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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Fernando Pessoa e o seu Poema de Natal

Natal | 25 de dezembro - Calendarr
in calendarr.com


Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal.

E o frio que ainda é pior.


E toda a gente é contente

Porque é dia de o fiar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.


Pois apesar de ser esse 

o Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece 

Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.


Não quero ser dos ingratos

Mas, com este obscuro céu, 

Puseram-me nos sapatos 

Só o que a chuva me deu.

Fernando Pessoa

25 de dezembro de 1930

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Um poema de António Nobre: "Vá, Paris, deixa-te estar assim engalanada"

in: https://tertuliabibliofila.blogspot.com

"Vá, Paris, deixa-te estar assim engalanada
para o júbilo de um século
em que queres ser cortesã e rainha, 
amante dos poetas e concubina dos pintores.
Escolhi-te para me exilar de mim,
para perder o rosto e a lembrança
no delírio de absinto dos teus "bistrots",
para não ficar refém de uma lamúria
portuguesa, tentacular e visceral
que se cola à minha fala
como uma baba de animal rasteiro
nos muros brancos e mornos de setembro.
A minha tragédia sempre foi esta:
ser da aldeia do mundo, sem ser 
de lado nenhum dentro de mim.

(António Nobre)

sábado, 18 de março de 2017

Se acredito no destino? Talvez...

Imagem in: http://culturafm.cmais.com.br
Será que acreditamos no destino? Pois...!?

O autor desta ODE obriga-nos a fazer essa reflexão sobre o Fado, a Sorte...

E nós deixamo-nos ir pelas palavras que ele escreve e no modo como nos deixa as suas ideias, ficando a meditar em tudo o que lemos...

O Fado é quem tudo decide? E a SORTE que temos é onde ela já nos está previamente destinada?

Resta saber se cada frase nos consegue convencer ou se as nossas dúvidas subsistem... 

Temos mesmo de fazer um exercício individual de introspecção para tentar chegar a uma conclusão... Será que conseguimos?


"Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja, 
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Odes/Ricardo Reis


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Novo Ano, o de 2017! "Nada começa, tudo continua"...


"Ficção de que começa alguma coisa! 

Nada começa: tudo continua. 

Na fluida e incerta essência misteriosa 

Da vida, flui em sombra a água nua. 

Curvas do rio escondem só o movimento. 

O mesmo rio flui onde se vê. 

Começar só começa em pensamento."

Fernando Pessoa

in. Escritas.org

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Bocage nasceu a 15 de setembro, há 250 anos!

Daniel Pires, Presidente do Centro de Estudos Bocageanos, é especialista na vida e obra de Bocage. 

Numa entrevista a Cátia Andrea Costa, da Revista Sábado (nº 593, de 10 a 16 de setembro de 2015), diz abertamente que há um "extenso anedotário" que é atribuído ao poeta português, mas que nada disso corresponde à realidade! O facto também tem sido "aproveitado" por editores para conseguirem mais leitores e compradores das obras deste autor.  

Manuel Maria de Barbosa L'Hedoi du Bocage desertou para Macau em 1789. Aqui, a palavra"bocagem" significava "anedota" e assim poderá ter nascido o mito de associar Bocage às anedotas...  

Nasceu em Setúbal a 15 de setembro de 1765. Quando tinha 6 anos, o seu pai foi preso e aos 10 ficou órfão de mãe! Aos 14 anos era cadete no Regimento de Infantaria nº 7, na sua terra natal.

Em 1779 foi para Lisboa estudar latim, francês e as mitologias latina e grega. E é aqui que Daniel Pires refere na sua entrevista que esta é uma das facetas desconhecidas de Bocage: "...(...)...traduziu textos clássicos, latinos, de autores como Virgílio e Ovídio, e escritores franceses como Voltaire e La Fontaine. 
Também escreveu poemas - muitos deles desconhecidos - para serem musicados e teve breves incursões no teatro, com as peças Atílio Régulo e A Virtude Laureada".

Levou uma vida de boémio em Lisboa, e frequentava assiduamente o Café Nicola, onde entrava em tertúlias. 

A sua poesia lírica tornou-o famoso em todo o mundo!

in www.mun-setubal.pt

domingo, 5 de julho de 2015

Manuel Alegre: "Discurso de Péricles aos Atenienses"

Discurso de Péricles aos Atenienses
Deixai-os em treino permanente

Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício

Que nos acusem de vida fácil e leviandade

Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo

A nossa força é a diferença
Não são precisas provações nem disciplina

Atenas vive como quer e como gosta
Porque a nossa coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta

Deixai-os pois dizer que vão vencer

Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida
MANUEL ALEGRE (in Chegar Aqui, 1984) 
in: bomdia.eu