segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Portugal e Angola

Este texto que aqui transcrevo para profunda reflexão, é escrito por um jornalista angolano, atento às relações entre Portugal e Angola, tantas vezes considerados países irmãos.  

É com alguma mágoa que, depois desta leitura, concluamos: "afinal nem tudo são rosas!"... 

Sinceramente, faço votos para que os dois países, com tanta "História" em comum, se esforcem o suficiente para que as suas relações sejam de verdadeira amizade e não só "de circunstância".


in: cmjornal.pt
"Há dias ouvi o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, a justificar a sua ida a Angola para a tomada de posse de João Lourenço. “Há um presidente eleito, e o presidente da República de Portugal, uma vez convidado, vai à posse do novo presidente da República de Angola, pensando nas relações fundamentais que existem entre milhares e milhares de portugueses que estão em Angola e também alguns milhares de angolanos que estão em Portugal.”
Marcelo, o “homem dos afectos”, mostrou como as relações entre Angola e Portugal são traiçoeiras, mesmo para um homem com o seu gabarito verbal.
É ponto assente que o presidente de Portugal representa os portugueses. Por isso, teria bastado dizer que vai representá-los no seu todo.
Quanto aos “angolanos que estão em Portugal”, certamente não é o presidente português quem os representa. Além disso, o MPLA não permite que os angolanos na diáspora, incluindo em Portugal, votem. Não é a representação de Marcelo que vai suprir esse direito constitucional negado aos angolanos em Portugal.
Sobre os “portugueses em Angola”, temos aqui uma tese ofensiva amplamente difundida pelas classes política e empresarial, segundo a qual Portugal deve estar à disposição do MPLA para salvaguardar os interesses económicos e de segurança dos portugueses em Angola.
Essa tese suscita duas leituras. Primeiro, o MPLA – agora com a presidência bicéfala de José Eduardo dos Santos e João Lourenço – está colado ao poder e, por isso, é o único elemento que pode conceder oportunidades de negócios e proteger os portugueses. Esta é, mais ou menos, a leitura portuguesa.
A segunda leitura, mais de feição angolana, é crua. Se só o MPLA pode garantir negócios a Portugal e defender os portugueses em Angola, então é porque todos os outros angolanos que não são do MPLA e não estão no poder são – aos olhos dos poderes portugueses – uma ameaça aos interesses comerciais e à segurança dos portugueses em Angola.
Assim, Portugal pode desculpar qualquer acção que o MPLA empreenda contra o seu próprio povo, porque isso serve os interesses dos portugueses.
Há dias, falei com uma amiga portuguesa que esteve pela primeira vez em Angola durante as eleições. Circulou de táxi de um lado para o outro e regressou ao seu país encantada com os angolanos, o povo em geral, descrevendo algumas pessoas como “personagens fantásticos, dignos da melhor literatura”. Sentiu-se apenas intimidada e desconfortável com a arrogância e o exibicionismo da nomenclatura do MPLA, no meio de tanta miséria. De um modo geral, este tipo de opiniões, vindas de simples cidadãos, não interessa a Marcelo, nem aos políticos, empresários e comentaristas portugueses que fazem consultorias para o regime angolano.
Marcelo também mencionou os outros países que reconheceram os resultados de umas eleições sem apuramento de votos em 15 das 18 províncias. Portanto, Portugal não está sozinho. Marcelo foi apenas o primeiro e o único estadista a felicitar o regime, mesmo antes de o próprio órgão eleitoral do regime, a CNE, ter declarado a vitória do MPLA. Democracia é isso mesmo. Não é?
Neste cenário, os angolanos que não são do MPLA e que criticam a postura de Portugal são simplesmente classificados como tolos.
Há uma história comum de 500 anos, em que Portugal escravizou e colonizou os angolanos. Portanto, a relação entre os dois povos nunca foi de amizade nem de interesses comuns. Sempre foi como Portugal bem entendeu.
Todavia, em 1975, não foi o povo angolano quem pôs os portugueses em fuga atabalhoada, com uma mão à frente e outra atrás. Foi o MPLA.
Não foi o povo angolano, essa ameaça aos interesses económicos e à segurança dos portugueses, quem entregou o poder ao MPLA em 1975. Foi a própria liderança política portuguesa. Na altura, quem o fez achava – como me confidenciou um antigo diplomata português – que os do MPLA “eram os que mais se pareciam connosco” (a tese do lusotropicalismo). De igual modo, foram o Partido Comunista Português (PCP), que estava a dar cartas em Portugal, e o Movimento das Forças Armadas (MFA) quem primeiro convenceu os cubanos e os soviéticos a entrarem em Angola, dando cobertura ao MPLA, que se instalou no poder. Isto mesmo reiterou Otelo Saraiva de Carvalho em diversas ocasiões.
Nem adianta falar dos anos de Cavaco Silva e de Durão Barroso, e da implementação dos infames Acordos de Bicesse, assinados em 1990. Também eles usaram do mesmo preconceito e da mesma parcialidade dos comunistas.
Nem sequer adianta mencionar o envolvimento de uma empresa portuguesa, a SINFIC, que foi instrumental para a manipulação das eleições de 2012 e de 2017.
O cerne da desgraça e da tragédia dos angolanos parte sempre de Portugal.
O presidente português bem poderia ter dito que vai a Angola porque é uma oportunidade para transmitir o “afecto”, mesmo que cínico, do povo português para com o povo angolano.
Poderia também ter dito que vai transmitir o apoio e o encorajamento de Portugal ao novo presidente para enfrentar os desafios do desenvolvimento humano em Angola. E ficaríamos todos contentes, incluindo o próprio presidente eleito e o MPLA, porque o cinismo é uma característica que nos une.
Pensei que o presidente dos “afectos” tivesse tacto diplomático para lidar com Angola. Enganei-me. Mas não me engano quanto à hospitalidade, ao sentimento de amizade, à capacidade de perdoar e à tolerância do povo angolano.
Bem-vindo a Angola, camarada Marcelo."
(in: observador.pt  
 texto de Rafael Marques de Morais, de 25.09.2017)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

"O menino e o caixote": um conto de Mário Henrique Leiria (escritor surrealista)

Mário Henrique Leiria nasceu em 1923, foi escritor e poeta, fez parte do grupo surrealista português.

É o autor de vários contos publicados nos Contos do Gin Tónico (1973) donde são extraídos os  Novos Contos do Gin e O menino e o caixote (1978). Neles, o fio condutor é o "fantástico". 

"Partiu" em 1980!

Vamos reler "O menino e o caixote":

in: http://www.bulhosa.pt

-Não pode ser - disse o senhor Sousa ao filho, o Ernestinho de oito anos.

-Mas, papá, eu vejo nos filmes. Todos têm - afirmou a criança, à procura de uma salvação para aquilo que lhe parecia um desejo certo.


-Onde é que já se viu um leão em casa? Só nessas fitas idiotas. E, além disso, o menino não vê que não há espaço? Para a semana arranjo-lhe um gato bonito, daqueles que bebem leitinho e fazem miau. 

O Ernestinho desistiu de convencer o pai. Para quê? Era um homem com bigode, sempre a explicar o que não era preciso. Nem sequer percebia de leões.

Sentou-se no chão a pensar. Com certeza que devia haver um leão, ali em casa!

Não era a vassoura atrás da porta, nem a cadeira larga da mãe dormir aos domingos, nem sequer o embrulho do lixo à espera de ser deitado fora. Foi investigar, toda a gente sabe que os leões estão onde menos se espera.

Na cozinha, lá ao fundo, estava o caixote vazio que trouxera as compras da Cooperativa. O Ernestinho pousou-lhe a mão, acariciou-o com ternura e um certo receio.

O caixote rugiu e sacudiu a areia amarela e antiga que lhe aquecia a juba. O menino puxou-o ao de leve, como quem ensina e acompanha, e o caixote seguiu-o, pisando firme.

O Ernestinho sentou-se no chão da sala. Entre o sofá e a mesinha da televisão o caixote ficava mesmo bem, confortável, como na caverna onde nascera e dera o primeiro rugido.


-Agora vamos caçar, Baluba - explicou o Ernestinho ao caixote.

-Que faz o meninho aí com esse caixote? - perguntou severamente o senhor Sousa, abrindo a porta, de sobrolho franzido.


O menino olhou para o pai, assustado, e depois para o seu amigo Baluba.

-Mata o velho, Baluba! - gritou, num desespero.


O leão saltou veloz e, com uma única dentada eficaz, arrancou a cabeça do senhor Sousa. 

Mário-Henrique Leiria (1923-1980), "Contos do Gin-Tonic", 1973
Podem folhear o livro AQUI
Watch the book HERE  "

Referência: in studentshow.com

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Polémica: "Livros para rapazes e livros para raparigas..."

in: www.portoeditora.pt
A Porto Editora voltou a pôr "os livros da polémica" à venda, o que significa que a confusão gerada não tinha grande consistência. 

Nada como transcrever o artigo do jornal observador.pt, de 26.09.2017, para ficarmos mais esclarecidos:
"Porto Editora volta a colocar à venda livros de atividades para rapazes e raparigas
Os livros de atividades para rapazes e raparigas que a Porto Editora suspendeu depois das fortes críticas de discriminação estão novamente à venda.
A Porto Editora voltou a pôr à venda os livros de atividades para rapazes e raparigas que tinha suspendido na sequência de fortes críticas de discriminação, anunciou, esta terça-feira, a empresa.
A editora decidiu “pôr fim à suspensão de venda”, lê-se num comunicado emitido, em que a empresa livreira diz ter ficado comprovada “a não existência de qualquer discriminação” nos blocos de atividades diferenciados para rapazes e raparigas, dos quatro aos seis anos.
A empresa justifica que decidiu suspender a venda daqueles artigos para “permitir uma análise serena e ponderada do caso, sem ceder às pressões e avaliações imediatistas e precipitadas” a propósito de um caso que gerou imediata polémica assim que foi conhecido e também para denunciar o que classifica de “lamentável manipulação”.
A empresa alega agora que o relatório do Conselho Editorial da Porto Editora, com base no parecer técnico da Comissão para a Igualdade de Género (CIG) divulgado em agosto, refuta muitas das considerações formuladas por aquela entidade. Lembre-se que, na sequência das críticas, a editora e a CIG estabeleceram contactos e chegaram a um compromisso para colaborarem no futuro.
Tendo-se concretizado os objetivos pretendidos e comprovado a não existência de qualquer discriminação, põe-se fim à suspensão da venda daqueles livros no quadro do exercício pleno da liberdade de expressão da autora e das ilustradoras, bem como da liberdade de edição, respeitando estes valores fundamentais”, afirma a empresa.
No final de agosto, a CIG recomendou à Porto Editora que retirasse do mercado dois manuais com blocos de atividades, um com capa azul para os meninos e o outro em cor de rosa para as meninas, por terem exercícios distintos consoantes o género, o que, para a CIG, promovia a diferenciação entre homens e mulheres.
“A Porto Editora tem plena consciência da sua missão e da sua responsabilidade na promoção do desenvolvimento educacional, cultural e civilizacional”, sublinha a editora."

terça-feira, 26 de setembro de 2017

La vie, selon Raymond Queneau


in: http://www.imdb.com

Um pensamento fantástico de Raymond Queneau:

"La vie: un rien l'amène, un rien l'anime, un rien la mine, un rien l'emmène."

Raymond Queneau foi um poeta e escritor francês, que nasceu em Le Havre a 21 de fevereiro de 1903 e morreu a 25 de outubro de 1976, em Neuilly-sur-Seine.

Era licenciado em Latim e Grego (1919) e também em Filosofia (1920). De 1921 a 1923, frequentou a Sorbonne. Em 1924 juntou-se aos Surrealistas embora não tenha seguido nem adotado as teorias políticas destes.

A Gallimard editava os seus trabalhos; em 1938 iniciou-se ali como leitor, vindo a ser seu secretário-geral.

Compôs uma canção "Si tu t'imagines" que se popularizou numa versão de Juliette Greco.