segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Amemos e protejamos as aves!

imagem in: https://super.abril.com.br/blog/

Li uma notícia muito interessante na Revista Sábado (nº 856 de 24 a 30 setembro 2020) a propósito de três papagaios.

Ora vejamos como a Sábado noticiou algo insólito:

"UM TRIBUNAL HOLANDÊS condenou uma empresa de balões de ar quente a pagar 68 mil euros a um colecionador de papagaios, pela morte de três aves. A justiça considerou que os pássaros morreram de stress provocado pelo lançamento de um balão, a 50 metros da gaiola".


in pt.wikipedia.org

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Quino e a sua Mafalda

in veja.abril.com.br

Presto aqui a minha homenagem a esse grande criador de uma das personagens mais interessantes de Banda Desenhada: Mafalda, essa miúda espertíssima e irreverente! 

Para a homenagem ser completa, não há como reler toda a B.D. da Mafalda!


Morreu esta quarta-feira na Argentina o desenhador Joaquín Salvador Lavado, mundialmente conhecido pela criação da personagem de banda desenhada Mafalda. A notícia da morte de Quino, como se tornou conhecido enquanto artista, foi confirmada pelo seu editor, Daniel Divinsky, na rede social Twitter. Tinha 88 anos e nos últimos tempos deslocava-se em cadeira de rodas e afastara-se dos holofotes. Vivia em Mendoza, cidade onde nasceu e se instalou em 2017 após a morte da mulher, a engenheira química de origem italiana Alicia Colombo.

Foi o “humorista gráfico mais internacional e mais traduzido da língua espanhola”, escreveu o El País. “Não há geração neste momento, em dezenas de países, que não chore a perda de um dos autores argentinos mais traduzidos, de par com Borges, Sabato e Cortázar”, acrescentou o diário argentino La Nación. “Que Mafalda ficou desconsoladamente órfã, é hoje o lugar-comum mais triste do mundo.”

Através da inconformada Mafalda, menina de seis anos da classe média argentina, fã dos Beatles e de panquecas, sempre avessa a comer sopa, Quino veiculou as suas angústias existenciais e críticas perante as injustiças sociais, recordou a Folha de S. Paulo. Mafalda preocupava-se com o rumo da humanidade e a paz no mundo. E o autor também.Esta e outras personagens de Quino pautaram-se pelo humor negro e corrosivo acerca de realidades sociais e políticas. Tinham-no marcado os efeitos da Guerra Civil Espanhola e da II Guerra Mundial e os debates políticos que em criança ouvia em casa entre a avó comunista e os pais republicanos. “Criado entre lutos e guerras, parece mover-se entre uma sensibilidade ardente pelo sofrimento dos fracos e uma repulsa escancarada por qualquer tipo de poder”, qualificou um repórter do El País, que o visitou em 2014.

Vendeu milhões de livros em todo o mundo e a sua banda desenhada encontra-se traduzida em mais de trinta línguas, incluindo inglês, português, francês e japonês. Mafalda, A Contestatária foi o primeiro álbum de Quino publicado em Portugal, com chancela das Publicações Dom Quixote, em 1972. Este mesmo livro tinha tido uma primeira edição italiana com prefácio do filósofo Umberto Eco, que se contava entre os admiradores da personagem.
Filho de andaluzes que emigraram para a Argentina

Joaquín Salvador Lavado nasceu a 17 de julho de 1932 em Mendoza, junto aos Andes. Os pais, Cesário e Antonia, eram espanhóis e por volta de 1919 tinham emigrado de Fuengirola, em Málaga (Andaluzia), para a Argentina. Ainda em criança decidiu que queria ser cartoonista, ao ver desenhar um tio designer gráfico que vivia na mesma casa. A família era remedida, o pai trabalhava como empregado de mesa, havia mais dois irmãos.

Quino não gostava de jogar futebol nem de sair com as raparigas e também não via televisão. Reservado e solitário, passava os dias da infância a fazer desenhos na mesa da cozinha, literalmente em cima do tampo da mesa. Na cidade viviam muitos imigrantes sírio-libaneses, italianos, espanhóis. Mas ele “nunca deixou que os estímulos do mundo real o fizessem perder muito tempo”, narrou La Nación.

Interessava-lhe um mundo imaginário e infantil, o lugar onde tudo é possível. “De cada vez que calçava os sapatos e notava que estavam a ficar apertados, invadia-me um desespero enorme. Não queria ser grande. Achava péssimo. Quando somos pequenos, os outros é que cuidam de nós”, disse uma vez. “A velhice é uma porcaria que assusta muito. Dou um sentido político à velhice. É como se Pinochet lhe caísse em cima e começasse a proibir coisas: isto não, aquilo tampouco”, afirmou em 2014.

O conhecido desenhador argentino Miguel Rep escreveu esta quarta-feira nas redes sociais que Quino foi para ele um segundo pai. E a vice-presidente Cristina Kirchner prestou tributo ao artista com um “até sempre, mestre”. 

O filósofo argentino José Pablo Feinmann escreveu no jornal Página 12 que Mafalda era “literatura desenhada” e que os desenhos do autor “são obras-primas obsessivamente trabalhadas” primeiros anos de escola, a obrigação de desenhar mapas, rios ou corpo humano correspondeu a um tempo de júbilo perante a hipótese de pôr em prática aquilo de que mais gostava. Mas entre os 10 e os 18 anos perdeu a mãe (com cancro) e o pai (ataque cardíaco), e nem chegou a terminar o ensino secundário. Frequentou um curso de belas-artes, mas abandonou-o, sem concluir. Tinha já a vocação genial, como quem tivesse passado anos a ser corrigido e moldado na instrução formal. O rigor de filigrana que haveria de o acompanhar vinha-lhe também de empréstimo pelos autores que mais admirava: Sempé, Jean-Maurice Bosc, Harvec, Faizant, Claude Serre ou Chaval, escreveu a imprensa argentina.
E assim nasceu Mafalda

Deixou Mendoza aos 22 anos e dirigiu-se para Buenos Aires, depois de uma primeira tentativa que durara pouco tempo. “Vivi em pensões, com três tipos num quarto, com bastante prostituição. Impressionava-me muito. Era muito estranho para mim. Pouco tempo depois conheci Alicia, que era amiga da namorada de um primo. Mas durante cinco ou seis anos fomos amigos, não nos ocorreu que podíamos ficar juntos”, contou numa entrevista. Casaram-se em 1960 e passaram a lua-de-mel no Rio de Janeiro.


Publicou os primeiros desenhos em 1954 na revista Esto Es. A personagem Mafalda surgiu no início dos anos 60, por causa de um trabalho de publicidade. Tinha encontrado emprego como artista publicitário e nessa condição encomendaram-lhe tiras cómicas para jornais, que mostrassem uma família a usar eletrodomésticos da marca Mandsfield — nome que deu origem a “Mafalda” pela proximidade fonética. As tiras foram rejeitadas pelos jornais, por as considerarem uma publicidade demasiado parecida com a banda desenhada que costumavam publicar.

Quino acabaria por recuperar Mafalda pouco depois, já sem qualquer propósito publicitário. A primeira história saiu em 1964 na revista Primera Plana, de Buenos Aires. Continuou a publicar tiras de Mafalda até 1973: na revista Siete Días, a 25 de junio de 1973, saiu a última, exatamente 1.928 tiras depois. Dizia-se esgotado pelos prazos apertados dos jornais. A personagem era já eterna.

Nos últimos anos, relatou a Folha de S. Paulo, Mafalda foi adotada por movimentos feministas argentinos, com o aval do próprio artista, e chegou a ser utilizada em campanhas a favor da legalização do aborto.


Em entrevistas na década de 90 chegou a dizer que o ponto final nas histórias de Mafalda se teria devido não apenas a vontade própria, mas a pressões políticas. “Se continuasse a desenhar, poderia ter sido baleado”, afirmou. Naqueles inícios de 70, com Isabelita Perón na presidência, a Argentina vivia a ferro e fogo, com perseguição de artistas e intelectuais e uma profunda crise económica e social, que desembocou na ditadura de 1976-83. Nesse mesmo período, Quino e a mulher exilaram-se em Milão.

Sem Mafalda, Quino dedicou-se a outros trabalhos, muitas vezes ao serviço de causas: campanhas da UNICEF, da Cruz Vermelha e mais tarde do próprio governo argentino. Entre 1989 e 2006 desenhou para a revista de domingo do jornal portenho Clarín. Retirou-se, doente, com um glaucoma.

Recebeu a ordem oficial da Legião de Honra de França, o Prémio de Caricatura La Catrina, da Feira do Livro de Guadalajara, em 2003; e o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em 2014. Até 2017, viveu em Buenos Aires, num pequeno apartamento do Bairro Norte.

“As paredes estão repletas de desenhos de amigos — REP, Crist, Fontanarrosa —, diplomas e prémios vários. Atrás da sua mesa há uma estante com livros de arte, as portas de vidro cobertas por desenhos e fotos. O pulso treme-lhe um pouco e parece ter uma perna um tanto rígida, mas quando fala a voz é firme e, por detrás dos óculos, os olhos focam claramente o olhar do interlocutor”, contou o El País, que o visitou há seis anos.


Reações em Espanha e na Argentina

Pablo Iglesias, vice-primeiro ministro de Espanha, reagiu à morte do “grande Quino, pai de Mafalda e de milhares de histórias que nos fizeram sorrir e pensar”. Ireno Montero, ministra espanhola da Igualdade, fez eco das palavras de Iglesias, afirmando: “Mafalda e as outras criações de Quino acompanharam-nos sempre, ajudando-nos a rir e a pensar. E nunca deixarão de o fazer”.

Em reconhecimento pelo trabalho de Quino, também a Real Academia Espanhola publicou na quarta-feira à tarde uma mensagem no Twitter, pondo em destaque o facto de se tratar de “um dos mais internacionais desenhadores da língua espanhola”, cujas “palavras certeiras viajaram entre ambos os lados do Atlântico”.

O conhecido desenhador argentino Miguel Rep escreveu esta quarta-feira nas redes sociais que Quino foi para ele um segundo pai. E a vice-presidente Cristina Kirchner prestou tributo ao artista com um “até sempre, mestre”. O filósofo argentino José Pablo Feinmann escreveu no jornal Página 12 que Mafalda era “literatura desenhada” e que os desenhos do autor “são obras-primas obsessivamente trabalhadas”.

(in observador.pt 30 setembro 2020 texto de Bruno Horta e Rita Cipriano)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Dia Internacional da Música

in calendarr.com


Hoje é dia 01 de outubro, comemora-se o Dia Internacional da Música.

Ao pesquisar na NET, descobri algumas curiosidades sobre este dia:


O Dia Mundial da Música comemora-se anualmente a 1 de outubro.

A data foi instituída em 1975 pelo International Music Council, uma instituição fundada em 1949 pela UNESCO, que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música.

Celebração do dia mundial da música

Objetivos do Dia Mundial da Música:
Promover a arte musical em todos os setores da sociedade;
Divulgar a diversidade musical;
Aplicação dos ideais da UNESCO, como a paz e amizade entre as pessoas, a evolução das culturas e a troca de experiências.

Neste dia decorrem vários concertos em todo o país, de forma a celebrar o Dia Mundial da Música. Muitos destes concertos são de entrada livre. Este é também o dia ideal para comprar discos e instrumentos musicais, uma vez que várias lojas apresentam descontos em artigos de música.

A música é uma forma de arte adorada por milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, fazendo parte do quotidiano. A música é até uma forma de unir as pessoas do mundo e é considerada como um alimento para a alma.

Frases sobre música

A parte boa da música é que quando ela te atinge, não sentes dor alguma. (Bob Marley)
A música não mente. Se há algo que tem de ser mudado neste mundo, apenas poderá acontecer através da música. (Jimi Hendrix)
A vida, sem música, seria um erro. (Friedrich Nietzsche)
A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas. (Bono)
Onde as palavras falham, a música fala. (Hans Christian Andersen)
A música é uma forma de arte que transcende a linguagem. (Herbie Hancock)

(encontrei em: calendarr.com)

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Homenagem a Ruth Bader Ginsburg

 

in pt.wikipedia.org

Ruth Bader Ginsburg (1933-2020) foi a segunda mulher a chegar ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos. 

Ativista feminista, marcou os anos 70, lutando pela igualdade salarial ou o aborto, pelo direito ao trabalho, defensora da representatividade. 

Ficou conhecida pela resposta que deu quando lhe perguntaram: "Quando é que o Supremo Tribunal terá mulheres suficientes?" - 'quando forem nove' - (é o número total de Juízes)! A sua vocação principal era "tornar melhor a vida dos que não têm a nossa sorte: é isso que eu acho ser uma vida afortunada."

Morreu há dias, a 18 de setembro.

Ginsburg, conhecida pela sigla RBG, popularizada como a “notável RBG”, tornara-se nos últimos anos um ícone da esquerda americana por liderar a ala liberal do tribunal, o que não deixa de ser um sinal dos tempos ara alguém que nestes tempos de polarização se definia como moderada e independente. Por isso é por aí que começo e por um texto que não é de nenhum jornal americano, mas do espanhol El Pais: Somos diferentes. Somos uno. Escrito pelo fundador do diário madrileno, Juan Luis Cebrián, nele sublinha-se preisamente que “En la hora de los elogios y la admiración a la jueza Ginsburg no estaría de más que nuestros políticos de uno y otro signo aprendieran de su ejemplo y sabiduría. Aunque sus simpatías estaban con el Partido Demócrata, nunca se consideró a sí misma conservadora o liberal, sino independiente, y defendió la moderación y el compromiso, la apelación y el respeto a ley como la mejor manera de garantizar la convivencia y la paz. (…) Sus severas diferencias con los jueces conservadores y su jefe de filas, Antonin Scalia, no la impidieron votar muchas veces a su lado cuando consideraba que las decisiones a tomar eran justas. Y lejos de producir una animadversión personal generaron una complicidad extrema hasta el punto de que ambos, amantes de la ópera, interpretaron la bufonada que un músico amigo les regaló, y participaron como figurantes en varias representaciones del Teatro Nacional de Washington. El libreto al que pertenece la frase que introduce este artículo encerraba un mensaje explícito: “Somos diferentes.Somos uno”.

É muito interessante que muitos obituários recordem esta ópera que juntava os dois chefes de fila dos dois sectores do Supremo Tribunal, e sempre o façam para recordar que apesar de divergirem profundamente nunca deixaram não só de se respeitar como de ser amigos – amigos de casa. De resto é precisamente com esta ópera que a The Economist abre o seu texto sobre Ruth Bader Ginsburg, The liberal conscience of America’s Supreme Court: “In the evening of July 11th 2015, Ruth Bader Ginsburg went to the opera. There was nothing odd in that. Opera, after the law, was her great love, the only place where she could leave the legal world behind. (…) This particular opera, however, “Scalia/Ginsburg”, by Derrick Wang, was about her. It featured Antonin Scalia, then the court’s most scathing conservative, and she, its most notorious liberal, duelling musically in the styles of Mozart, Verdi and Puccini. He had to go through various trials; she helped him out, at one point soaring through a glass ceiling in the character of the Queen of the Night from “The Magic Flute”. She loved it all. She and Scalia, despite the legal zingers he tossed in her direction, had been best buddies since their days together on the DC federal appeals court in the 1980s. And America’s highest court could be just as dramatic, even if more sombrely arrayed.”

Não é habitual enviar-vos esta newsletter no início da semana, e na verdade ela foi escrito para ser enviada na sexta-feira, mas acabou por “ficar no estaleiro” pelo que, com pequenas adaptações, segue hoje pois o tema, na minha perspectiva, não perdeu actualidade. É certo que durante o fim-de-semana a actualidade evoluiu – já temos uma candidata ao preenchimento da vaga no Supremo Tribunal dos Estados Unidos, Amy Coney Barrett – mas isso não deve prejudicar aquilo que pretendia com este Macroscópio. E sendo certo que a partir daqui, como explicou o João de Almeida Dias em vai ser a discussão sobre quem sucederá a Ruth Bader Ginsburg – que morreu a 19 de Setembro aos 87 anos – que dominará a campanha nos Estados Unidos, o que pretendia era precisamente evitar essa discussão e centrar-me na figura e no legado da juíza que durante 27 anos ocupou uma das nove cadeiras do mais importante tribunal dos Estados Unidos. A todos os títulos ela merece e, nos tempos de tribalismo que vivemos, o seu exemplos também deve ser recordado.

Antes de lá irmos é bom termos presente a importância que o Supremo Tribunal tem no sistema constitucional dos Estados Unidos e na forma como nele se equilibram – no fundo como se dividem e controlam – os poderes. Os juízes são nomeados sem limite de mandato e como a Constituição dos Estados Unidos é muito curta, compete-lhes interpretá-la e isso dá-lhes um enorme poder. O equilíbrio entre juízes mais conservadores (ou mais de direita) e mais liberais (ou mais de esquerda) tem variado ao longo das décadas, sendo que houve juízes que evoluíram nas suas posições já depois de terem sido nomeados para o tribunal, uns tornando-se mais conservadores, outros mais liberais. O que o equilíbrio de forças nesse tribunal pode significar para o futuro dos Estados Unidos está bem sintetizado neste artigo de Russel Berman na The Atlantic, What Ruth Bader Ginsburg’s Death Means for America.

Mas vamos ao que interessa, Ruth Bader Ginsburg, alguém cuja vida e a carreira profissional como jurista é bem o exemplo do sonho americano, como escrevia Miguel Monjardino no Expresso, em Ginsburg e o mapa da América: “O pai, contabilista, emigrou de Odessa; a mãe nasceu pouco depois de a sua família ter imigrado da Polónia. “Qual é a diferença entre um contabilista de Broo­klyn e uma juíza do Supremo Tribunal?”, perguntou em tempos . “Uma geração”, foi a sua resposta.”

Ginsburg, conhecida pela sigla RBG, popularizada como a “notável RBG”, tornara-se nos últimos anos um ícone da esquerda americana por liderar a ala liberal do tribunal, o que não deixa de ser um sinal dos tempos ara alguém que nestes tempos de polarização se definia como moderada e independente. Por isso é por aí que começo e por um texto que não é de nenhum jornal americano, mas do espanhol El Pais: Somos diferentes. Somos uno. Escrito pelo fundador do diário madrileno, Juan Luis Cebrián, nele sublinha-se preisamente que “En la hora de los elogios y la admiración a la jueza Ginsburg no estaría de más que nuestros políticos de uno y otro signo aprendieran de su ejemplo y sabiduría. Aunque sus simpatías estaban con el Partido Demócrata, nunca se consideró a sí misma conservadora o liberal, sino independiente, y defendió la moderación y el compromiso, la apelación y el respeto a ley como la mejor manera de garantizar la convivencia y la paz. (…) Sus severas diferencias con los jueces conservadores y su jefe de filas, Antonin Scalia, no la impidieron votar muchas veces a su lado cuando consideraba que las decisiones a tomar eran justas. Y lejos de producir una animadversión personal generaron una complicidad extrema hasta el punto de que ambos, amantes de la ópera, interpretaron la bufonada que un músico amigo les regaló, y participaron como figurantes en varias representaciones del Teatro Nacional de Washington. El libreto al que pertenece la frase que introduce este artículo encerraba un mensaje explícito: “Somos diferentes. Somos uno”.

É muito interessante que muitos obituários recordem esta ópera que juntava os dois chefes de fila dos dois sectores do Supremo Tribunal, e sempre o façam para recordar que apesar de divergirem profundamente nunca deixaram não só de se respeitar como de ser amigos – amigos de casa. De resto é precisamente com esta ópera que a The Economist abre o seu texto sobre Ruth Bader Ginsburg, The liberal conscience of America’s Supreme Court: “In the evening of July 11th 2015, Ruth Bader Ginsburg went to the opera. There was nothing odd in that. Opera, after the law, was her great love, the only place where she could leave the legal world behind. (…) This particular opera, however, “Scalia/Ginsburg”, by Derrick Wang, was about her. It featured Antonin Scalia, then the court’s most scathing conservative, and she, its most notorious liberal, duelling musically in the styles of Mozart, Verdi and Puccini. He had to go through various trials; she helped him out, at one point soaring through a glass ceiling in the character of the Queen of the Night from “The Magic Flute”. She loved it all. She and Scalia, despite the legal zingers he tossed in her direction, had been best buddies since their days together on the DC federal appeals court in the 1980s. And America’s highest court could be just as dramatic, even if more sombrely arrayed.”

Este posicionamento não impediu que Ginsburg se afirmasse, como escreveu o Guardian, como uma “champion of women’s rights”: “In her 27 years on the supreme court bench, she was a consistent moderate liberal. Her role as the senior liberal justice, after 2010, became increasingly important as the balance of opinion shifted in the court, and her scathing dissents on conservative majority decisions, particularly on women’s rights, made her a celebrated figure on the left.” (—) “In recent years Ginsburg was treated, as one New Yorker writer said, as “a pop culture feminist icon, a comic book superhero”. She was formidably clever, and had in her youth almost superhuman capacity for work. But what made her historically so important was her clear conviction of the injustice of unequal treatment of women, and her absolute certainty that it could be cleansed by applying the constitution.”

Não tendo sido a primeira mulher a chegar ao Supremo Tribunal, foi a primeira a afirmar-se como feminista, algo que o Politico recorda no seu obituário – A tireless advocate for gender equality, she became known as “The Notorious RBG” for her barbed dissents – onde transcreve uma famosa passagem do seu testemunho de 1993 perante o Senado, durante as audições para a aprovação da sua nomeação: “Race discrimination,” Ginsburg said at her confirmation hearing in 1993, “was immediately perceived as evil, odious and intolerable.But the response that I got from the judges before whom I argued when I talked about sex discrimination was: ‘What are you talking about? Women are treated ever so much better than men.’”

Aliás inicialmente houve quem pusesse em causa o seu feminismo pois eram conhecidas as suas críticas ao famoso acórdão Roe v. Wade que legalizou o aborto nos Estados Unidos em 1973. É um tema que ela discutiu nessas audições perante o Senado, como recorda Stephen Daisley da Spectator, em The ‘Notorious RBG’ and her triumph over tribalism, num texto onde sublinha a sua preocupação com o papel do Tribunal: “Her constitutional jurisprudence was evolutionist but she was a stickler for precedent and sometimes a progressive voice for judicial restraint, most famously in her critiques of Roe v. Wade, the 1973 decision that stumbled across a right to abortion hidden in the Fourteenth Amendment. Ginsburg was an implacable supporter of abortion rights – becoming the first Supreme Court nominee to affirm that position in her confirmation hearing – but she lamented the Roe court’s decision ‘to fashion a regime blanketing the subject, a set of rules that displaced virtually every state law then in force’. Had the Court merely struck down the Texas statute at issue, rather than producing such a sweeping opinion, it ‘might have served to reduce rather than to fuel controversy’.”

É assim que que não surpreende que Ginsburg tenha recebido palavras elogiosas também de órgãos de informação de orientação conservadora, como o Wall Street Journal, que em a Pioneering Justice on Supreme Court recordou que “Cast by seniority to lead the high court’s liberal bloc, Justice Ginsburg spent her last years on the bench pushing back against an emboldened conservative majority, sometimes winning surprise victories or mitigating expected defeats by peeling off a vote from conservatives including Chief Justice Roberts and Justices Anthony Kennedy, Neil Gorsuch or Brett Kavanaugh.” É este jornal que recorda uma importante entrevista de Ruth Bader Ginsburg em que esta dá a sua visão da Constituição dos Estados Unidos, sendo especialmente interessante esta passagem: “The genius of this Constitution is that, over the course of now more than two centuries, ‘We the people’ has become more and more inclusive,” she said in a 2014 interview with The Wall Street Journal. “So it includes people whose ancestors were held in human bondage. It includes Native Americans, who were not part of ‘We the people,’” when the charter was ratified, she added.

Termino com a remissão para o mais completo dos obituários, o de Linda Greenhouse no New York Times, em que a define com a Feminist Icon, e que para além de dar uma ideia bastante detalhada do que foi a sua vida tem uma descrição bastante pormenorizada de muitas das suas sentenças, designadamente de textos em que votou vencida, mas textos a que dava tanta atenção como se fossem as deliberações vencedoras pois sabia que também eles faziam jurisprudência e podiam influenciar – e por vezes influenciaram – futuras decisões dos órgãos legislativos. Desse texto do New York Times começo por retomar uma passagem sobre a forma como encarava o acórdão Roe v. Wade, por revelar melhor o modo como achava que o Tribunal se devia relacionar com a sociedade e os diferentes poderes políticos: “Judge Ginsburg’s anomalous role as what might be called a judicial-restraint liberal sprang from deep convictions that in a healthy democracy, the judicial branch should work in partnership with the other branches, rather than seek to impose a last word that left no room for further discussion.This was the basis for her criticism of Roe v. Wade, the Supreme Court’s 1973 decision establishing a constitutional right to abortion. In a speech at New York University Law School in 1993, several months before her nomination to the Supreme Court, she criticized the ruling as having “halted a political process that was moving in a reform direction and thereby, I believe, prolonged divisiveness and deferred stable settlement of the issue.”

E finalize com a referência feita à importância que dava mesmo às suas opiniões minoritárias, pois tomo-a como indicador de todas as opiniões são importantes: “Justice Ginsburg took care with her opinions, those for the majority as well as those in dissent.Her opinions were tightly composed, with straightforward declarative sentences and a minimum of jargon. (…) Still, it was her dissents, particularly those she announced from the bench, that received the most attention. Playing along with her crowd, she took to switching the decorative collars she wore with her judicial robe on days when she would be announcing a dissent.”

(in Observador  José Manuel Fernandes, Publisher
newsletters@observador.pt 28 setembro 2020)

sábado, 26 de setembro de 2020

Homenagem a Juliette Gréco


in oisehebdo.fr



Marie-Juliette Gréco, conhecida por Juliette Gréco (Montpellier, 7 de fevereiro de 1927 – Ramatuelle, 23 de setembrode 2020) foi uma cantora e atriz francesa.

Biografia

Infância e juventude

Filha de mãe oriunda de Bordéus e de pai corso, Juliette Gréco passou os seus primeiros anos de vida, juntamente com a sua irmã mais velha, Charlotte, educada pelos seus avós maternos, em Bordéus. 

Criança muito tímida e reservada, parte com 6 anos de idade, juntamente com a irmã e a mãe, que entretanto se lhes tinha juntado, para Paris, repartindo os seus tempos entre a cidade, o colégio de freiras onde estudava, e as férias na Dordogne numa propriedade da família. É nesta região que, após o início da Segunda Grande Guerra, a mãe de Juliette foi presa pelos nazis devido à sua actividade na resistência. Algum tempo depois será a vez Juliette, com apenas 16 anos, e a irmã serem também presas pela Gestapo. Ao ser libertada após um mês, fica alojada em casa de uma antiga professora que habita perto do bairro de Saint-Germain-des-Prés, associado à intelectualidade parisiense.

É neste mesmo bairro de Saint-Germain-des-Prés que participou do ambiente de descompressão do pós-guerra, integrando-se rapidamente no grupo de intelectuais e artistas que frequentavam os bares e cabarés do local. Em 1946 (com 19 anos) teve a sua estreia como atriz em uma peça de teatro de Roger Vitrac, Victor ou les enfants au pouvoir. Presença assídua no Le Tabou, inaugurado em 1947, mas rapidamente transformado em um dos cabarés da moda, aí conheceria nomes famosos como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Boris Vian, Jean Cocteau ou Miles Davis. 

Citação

«Elle a des millions dans la gorge, des millions de poèmes qui ne sont pas encore écrits» (a sua voz tem milhões, milhões de poemas que ainda não foram escritos)
Jean-Paul Sartre sobre Juliete Gréco.


Neste ambiente Jean-Paul Sartre ofereceu-lhe uma canção de uma das suas peças (cantada pela personagem Inès em Huis clos de 1944), no dia seguinte a um jantar no "Cloche d'or" em Saint-Germain. Juliette seguiu o conselho de Sartre conseguindo que a letra fosse musicada por Joseph Kosma.

A carreira de artista

Esta canção de Jean-Paul Sartre seria apenas uma do rico reportório cedido por muitos outros amigos e admiradores, e que cantaria na sua primeira apresentação pública em 22 de Junho de 1949, na reabertura do cabaré L’œil de Bœuf (antigo Le Bœuf sur le toit). Desde logo foi um sucesso junto dos frequentadores da vida noturna parisiense, até pela combinação de uma forma de cantar sentida, com um toque sensual realçado pelo vestuário e pelos seus longos cabelos escuros. 

Logo no ano seguinte, a 4 de Junho de 1950, Gréco conquistou o Grande Prémio da Sacem(Associação francesa de cantores e compositores) pela sua interpretação de "Je hais les dimanches" (letra de Charles Aznavour, música de Florence Véran). Apesar de todo este sucesso junto de sectores mais intelectuais, Juliette só viria a ser conhecida pelo grande público quando da participação no filme "Orphée" de Jean Cocteau.

Em 1951 gravou o seu primeiro single com a canção "Je suis comme je suis" escrita por Jacques Prévert e composta por Joseph Kosma, que se tornaria um clássico do seu reportório. Em 1952 saiu em digressão pelo Brasil e Estados Unidos e, após o seu regresso, fez uma digressão também pela França onde a sua forma de cantar e presença em palco atraem muito público. 

O Olympia verá a sua consagração em 1954, ano em que conheceu o seu futuro marido, o actor Philippe Lemaire, durante a rodagem do filme de Jean-Pierre Melville "Quand tu liras cette lettre". O casamento durou pouco mais de um ano, tendo-se o casal divorciado em 1956, pouco após o nascimento da filha Laurence-Marie. É nesta época que conheceu Georges Brassens de quem cantou "Chanson pour l'auvergnat" e Jacques Brel de quem cantou "Le Diable".

A sua carreira progridiu em vários sentidos, a canção, o cinema, o teatro. O seu retorno aos Estados Unidos, e a Nova Iorque em particular, grangeou-lhe uma notoriedade no meio artístico que lhe abriu as portas de Hollywood, onde conheceu o produtor Darryl Zanuck, durante a rodagem do filme The sun also rises de Henry King (1957). Nesta passagem por Hollywood conviveu com nomes como John Huston ou Orson Welles (com quem contracena no filme Drame dans un miroir (1960).

Retornada a França descobriu e divulgou novos talentos, que convida para escreverem algumas das suas canções. É assim que ficaram conhecidos nomes como Serge Gainsbourg ("La Javanaise") ou Léo Ferré ("Jolie Môme")*.

Em 1965, alcançou o auge da fama ao desempenhar papéis de primeiro plano nas séries televisivas Belphégor e Fantôme du Louvre. Apesar disso entrou em uma profunda depressão e efectuou uma tentativa de suicídio. Recuperada, retomou a carreira e em 1966 actuou no TNP (Théâtre National de Paris) na companhia do seu amigo que Georges Brassens, que muito admirava.

Em 1967 casou-se com Michel Piccoli, que seria seu marido até 1977. Ainda em 1967 gravou a sua versão da "La chanson des vieux amants" de Jacques Brel. Em 1968 abriu as sessões das 18:30 no Théâtre de la Ville em Paris, cantando uma das suas mais famosas canções, "Déshabillez-moi", com uma interpretação em que ressaltou o seu lado mais sensual.

Prosseguem as suas digressões pelo país e pelo estrangeiro, nomeadamente pela Alemanha e pelo Japão, sempre com grandes sucessos reforçados por uma notável presença em palco. Em 1989 casou-se com o pianista e orquestrador Gérard Jouannest, que, apresentado por ela, havia trabalhado durante anos com Jacques Brel. 

Em 1999 o governo francês atribuiu-lhe as Insígnias de Oficial da Ordem nacional de Mérito.

Prosseguindo em um intenso ritmo de actuações, veio a Lisboa para cantar em Janeiro de 2001, mas em Maio teve um problema cardíaco durante um concerto em Montpellier. Recuperada retomou as digressões.

Em Fevereiro de 2004, já com 77 anos de idade, obteve um novo êxito no Olympia, onde reencontrou uma vez mais o seu público fiel.

Imparável, lançou em Dezembro de 2006 um novo álbum intitulado Le temps d'une chanson, onde inclui várias canções que cantou ao longo da sua carreira.
Morte

Morreu em 23 de setembro de 2020 em Ramatuelle, aos 93 anos.

Canções famosas

"Si tu t'imagines" (1950)
"Je suis comme je suis" (1951)
"Les Dames de la poste" (1952)
"Déshabillez-moi" (1967)

(in pt.wikipedia.org)

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Novas infeções de COVID 19 em adultos jovens

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60% das camas disponibilizadas na região de Lisboa para doentes Covid já foram ocupadas - como aconteceu 

Ministra da Saúde diz que o SNS está melhor preparado do que em março e fala no reforço de ventiladores e de testes. Graça Freitas confirma "que há um padrão de novas infeções em adultos jovens". 

(ler mais em observador. pt de 21 setembro 2020)



in noticiasaominuto.com

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Buda disse...

       "A saúde é o maior presente; 

o contentamento, a maior riqueza; 

a fidelidade, o melhor relacionamento." 

BUDA