulmanos”, disse Same Sukri. Além disso, pediu aos EUA que agissem “com a sabedoria necessária” e que evitassem “inflamar as tensões na região”.
Da Síria, à falta de uma posição pública por alguma figura do regime, a agência noticiosa estatal, a Sana, publicou uma nota que expressa bem o repúdio de Damasco perante esta decisão. Citando uma fonte no ministério dos Negócios Estrangeiros, a Sana diz que a a Síria “condena com os termos o mais fortes possível” a mudança da embaixada dos EUA para “a Jerusalém ocupada” e o reconhecimento daquela cidade. Para o regime de Damasco, essa é uma maneira de “coroar os crimes de usurpação da Palestina, que deslocaram o povo palestino e estabeleceram uma entidade sionista no centro do mundo árabe para impôr uma hegemonia na nação árabe”.
A fechar o leque de países na fronteira de Israel está o Líbano que, a braços com uma crise política grave, cuja reação ainda não é conhecida. Porém, tendo em conta o historial de guerras e parca diplomacia entre o Líbano e Israel, a posição de Beirute não irá representar qualquer surpresa.
Já fora das fronteiras de Israel, mas ainda assim um elemento crucial na região, é a Arábia Saudita, que a par de Israel é o maior aliado dos EUA no Médio Oriente. Mas nem isso levou a que Riade aplaudisse o gesto de Donald Trump. “Qualquer anúncio dos EUA sobre o estatuto de Jerusalém que seja feito antes de um acordo final teria um impacto negativo no processo de paz e irá intensificar as tensões na região”, disse o embaixador da Arábia Saudita em Washington D.C., Khalid bin Salman, que também é irmão do príncipe herdeiro Mohammad bin Salman.
A Turquia também criticou os sinais de Washington D.C., com o Presidente Recep Tayyip Erdoğan a dizer que se está a atravessar “uma linha vermelha para os muçulmanos” e ameaçou com o corte de relações diplomáticos com Israel — mas não com os EUA.
Na Europa, as reações foram mais contidas mas não por isso positivas. A partir de Bruxelas, a Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros, Federica Mogherini, disse que a questão do estatuto de Jerusalém deve ser abordada “através de negociações”. A chefe da diplomacia da União Europeia falou pouco tempo depois de ter entrado em contacto com Rex Tillerson, a quem terá dito que “tem de ser encontrada uma via de negociações para resolver o estatuto de Jerusalém como capital dos dois estados”.
Dentro da Europa, também houve governos que marcaram uma posição individual. Da Alemanha falou o vice-chanceler e ministro dos Negócios Estrangeiros, Sigmar Gabriel. “Todos sabemos quais podem ser as repercussões” da decisão norte-americana que, sublinhou, foi tomada “sem que houvesse o acordo da Europa nesse tema”. Segundo uma nota do Eliseu, o Presidente de França, Emmanuel Macron, pediu que o estatuto de Jerusalém fosse discutido “dentro do quadro das negociações de paz entre israelitas e palestinianos” e defendeu que fossem estabelecidos “dois estados que vivem lado a lado em paz e segurança com Jerusalém como capital”.
A primeira-ministra britânica, Theresa May, a quem se podem apontar poucas declarações críticas a Donald Trump, disse agora que o “o estatuto de Jerusalém deve ser determinado através de uma negociação” e, à semelhança do seu homólogo francês, defendeu a existência de uma “capital partilhada”.
Nesta catadupa de críticas, também o papa Francisco se chegou à frente. Sobre a situação em Jerusalém, que para além dos muçulmanos e judeus também é sagrada para os cristãos, o líder da Igreja Católica disse: “Não posso manter-me calado sobre a minha profunda preocupação em torno da situação que foi criada nos últimos dias”.