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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Agouros, superstições e outros esconjuros...Por que os usamos?


Livro das Pragas, Agouros, Rezas, Superstições e Outros Esconjuros - Livro  - Bertrand
in bertrand.pt


Tenho procurado explicação para muitas das expressões que tantas vezes utilizamos ou ouvimos no nosso dia a dia, tais como pragas, superstições, agouros, rezas...

Encontrei uma obra de muito interesse, da autoria de Guerra e Paz, Editores, Livros CMTV, de março de 2019, cujo título é: "Livro das Pragas, Agouros, Rezas, Superstições e outros Esconjuros", que explica muitos desses dizeres, chegando mesmo a afirmarem que este livro nos será útil desde que nos batizamos até morrermos...

O leitor deste post "Agora bata na madeira, diga "lagarto, lagarto, lagarto" - ou "águia, águia, águia", ou "dragão, dragão, dragão", claro, se as suas preferências desportivas  não aceitarem o "lagarto". 

O referido livro constitui "um verdadeiro e fascinante mundo enigmático", segundo a autoria do mesmo: já li uma parte dele e concordo inteiramente, pois trata-se de conhecer os meandros da nossa língua, de uma certa linguagem, o que nos leva a ficar a conhecer um "imenso património linguístico".

Um das centenas dos exemplos referidos é a palavra PRAGA que vem do latim "plaga-" e que significa "calamidade"; mas PRAGA também pode ter o sentido de "lançar uma maldição sobre alguém". Há as pragas literárias e em Portugal e arredores, os autores referem que são conhecidas "as pragas algarvias".

O leitor deste post quer decorar esta praga que se segue? Pode vir a dar jeito...

"Oh, maldeçoade!

Havias de apanhar uma depressom

tã grande ou tã pequena, 

que se nã compres este livro

vais ganhar uma micose tal

que só te c'rasses

com ossos de menhoca."

Explicação: "c'rasses" é o mesmo que "curasses" e "ossos de menhoca" são mesmo "ossos de minhoca"...

Os AGOUROS ou PRESSÁGIOS são aqueles sinais em que se conjetura sobre o que pode acontecer no futuro: "Ah, raisparta, o espelho partiu? Maldito espelho! Sete anos de azar agora".

Acho piada quando os autores referem que quando os temas são "pragas, maldições e superstições", valerá a pena utilizar umas fórmulas como "umas rezas e benzeduras" que até nos podem ser muito úteis. Têm razão, na medida em que sentimos que temos de nos "proteger contra estes maus-olhados".

Finalizando o meu post de hoje, (ressalvando que o tema tratado não se esgota aqui, é infindável nos seus mistérios, quero dizer que voltarei, sempre que me der prazer escrever sobre ele) vou escolher o vocábulo SUPERSTIÇÃO, que vem do latim "superstitio", que significa uma profecia (os autores acrescentam "ou medo excessivo dos deuses". 

As superstições estão ligadas à ideia de uma força sobrenatural que, com a sua ação, podem causar determinadas situações que, de um modo geral, deixam marcas negativas na pessoa, isto é, não lhe deixam boas recordações. Têm como base tradições populares, vindo dos primórdios da vida do HOMEM. Um exemplo de superstição: os jogadores de futebol entram em campo com o pé direito, benzem-se e tocam o relvado...

(para escrever este post, baseei-me na obra citada no 2º parágrafo).

sexta-feira, 18 de junho de 2021

"Longe o agouro"...

Desde sempre, ouvíamos os mais velhos dizerem que agouro era um presságio baseado na observação de factos ou objetos, uma profecia, um sinal de uma coisa negativa.

Quem não se lembra, em pequeno, de ouvir o pai ou a mãe dizer em casa: "Meninos, não se põe o chapéu ou o guarda-chuva em cima da cama, que dá azar!". Se o meu pai por acaso via facas cruzadas na mesa, dizia logo para as descruzar porque era sinal de que podia acontecer algo de mau.  

Também era hábito lá em casa ouvir dizer entre nós, quando queríamos livrar-nos de algo, repelindo o que não queríamos que nos acontecesse: "bate lá três vezes na madeira" (=o diabo seja cego, surdo e mudo; ou então, =lagarto, lagarto, lagarto= cruzes canhoto).

E, tal como estes exemplos, há outros, são inúmeros!

Uma superstição que eu ouvia muito a minha mãe era a de não deixar limpar teias de aranha onde as houvesse alojadas, pois para ela, aranhas, aranhiços e aranhões eram sinónimo de "dinheiro"! Deviam ser conservadas, era bom sinal, era dinheiro que vinha aí, e este faz sempre falta numa casa de família, por isso era bem-vindo! Assim como quando caía açúcar na toalha era sinal de sorte ou boa fortuna. Ainda um exemplo de que me lembro, dum copo que se partia, dizia-se logo que era sinal de que alguém tinha inveja de nós, mas se bebêssemos do mesmo copo de um amigo ou amiga, ficávamos a conhecer os seus segredos......

Outra superstição frequente ainda nos dias de hoje: se se oferecer lenços a uma pessoa, esta deve entregar em troca uma ou duas moedas. Na altura, quando eu era miúda, se me ofereciam meia dúzia de lenços, eu retribuía aí com uns 5 escudos; hoje, talvez convenha retribuir com 50 cêntimos..; de contrário, pode acontecer algo de mal...nunca se sabe...! 

No meu imaginário há muitos exemplos, sei que fazem parte dos saberes populares, mas é bom recordá-los e sobretudo pensar que ainda hoje muita gente continua a acreditar em pragas, agouros, rezas, superstições...uns são positivos, outros são negativos...

Partilho aqui algumas explicações para alguns presságios e que encontrei na leitura de um livro que aconselho:


in fnac.pt


Agouro ou presságio é sempre um prognóstico, um vaticínio. Em tempos bem antigos, era a predição feita pelos áugures, os sacerdotes romanos. Esse vaticínio tinha por base a observação do voo e canto das aves. Hoje, um agouro ou presságio é sempre uma predição a respeito do futuro, um indício de um acontecimento nefasto, pode até ser apenas de uma má notícia. Um sinal que prenuncia algo.

Na literatura portuguesa, de imediato, lembramo-nos de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Madalena fica intimidada com os agouros de Telmo: "..." não entremos com os teus agouros e profecias do costume: são sempre de aterrar (...) deixemo-nos de futuros (...); mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes (...) esses teus contínuos agouros em que andas sempre, de uma desgraça que está iminente sobre a nossa família (...)." Estes temores de Telmo dão força aos de Madalena e indiciam a destruição de toda a sua família, um destino irrevogável. São imensas as referências ao "dia fatal", à "hora fatal", o retrato do Manuel de Sousa a arder, o medo de sexta-feira, e, claro, como não podia deixar de ser, o célebre "Ninguém" do Romeiro.

Também em "Os Maias", de Eça de Queiroz, o tema é recorrente. Quem não se lembra da lenda recordada por Vilaça, segundo a qual "eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete", de Afonso ao se aperceber da semelhança entre o filho Pedro e o avô da sua mulher, que enlouquecera e se enforcara, a sombrinha de Maria Monforte, quando Afonso a vê pela primeira vez: "como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas".

Por outro lado, Fernando Pessoa, num poema intitulado precisamente "Presságio", julga que o amor apenas é verdadeiro quando não passa de um presságio, existindo apenas no seu interior:

"O amor quando se revela/Não se sabe revelar/Sabe bem olhar p'ra ela/Mas não lhe sabe falar             

Quem quer dizer o que sente/Não sabe o que há-de dizer/Fala: parece que mente/Cala:parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse/Se pudesse ouvir o olhar/E se um olhar lhe bastasse/P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala/Quem quer dizer quanto sente/Fica sem alma nem fala/Fica só, inteiramente/ 

Mas se isto puder contar-lhe/O que não lhe ouso contar/Já não terei que falar-lhe/Porque lhe estou a falar"

A verdade é que, desde sempre, a humanidade procurou interpretar os sinais à sua volta. Os seus significados foram sendo estabelecidos de acordo com um certo padrão de frequência. Observava-se x e, se acontecia y, então atribuía-se a x um determinado significado. O povo encarregou-se de transmitir esses conhecimentos, todo esse saber, passando-o de geração em geração.

Como é óbvio, bons agouros indiciam algo de positivo, enquanto os maus pressagiam acontecimentos ou momentos desastrosos, até mesmo fatais.

(in Livro das PRAGAS, Agouros, Rezas, Superstições e outros Esconjuros", Guerra & Paz Editores, S.A. 1ª edição, março 2019)

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Entornar sal dá azar?

Os livros que reúnem pragas, rezas, agoiros, superstições, são livros preciosos que nos transportam a um mundo cheio de enigmas. 

Para conhecer o seu conteúdo, aqui estou eu para, de vez em quando o dar a conhecer nos meus posts e transmitir quão interessante esse mundo é...

Para começar, vou transcrever do "Livro das pragas, agouros, rezas, superstições e outros esconjuros", da autoria de Guerra e Paz Editores a superstição

Entornar sal dá azar:

imagem obtida in guiadasemana.com.br

"À época, o sal era usado para conservar os alimentos. Aliás, era a única forma de conservá-lo, porque podia haver aquedutos e enormes coliseus, mas arcas frigoríficas é que não. Por isso, o sal era uma espécie de ouro, um dos materiais mais valiosos que havia. Este era um bem tão precioso que, veja-se só, os romanos eram pagos com sal. Muitas foram as fortunas amealhadas à conta do sal. Visto isto, não custa imaginar que era muito importante preservá-lo, evitando derramá-lo, o que não era muito bom sinal, pelo menos para a carteira.
Este era um bem tão precioso que, veja-se só, os romanos eram pagos com sal. Pois é. E também nós! Não consegue lembrar-se? Então no final do mês não recebe o salário? Pois, pois é... salário, de "salarium", em latim. Mais uma herança latina! 
Hoje, mantém-se esta superstição. Não convém nada entornar sal, o azar está logo ali à espreita. Haverá solução? Há, sim. Se acontecer, para afastar o azar, diz quem sabe que devemos atirar um pouco do mesmo por cima do ombro. A tradição diz que o diabo está sempre de pé atrás de nós e, dessa forma, atirando o sal para as nossas costas, conseguimos acertar-lhe nos olhos e cegá-lo. pobre diabo... mas atenção, e isto não é supersticioso: não volte a usar o sal depois de cair no chão, é que pode ter bactérias. 
No entanto, esta não é a única superstição associada ao sal. Há outras. Por exemplo, também se diz que carregar uma quantidade de sal durante o dia traz êxito nos negócios; talvez por isso, julga-se, andem os corretores de Wall Street com uma mão-cheia de sal nos bolsos dos seus Armanis. E o sal ainda serve para mais: à noite, por exemplo, protege dos males ocultos na escuridão.
Concluindo: o sal é importante, e não só para a cozinha. Não o desperdice, traga-o consigo, de dia e de noite, protegendo-se e atraindo a fortuna."