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| JOÃO ERMIDA: foto de José Carlos Carvalho (visão.pt) |
"O cerco apertou-se mas a atitude de quem trabalha na alta finança ainda não mudou. Um ex-banqueiro explica porque é que o pior que pode acontecer a uma profissão é "não ser respeitada"
visao.sapo.pt
Clara Teixeira
9:41 Quinta feira, 20 de Março de 2014
João Ermida: "O comum dos mortais acha que o banqueiro rouba"
O Dono do Mundo (Ed. Oficina do Livro) o novo romance de João Ermida,
antigo responsável global da tesouraria e mercados financeiros do Banco
Santander, é uma reflexão sobre a ganância dos banqueiros e a ausência
de regras que lhes permite destruir e, de seguida, reconstruir a
economia de um País, ganhando muito dinheiro. Aos 49 anos, este
"banqueiro arrependido" conta como um dia entrou numa igreja, em Madrid,
e decidiu pôr fim a uma carreira de 16 anos que lhe deu milhões a
ganhar. Hoje, dedica o seu tempo a aconselhar financeiramente as
famílias com elevado património, mas continua a sonhar com a criação de
um banco ideal.
Os banqueiros aprenderam alguma coisa com a crise que teve início em 2007?
A atitude comportamental não se alterou muito. Os reguladores estão mais
atentos, há uma pressão brutal dos bancos centrais, mas falta mudar a
atitude das pessoas que trabalham nas instituições financeiras. A
mudança tem de vir de dentro.
O presidente do HSBC, no Reino Unido, António Simões, disse, numa
entrevista, que ser banqueiro em Londres é "o pior da sociedade". É
assim?
É. O pior que pode acontecer a uma profissão é não ser respeitada. O
comum dos mortais acha que o banqueiro rouba. Infelizmente, tivemos
escândalos: as perdas da UBS e do JP Morgan, a manipulação da taxa Libor
e do mercado de divisas Foreign Exchange [Forex]. Isso não ajuda.
Estamos a falar de pessoas que estão dentro das instituições a fazer
coisas que eu não acredito que os gestores de topo não saibam. Sabem,
mas fecham os olhos, porque ganham dinheiro e porque os outros fazem o
mesmo. É um problema comportamental.
Não se pode confiar nos banqueiros, mas consegue-se controlá-los? Parecem estar sempre um passo à frente do supervisor...
Não podemos pôr um "polícia" em cada departamento dos bancos. A
regulação tem de vir de dentro. Para meu primeiro livro, verifiquei se
as empresas envolvidas nos maiores escândalos tinham os valores
presentes. O caso típico era o da Siemens. Tinha uma série de valores e
princípios, mas foi apanhada a pagar luvas de mil milhões de euros a
vários países. Quando uma empresa tem valores mas os funcionários não os
cumprem, cria-se uma clivagem. Não podemos pedir-lhes que o façam de um
dia para o outro. Têm de ser os gestores de topo a criar uma atitude
comportamental. Se as organizações criarem mecanismos de autocontrolo,
vão viver mais anos.
Esse autocontrolo ainda está longe de existir na banca?
Algumas coisas melhoraram, como o diferimento no pagamento de bónus. Ao
ter-se diferido os pagamentos, o incentivo para ganhar muito dinheiro
num ano já não é tão grande. O mal é que foi feita regulação mas não
autorregulação, porque tudo isto foi imposto pelo regulador. Acredito na
autorregulação, mais do que em algo imposto de fora, com muitas regras.
O que foi feito é suficiente para evitar novas crises?
Depois da crise de 2007/8, os grandes bancos comerciais deixaram de
comprar os produtos complexos que a banca de investimento inventava e
voltaram ao negócio do "pão com manteiga": Emprestar, captar depósitos,
tentar criar valor, sem alavancar tanto o balanço. Isso significa que os
produtos de risco da banca de investimento vão hoje parar aos hedge
funds [especulativos] ou a fundos de investimento típicos. A sociedade
gestora de ativos Black Rock, a maior do mundo, gere 4 biliões de
dólares (2,9 biliões de euros) de ativos. É um valor verdadeiramente...
Devia ser proibido?
Sim. O risco de uma só gestora ter mais do que um bilião de dólares já é
uma loucura. Está-se a dar a alguém uma capacidade tremenda de gestão e
a criar o risco de trazer problemas aos mercados. Os reguladores ainda
não perceberam isso. Antes, o risco estava disseminado entre hedge
funds, fundos de investimento, fundos de pensões e bancos comerciais.
Como estes, agora, não podem ter ativos de risco, os outros, que são
regulados de outra forma, podem ter tudo! Quando estou a concentrar
ativos desses no meu balanço, estou a aumentar o risco sistémico, e não a
diminuí-lo. Há algo que não bate certo.
A próxima crise vai começar no dia em que os EUA deixarem de pagar a dívida, como antevê no livro?
Sim. Há de surgir um momento em que esta bolha da dívida americana,
criada nos últimos anos... Entre meados de 2007 e meados de 2013, a
dívida mundial subiu de 70 biliões para 100 biliões de dólares. No mesmo
período, a dívida do Estado americano subiu de 4,5 biliões para 12
biliões de dólares. Quase triplicou. É verdade que os EUA estão a
crescer, que são a maior economia do mundo, mas chegará uma altura em
que terão de reduzir a dívida. É o que me preocupa mais, porque acho que
para tudo o resto há dinheiro. Para isto, não há.
Os bancos já estão saudáveis, como nos querem fazer crer?
A banca só está saudável quando a atividade de crédito cresce. Depósitos
recebem sempre, é uma atividade natural. Mas têm que emprestar. Eu acho
que estão no bom caminho para começarem a emprestar e se tornarem
saudáveis.
Não emprestam, porque não têm saúde ou porque as empresas não procuram crédito?
Os bons negócios estão equilibrados. Não estão à procura de mais
financiamento. O mercado doméstico está retraído e as empresas não
investem num aumento de capacidade para depois não venderem. E os
resultados da procura de novos mercados não são imediatos. A banca vai
fazer melhores empréstimos quando a economia crescer mais.
Como vê os prejuízos da banca portuguesa, registados nos últimos anos?
A banca portuguesa cometeu um erro em 2007, 2008 e 2009. Foram feitos
muitos empréstimos, porque não se acreditava na crise, especialmente a
projetos sobredimensionados, da construção e imobiliário. Só quando
Portugal foi intervencionado é que a banca parou. Os bancos com menos
atividade nessas áreas - como o BPI - estão a recuperar bem. Os bancos
mais ativos - como o BCP - tiveram muitos prejuízos. O reconhecimento
dos prejuízos da banca não é um problema, desde que a economia cresça e
se possa começar a emprestar, de forma sã. Mas, com as condições que nos
foram impostas pela troika - subidas brutais de impostos, perda de
rendimentos...
A receita da troika não foi a mais adequada?
Não fomos capazes de negociar bem. A culpa é dos dois partidos, PS e
PSD. Todos os dias vejo um PR a pedir um entendimento, um PM a pedir o
mesmo e um líder da oposição a dizer que não assina. Isto é gozar com o
cidadão que está a sofrer. Os dois partidos deviam negociar um
entendimento para os próximos dez anos. Não lhes está a ser pedido mais
do que corrigir todas as barbaridades que fizeram nos últimos 25 anos.
Como encarou o manifesto dos 70 a favor da reestruturação da dívida pública?
Tudo tem um timing, e este não é o timing. Depois de três anos de
sacrifícios, parece-me inusitado dizer que, afinal, a solução é não
pagarmos a dívida. E vejo pessoas naquele manifesto que foram parte do
problema. Enquanto estiveram no poder, fizeram barbaridades. A ex-líder
do PSD faz declarações na televisão como se nunca tivesse estado à
frente do partido, nem tivesse feito parte do Governo, nem tivesse sido
ministra das Finanças. É algo que me choca.
Mas como é que vamos pagar uma dívida que atinge 130% do PIB?
Não é um assunto de hoje. Estamos na Zona Euro, é lá que vão ser
encontradas medidas corretivas. É mais importante criar emprego do que
reestruturar a dívida. É preciso que se criem mais três ou quatro
Autoeuropas em Portugal. Quero é que o povo melhore e viva melhor, com
melhores salários e mais emprego. Não quero o caos. Vá perguntar aos
argentinos se eles desejaram o caos. Todos os que escreveram o manifesto
deviam ter vivido na Argentina do pós-crise, porque se lá tivessem
vivido nessa altura, como eu, veriam que não teve piada nenhuma. Aquele
ano e meio foi muito duro, principalmente para as classes mais
desfavorecidas. Os ricos já tinham saído para Miami. Era-lhes
indiferente. Se for hoje à Venezuela, quem sofre é o povo. Os ricos não
vivem lá. Saíram há muitos anos.
Os portugueses vão sofrer durante quanto tempo? Décadas?
Felizmente, tivemos sempre atitudes quase milagrosas para não passarmos
muito tempo a sofrer (risos). Quando achamos que as coisas estão a
entrar num caminho muito mau, acontece alguma coisa, arrepiamos caminho e
encontramos uma solução mágica para os problemas. É difícil o que
estamos a fazer e não sei se vai resultar na totalidade. Não depende só
de nós. Depende da envolvente europeia e mundial, depende de como as
taxas de juro vão evoluir...
Mesmo com um entendimento partidário e um equilíbrio orçamental, isto pode correr mal?
Mesmo que façamos tudo bem... Para os investidores que compram a nossa
dívida e apostam em Portugal, o que é importante é que vejam uma atitude
consciente dos governantes, que estes olham para o médio prazo.
Isso é fazer o jogo dos mercados.
Não é preciso fazer o jogo dos mercados na totalidade, mas é importante
colocar balizas. Um governante não pode ser contra os mercados como um
todo. O mundo financeiro faz parte do jogo. É preciso permitir-lhes uma
leitura de médio prazo em relação a Portugal. Os mercados gostam de duas
coisas, como digo no livro: de ganhar dinheiro a destruir um País e, a
seguir, de ganhar dinheiro com a reconstrução. É simples.
Foi o que aconteceu com Portugal, com a Grécia...
Não tenha dúvidas. Quem levou os juros da dívida até aos 16% foram os
mesmos artistas que, a seguir, voltaram a comprar e que hoje acreditam
muito em Portugal.
Os que puseram os juros a 16% são os mesmos que hoje os colocam abaixo de 4,5 por cento?
Os mesmos. Os que hoje dizem que é melhor comprar dívida portuguesa do
que irlandesa são os mesmos que diziam que se devia vender. Se calhar o
analista é diferente, mas os chefes são os mesmos. Uma atitude em
relação aos mercados é ser sempre cético. É preciso ler as análises de
mercado com uma atitude cética, mas há quem as leia como se fosse a
Bíblia.
O Dono do Mundo é autobiográfico?
Não (risos)
Retrata a geração que tem agora 50 anos, que assistiu à queda do Muro de
Berlim, que viveu o alargamento a Leste, a crise mexicana, a crise
asiática, a crise russa... Quantas dessas crises viveu por dentro?
Trabalhava com a América latina durante essas crises, mas não sou um
especialista. Ao ter responsabilidades globais sobre os mercados
financeiros, tinha também responsabilidades sobre a operação de Tóquio e
Singapura, mas eram coisas muito pequenas...
Teve algum papel na crise do México, como o protagonista do seu romance?
Não, mas conhecia um tesoureiro do banco no México que me relatava os
acontecimentos. Muito do que está no livro é, infelizmente, verdade. As
crises acontecem por causa da ganância dos bancos americanos. Olhavam
para o México como uma salvação mas, de repente, o México dá para o
torto e saíram todos. Ganharam imenso dinheiro no processo.
Os banqueiros não se questionam quando destroem a economia de um País?
Não. Isso não faz parte daquele mundo. Questionarem-se porquê?
Você questionou-se...
Eu questiono-me, mas a maior partes daquelas pessoas não. No final do
dia, a comparação é entre o que é que eu e o meu banco ganhamos versus o
meu concorrente e o seu banco. Só se muda comportamentalmente, mas leva
tempo.
Como é que se afastou da banca?
Comecei a ter muitas dúvidas, em 2000, 2001. Gosto de adrenalina, não
gosto de viver na bonança. Irrita-me. Quando as coisas correm bem, não
sei que fazer. Sou muito cético. Gosto de crises, de desafios. As crises
atrás de crises não eram um problema. Eu achava piada. A questão foi
começar a ver o que sucedeu à Enron, à Worldcom... A Enron era um bom
negócio que fazia sentido existir. Tinha empresas de energia, centrais
térmicas. Mas, depois, houve falsificação de contas. Comecei a olhar e a
pensar que algo estava errado. Mas estava a falar com as paredes.
Ninguém queria saber, ninguém queria ouvir. Chegava a casa à noite e
pensava: O que é que estou aqui a fazer? Entre 2001 e 2003, fiz essa
reflexão. Eu não podia mudar o mundo nem obrigar os outros a pensarem
como eu. As coisas não estavam bem e tive que encontrar o meu caminho.
Há muita gente que aguenta, porque se ganha muito dinheiro, mas depois
aparece um AVC, um cancro, e nada funciona. Eu não conseguia.
Ganhou milhões, durante os 16 anos que trabalhou no setor financeiro?
Sim, ganhei alguns milhões.
Como foi tratado pelos seus colegas?
Como uma ave rara. Um tipo estranho, esquisito, que sempre teve mau
feitio. A melhor forma de me retratarem foi dizer que eu sempre tinha
sido complicado. A partir de 2008, começaram a dar-me razão.
Também fez uma viragem para um mundo mais espiritual, como o personagem do livro?
Fiz, em 2003. Nesse processo de chegar a casa à noite e de pensar que
não podia continuar assim, percebi que gastava dinheiro a mais.
Levantava 300 euros no Multibanco e gastava-os em dois dias. Mas
gastava-os em nada. Quando se começa a viver assim, olha-se para o
dinheiro e deixa de ter valor. É a lógica de nos compensarmos de alguma
forma. Um dia, saí da minha casa em Madrid, entrei numa igreja e falei
com Deus. Disse-lhe: "Se cheguei até aqui, como é que me podes ajudar?
Já não percebo o que estou a fazer." Sempre fui religioso, mas foi muito
mais do que um re-"encontro com a fé cristã. No dia seguinte,
demiti-me.
Houve, então, um clique?
Sim. Entrei na igreja para pedir ajuda. Já não sabia o que fazer. Nesse
dia, fui trabalhar mas, no dia seguinte, o meu chefe comunicou-me que
tínhamos de despedir mais cinco pessoas. Eu disse: "Quer despedir? Vou
facilitar-lhe a vida." Já não acreditava no modelo. Era, pura e
simplesmente, pôr os números a bater certo. Quem estava ali mal era eu.
Demiti-me e salvei o emprego dessas pessoas.
Que ideal de banco defende?
Um banco cujos funcionários e gestores de topo entendam o papel da
banca, ou seja, no qual os funcionários tenham consciência dos valores
da instituição e transformem esses valores em ferramentas de negócio. E
que as instituições tenham uma preocupação relativamente à sociedade.
Voltaria a ser banqueiro se pudesse criar um banco assim?
Sim, voltaria. Mas é difícil. Teria de ser um banco criado do zero, com pessoas que pensassem da mesma forma.