domingo, 18 de outubro de 2020

Hoje, neste terceiro domingo de outubro, celebra-se o Dia Mundial das Missões

Celebra-se hoje, a 18 de outubro, o Dia Mundial das Missões. 

Nele se destaca o trabalho dos missionários em todo o mundo, com o objetivo de olharmos uns para os outros como "irmãos", tentando sempre, em cada momento das nossas vidas, ajudar "o próximo".

Com a devida vénia, permito-me transcrever a notícia que considero mais importante neste dia e que é da Agência Ecclesia (agencia.ecclesia.pt):

Cidade do Vaticano, 18 out 2020 (Ecclesia) – O Papa assinalou hoje no Vaticano o Dia Mundial das Missões 2020, celebrado pela Igreja Católica, destacando o trabalho dos missionários e missionárias na construção da “fraternidade”, em todo o mundo.

“Cada cristão é chamado a ser tecedor de fraternidade. São-no, de modo especial, os missionários e missionárias – sacerdotes, leigos, consagrados – que semeiam o Evangelho no grande campo do mundo. Rezemos por eles e ofereçamos-lhe o nosso apoio concreto”, disse Francisco, desde a janela do apartamento pontifício, após a recitação da oração do ângelus.

Perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, o Papa manifestou publicamente a sua gratidão pela recente libertação do padre italiano Pier Luigi Maccalli, da Sociedade de Missões Africanas.

“Desejo agradecer a Deus pela tão aguardada libertação do padre Pier Luigi Maccalli. Saudemo-lo com um aplauso”, referiu.

O missionário foi libertado a 8 de outubro, no Mali, depois de mais de dois anos em cativeiro às mãos de um grupo jihadista.

“Alegramo-nos também porque, com ele foram libertados outros 3 reféns”, disse o Papa, em referência ao italiano Nicola Chiacchio, à trabalhadora humanitária francesa Sophie Pétronin e ao político maliano Soumaila Cisse.

Francisco convidou a rezar pelos missionários, os catequistas e por todos “os que são perseguidos ou sequestrados em várias partes do mundo”.

A celebração do Dia Mundial das Missões acontece anualmente no terceiro domingo de outubro; os donativos recolhidos nas Missas destinam-se a apoiar o trabalho das Obras Missionárias Pontifícias.


Foto: Lusa/EPA


A mensagem do Papa o 94.º Dia Mundial das Missões, divulgada na última solenidade do Pentecostes (31 de maio), assume que a pandemia de Covid-19 deve ser um “desafio também para a missão da Igreja”.

“Desafia-nos a doença, a tribulação, o medo, o isolamento. Interpela-nos a pobreza de quem morre sozinho, de quem está abandonado a si mesmo, de quem perde o emprego e o salário, de quem não tem abrigo e comida”, escreve Francisco.

A mensagem sublinha ainda o impacto da suspensão das celebrações comunitárias, que levou a pensar nas “muitas comunidades cristãs que não podem celebrar a Missa todos os domingos”.

Num texto com o título ‘Eis-me aqui, envia-me’, passagem do livro bíblico do profeta Isaías (Is 6, 8), Francisco evoca as “tribulações e desafios causados pela pandemia de Covid-19” e recorda a intervenção da bênção especial ‘Urbi et Orbi’ de 27 de março, numa Praça de São Pedro deserta: “Neste barco, estamos todos”.

OC

sábado, 17 de outubro de 2020

Homenagem a TARAS SHEVTCHENKO, um poeta ucraniano


imagem in https://de.wikipedia.org/


Taras Shevtchenko, em ucraniano Тарáс Григóрович Шевчéнко, transl. Tarás Hryhórovych Shevtchénko (Moryntsi, 25 de fevereiro (c. juliano) / 9 de março de 1814 — São Petersburgo, 26 de fevereiro(c. juliano) / 10 de março de 1861), foi um poeta, pintor, desenhador, artista e humanista ucraniano. Foi fundador da literatura moderna ucraniana e visionário da Ucrânia moderna. Sua maior obra foi a colectânea poética Kobzar.

Índice



Biografia

Nascido numa família de servos, na aldeia de Moryntsi, Província de Kiev, no Império Russo (atual região de Cherkássi, Ucrânia), Shevchenko ficou órfão aos onze anos. Levado à servidão, Shevchenko torna-se propriedade do aristocratarusso, lorde Pavel Engelhardt, a quem acompanha para cidade de Vilnius (1828–31) e, posteriormente, São Petersburgo.

O famoso pintor e professor russo Karl Briullov doou o seu retrato do poeta russo Vasily Zhukovsky a uma lotaria, para angariar o dinheiro para libertar Shevtchenko, algo que aconteceu no dia 5 de Maio de 1838.

Primeiro sucesso

Neste mesmo ano Shevchenko foi aceito para estudar na Academia de Artes, no classe de Briullov. Em 1839, a Academia Imperial de Arte atribuiu uma medalha de prata a uma tela sua. Em 1840 ele publicou a sua maior obra, a colectânea poética Kobzar. Em 1841 publicou o poema épico Haydamaky, e em 1842 completou o drama Nazar Stodolya.

Exílio

Em Março de 1845, o Conselho da Academia da Arte atribuiu a Shevchenko o título de "artista". No dia 5 de Abril de 1847Shevchenko foi preso no processo da Irmandade dos Santos Cirilo e Metódio, organização política que pretendia a liberalizar o Império Russo, transformando-a numa federação de estados eslavos. Embora seja provável que Shevchenko nem fosse membro efectivo da irmandade, a polícia russa encontrou com ele o poema "Sonho" (Son), que atacava a monarquia russa, satirizava o czar Nicolau I e a sua esposa, rainha Alexandra.

Shevchenko foi enviado à prisão em São Petersburgo, e depois mandado para o exílio na base militar russa de Orsk, perto da cidade de Oremburgo, junto aos montes Urais. O czar Nicolau confirmou a sentença, acrescentando a proibição de “escrever ou desenhar”.

Em 1857 Shevchenko voltou do exílio, apôs receber o perdão real, mas na condição de não poder viver em São Petersburgo, ordenado a fixar a residência em Nijni-Novgorod. Só em Maio de 1859, Shevchenko finalmente recebeu a permissão de visitar a Ucrânia.

Morte

Taras Shevchenko dedicou os últimos anos da sua vida à poesia, pintura, gravuras, assim como a revisão do seu trabalho anterior. Mas os anos difíceis do exílio minaram a sua saúde e Shevchenko morreu em São Petersburgo no dia 10 de Março de 1861, apenas um dia após seu 47º aniversário.

Shevchenko foi primeiramente sepultado no Cemitério Smolensk, em São Petersburgo. Mas no poema "Testamento" ele expressou o seu desejo de ser sepultado na Ucrânia, algo que aconteceu em maio de 1861, nas arredores da cidade de Kaniv.

Monumentos e memoriais fora da Ucrânia



Estátua em Curitiba

São Petersburgo, inaugurado em 1 de Dezembro de 1918 pelo escultor letão Janis Tilbergs;
São Petersburgo, inaugurado em 22 de Dezembro de 2000;
Orsk, monumento no território da base militar onde Shevchenko foi soldado;
Aqtau (entre 1964 e 1992 chamada de Shevchenko).

Existem vários monumentos a Shevchenko nos países onde vive a diáspora ucraniana:

Ontário, parque memorial em Oakville;
Curitiba, monumento na Praça da Ucrânia;
Prudentópolis, o da Monumental Paróquia Católico Ucraniana São Josafat.
União da Vitória, Estátua em sua homenagem na Praça da Ucrânia.

Curiosidades

A banda britânica de rock New Order lançou um álbum de vídeo intitulado Taras Shevchenko em agosto de 1983. Ele contém o registro de um show realizado no Ukrainian National Home, em Nova Iorque, no dia 18 de novembro de 1981.

(encontrei in: de.wikipedia.org)

imagem in de.wikipedia.org


Grande poeta ucraniano Taras Shevchenko tem monumento em Lisboa

Taras Shevchenko, o mais importante poeta e humanista ucraniano, já possui monumento em Lisboa. O busto do mais famoso ucraniano de todos os tempos é da autoria do escultor português Helder de Carvalho.

No ano em que o povo ucraniano comemora os 205 anos de aniversário do nascimento do seu grande poeta Taras Shevchenko é inaugurado na Praça de Itália, Lisboa, um monumento com o busto do poeta. Na cerimónia, que decorreu a 14 de setembro, esteve presente a vereadora da Cultura e das Relações Internacionais da Camara Municipal de Lisboa (CML), Catarina Vaz Pinto e a Embaixadora da Ucrânia, em Lisboa, Ohnivets Inna Vasylivna.

Taras Shevchenko é considerado o mais importante poeta ucraniano de todos os tempos em se destaca a sua grande obra poética “Kobzar”. Taras Shevchenko foi também pintor, desenhador, artista, pensador e humanista, um visionário de uma Ucrânia moderna.

Considerado o mais ilustre dos ucranianos Taras Shevchenko tem inspirado ao longo do tempo o povo ucraniano na procura pela democracia e pelo progresso. Os seus poemas mantêm-se atuais, sendo muitas vezes citados, lidos ou declamados em momentos em que a liberdade e a justiça parece estarem em perigo.

O monumento a Taras Shevchenko, em Lisboa, da autoria do escultor português Helder de Carvalho, junta-se aos 128 existentes fora da Ucrânia, em 35 países.

Em Portugal o monumento era há muito desejado pela vasta comunidade de ucranianos residentes no país, no entanto, o processo demorou 8 anos a ser concretizado, desde a atribuição pela CML do local de implantação, passando pelo desenvolvimento de um concurso para a criação da obra e a atribuição, a 23 de março de 2019, ao escultor Hélder de Carvalho para a construção do monumento com o busto do poeta.

Taras Shevchenko, que viveu de 1814 a 1861, teve uma vida curta e difícil, pois dos 47 anos de vida 24 anos foram passados em escravidão e 10 no exílio, mas a sua obra perdura no tempo e encontra-se interiorizada em cada um dos ucranianos nas suas vontades e determinações. Um símbolo que se confunde com a própria nação ucraniana.

“Lutai! Combatei! Deus ajuda-vos! Convosco está a verdade, a glória e a sagrada liberdade”, o hino Kobzar, que o povo ucraniano tem como tesouro espiritual nacional. Para os ucranianos o Kobzar de Shevchenko mantém-se junto do pão, com as canções a serem bordadas em toalhas.

(encontrei in: tveuropa.pt)

Vamos lá ouvir o grupo "Tones and I" em "Dance Monkey" e dançar com ele...

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Novas medidas do Governo no sentido de "travar a pandemia"

Passamos hoje de estado de contingência a estado de calamidade. São aplicadas medidas mais restritivas. 


in atlasdasaude.pt


Será que devemos tirar a conclusão de que  tudo isto acontece porque não fomos suficientemente cumpridores?

O jornal on-line observador informa: 

As oito novas grandes medidas do Governo para travar a pandemia

O primeiro-ministro António Costa decidiu ser ele a falar esta quarta-feira no fim do Conselho de Ministros para anunciar a passagem do “estado de contingência” para o “estado de calamidade” em todo país no combate à pandemia de Covid-19. São aplicadas medidas mais restritivas como o limite dos ajuntamentos a 5 pessoas, a limitação de casamentos a 50 pessoas, a proibição de festas académicas ou o início de um processo legislativo para que a máscara passe a ser obrigatória na rua.
Ajuntamentos limitados a 5 pessoas na via pública: significa uma redução para metade, numa medida que entrará em vigor já a partir da meia-noite desta quarta-feira. Até agora, era possível haver ajuntamentos de 10 pessoas.
Casamentos limitados a 50 pessoas: o Governo assume que as celebrações são um problema depois da Direção-Geral de Saúde ter admitido na última semana que 67% das novas infeções resultaram de três bês: Batizados, banquetes e bodas. António Costa que todos os eventos marcados a partir de agora ficam com esta lotação limitada e também com a obrigação de cumprir todas as regras. Isto, claro, sem exageros. “Não vamos proibir que os noivos se beijem”, disse o primeiro-ministro.
Proibição de todos os festejos académicos nas universidades e politécnicos: Medida surge depois de notícias de infeções em festas académicas, numa altura do ano letivo profícua a este tipo de atividades.
Determinar o reforço da fiscalização das forças de segurança e da ASAE. 
Multas de 10 mil euros para estabelecimentos comerciais que desrespeitem as regras.
O Governo recomenda no imediato o uso de máscara na via pública, sempre que não se puder manter o distanciamento físico;
E vai apresentar ainda esta segunda-feira uma proposta de lei no Parlamento para fixar obrigatoriedade de uso de máscara na via pública sempre que se justificar;
Governo vai apresentar proposta de lei no Parlamento para que a app #StayAwayCovid passe a ser obrigatória em contexto escolar, administração pública, laboral, e forças armadas.

(in observador.pt, texto de Rui Pedro Antunes e Rita Dinis)

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Amemos e protejamos as aves!

imagem in: https://super.abril.com.br/blog/

Li uma notícia muito interessante na Revista Sábado (nº 856 de 24 a 30 setembro 2020) a propósito de três papagaios.

Ora vejamos como a Sábado noticiou algo insólito:

"UM TRIBUNAL HOLANDÊS condenou uma empresa de balões de ar quente a pagar 68 mil euros a um colecionador de papagaios, pela morte de três aves. A justiça considerou que os pássaros morreram de stress provocado pelo lançamento de um balão, a 50 metros da gaiola".


in pt.wikipedia.org

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Quino e a sua Mafalda

in veja.abril.com.br

Presto aqui a minha homenagem a esse grande criador de uma das personagens mais interessantes de Banda Desenhada: Mafalda, essa miúda espertíssima e irreverente! 

Para a homenagem ser completa, não há como reler toda a B.D. da Mafalda!


Morreu esta quarta-feira na Argentina o desenhador Joaquín Salvador Lavado, mundialmente conhecido pela criação da personagem de banda desenhada Mafalda. A notícia da morte de Quino, como se tornou conhecido enquanto artista, foi confirmada pelo seu editor, Daniel Divinsky, na rede social Twitter. Tinha 88 anos e nos últimos tempos deslocava-se em cadeira de rodas e afastara-se dos holofotes. Vivia em Mendoza, cidade onde nasceu e se instalou em 2017 após a morte da mulher, a engenheira química de origem italiana Alicia Colombo.

Foi o “humorista gráfico mais internacional e mais traduzido da língua espanhola”, escreveu o El País. “Não há geração neste momento, em dezenas de países, que não chore a perda de um dos autores argentinos mais traduzidos, de par com Borges, Sabato e Cortázar”, acrescentou o diário argentino La Nación. “Que Mafalda ficou desconsoladamente órfã, é hoje o lugar-comum mais triste do mundo.”

Através da inconformada Mafalda, menina de seis anos da classe média argentina, fã dos Beatles e de panquecas, sempre avessa a comer sopa, Quino veiculou as suas angústias existenciais e críticas perante as injustiças sociais, recordou a Folha de S. Paulo. Mafalda preocupava-se com o rumo da humanidade e a paz no mundo. E o autor também.Esta e outras personagens de Quino pautaram-se pelo humor negro e corrosivo acerca de realidades sociais e políticas. Tinham-no marcado os efeitos da Guerra Civil Espanhola e da II Guerra Mundial e os debates políticos que em criança ouvia em casa entre a avó comunista e os pais republicanos. “Criado entre lutos e guerras, parece mover-se entre uma sensibilidade ardente pelo sofrimento dos fracos e uma repulsa escancarada por qualquer tipo de poder”, qualificou um repórter do El País, que o visitou em 2014.

Vendeu milhões de livros em todo o mundo e a sua banda desenhada encontra-se traduzida em mais de trinta línguas, incluindo inglês, português, francês e japonês. Mafalda, A Contestatária foi o primeiro álbum de Quino publicado em Portugal, com chancela das Publicações Dom Quixote, em 1972. Este mesmo livro tinha tido uma primeira edição italiana com prefácio do filósofo Umberto Eco, que se contava entre os admiradores da personagem.
Filho de andaluzes que emigraram para a Argentina

Joaquín Salvador Lavado nasceu a 17 de julho de 1932 em Mendoza, junto aos Andes. Os pais, Cesário e Antonia, eram espanhóis e por volta de 1919 tinham emigrado de Fuengirola, em Málaga (Andaluzia), para a Argentina. Ainda em criança decidiu que queria ser cartoonista, ao ver desenhar um tio designer gráfico que vivia na mesma casa. A família era remedida, o pai trabalhava como empregado de mesa, havia mais dois irmãos.

Quino não gostava de jogar futebol nem de sair com as raparigas e também não via televisão. Reservado e solitário, passava os dias da infância a fazer desenhos na mesa da cozinha, literalmente em cima do tampo da mesa. Na cidade viviam muitos imigrantes sírio-libaneses, italianos, espanhóis. Mas ele “nunca deixou que os estímulos do mundo real o fizessem perder muito tempo”, narrou La Nación.

Interessava-lhe um mundo imaginário e infantil, o lugar onde tudo é possível. “De cada vez que calçava os sapatos e notava que estavam a ficar apertados, invadia-me um desespero enorme. Não queria ser grande. Achava péssimo. Quando somos pequenos, os outros é que cuidam de nós”, disse uma vez. “A velhice é uma porcaria que assusta muito. Dou um sentido político à velhice. É como se Pinochet lhe caísse em cima e começasse a proibir coisas: isto não, aquilo tampouco”, afirmou em 2014.

O conhecido desenhador argentino Miguel Rep escreveu esta quarta-feira nas redes sociais que Quino foi para ele um segundo pai. E a vice-presidente Cristina Kirchner prestou tributo ao artista com um “até sempre, mestre”. 

O filósofo argentino José Pablo Feinmann escreveu no jornal Página 12 que Mafalda era “literatura desenhada” e que os desenhos do autor “são obras-primas obsessivamente trabalhadas” primeiros anos de escola, a obrigação de desenhar mapas, rios ou corpo humano correspondeu a um tempo de júbilo perante a hipótese de pôr em prática aquilo de que mais gostava. Mas entre os 10 e os 18 anos perdeu a mãe (com cancro) e o pai (ataque cardíaco), e nem chegou a terminar o ensino secundário. Frequentou um curso de belas-artes, mas abandonou-o, sem concluir. Tinha já a vocação genial, como quem tivesse passado anos a ser corrigido e moldado na instrução formal. O rigor de filigrana que haveria de o acompanhar vinha-lhe também de empréstimo pelos autores que mais admirava: Sempé, Jean-Maurice Bosc, Harvec, Faizant, Claude Serre ou Chaval, escreveu a imprensa argentina.
E assim nasceu Mafalda

Deixou Mendoza aos 22 anos e dirigiu-se para Buenos Aires, depois de uma primeira tentativa que durara pouco tempo. “Vivi em pensões, com três tipos num quarto, com bastante prostituição. Impressionava-me muito. Era muito estranho para mim. Pouco tempo depois conheci Alicia, que era amiga da namorada de um primo. Mas durante cinco ou seis anos fomos amigos, não nos ocorreu que podíamos ficar juntos”, contou numa entrevista. Casaram-se em 1960 e passaram a lua-de-mel no Rio de Janeiro.


Publicou os primeiros desenhos em 1954 na revista Esto Es. A personagem Mafalda surgiu no início dos anos 60, por causa de um trabalho de publicidade. Tinha encontrado emprego como artista publicitário e nessa condição encomendaram-lhe tiras cómicas para jornais, que mostrassem uma família a usar eletrodomésticos da marca Mandsfield — nome que deu origem a “Mafalda” pela proximidade fonética. As tiras foram rejeitadas pelos jornais, por as considerarem uma publicidade demasiado parecida com a banda desenhada que costumavam publicar.

Quino acabaria por recuperar Mafalda pouco depois, já sem qualquer propósito publicitário. A primeira história saiu em 1964 na revista Primera Plana, de Buenos Aires. Continuou a publicar tiras de Mafalda até 1973: na revista Siete Días, a 25 de junio de 1973, saiu a última, exatamente 1.928 tiras depois. Dizia-se esgotado pelos prazos apertados dos jornais. A personagem era já eterna.

Nos últimos anos, relatou a Folha de S. Paulo, Mafalda foi adotada por movimentos feministas argentinos, com o aval do próprio artista, e chegou a ser utilizada em campanhas a favor da legalização do aborto.


Em entrevistas na década de 90 chegou a dizer que o ponto final nas histórias de Mafalda se teria devido não apenas a vontade própria, mas a pressões políticas. “Se continuasse a desenhar, poderia ter sido baleado”, afirmou. Naqueles inícios de 70, com Isabelita Perón na presidência, a Argentina vivia a ferro e fogo, com perseguição de artistas e intelectuais e uma profunda crise económica e social, que desembocou na ditadura de 1976-83. Nesse mesmo período, Quino e a mulher exilaram-se em Milão.

Sem Mafalda, Quino dedicou-se a outros trabalhos, muitas vezes ao serviço de causas: campanhas da UNICEF, da Cruz Vermelha e mais tarde do próprio governo argentino. Entre 1989 e 2006 desenhou para a revista de domingo do jornal portenho Clarín. Retirou-se, doente, com um glaucoma.

Recebeu a ordem oficial da Legião de Honra de França, o Prémio de Caricatura La Catrina, da Feira do Livro de Guadalajara, em 2003; e o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em 2014. Até 2017, viveu em Buenos Aires, num pequeno apartamento do Bairro Norte.

“As paredes estão repletas de desenhos de amigos — REP, Crist, Fontanarrosa —, diplomas e prémios vários. Atrás da sua mesa há uma estante com livros de arte, as portas de vidro cobertas por desenhos e fotos. O pulso treme-lhe um pouco e parece ter uma perna um tanto rígida, mas quando fala a voz é firme e, por detrás dos óculos, os olhos focam claramente o olhar do interlocutor”, contou o El País, que o visitou há seis anos.


Reações em Espanha e na Argentina

Pablo Iglesias, vice-primeiro ministro de Espanha, reagiu à morte do “grande Quino, pai de Mafalda e de milhares de histórias que nos fizeram sorrir e pensar”. Ireno Montero, ministra espanhola da Igualdade, fez eco das palavras de Iglesias, afirmando: “Mafalda e as outras criações de Quino acompanharam-nos sempre, ajudando-nos a rir e a pensar. E nunca deixarão de o fazer”.

Em reconhecimento pelo trabalho de Quino, também a Real Academia Espanhola publicou na quarta-feira à tarde uma mensagem no Twitter, pondo em destaque o facto de se tratar de “um dos mais internacionais desenhadores da língua espanhola”, cujas “palavras certeiras viajaram entre ambos os lados do Atlântico”.

O conhecido desenhador argentino Miguel Rep escreveu esta quarta-feira nas redes sociais que Quino foi para ele um segundo pai. E a vice-presidente Cristina Kirchner prestou tributo ao artista com um “até sempre, mestre”. O filósofo argentino José Pablo Feinmann escreveu no jornal Página 12 que Mafalda era “literatura desenhada” e que os desenhos do autor “são obras-primas obsessivamente trabalhadas”.

(in observador.pt 30 setembro 2020 texto de Bruno Horta e Rita Cipriano)