quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"Sobresselente" ou "sobressalente"?

"Pneu sobresselente ou pneu sobressalente?

"As duas formas são corretas e têm o mesmo significado.

Sobresselente é a forma usada em Portugal, e a forma sobressalente é a forma usada no Brasil."

(in BOM PORTUGUÊS, Porto Editora, 2009)


Pneu sobressalente - Vendas
imagem obtida in quantosei.com

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Uma curiosidade das filmagens de "Kramer contra Kramer"

"Ossos do ofício:
Kramer contra Kramer foi um filme com Dustin Hoffman e Meryl Streep acerca de um divórcio amargo. Durante um intervalo nas filmagens na cena do tribunal, Dustin Hoffman aproximou-se da escrivã do tribunal que fora contratada para ficar atrás da máquina de estenografia. "O seu trabalho é este?", perguntou. "Divórcios?"
"Oh, fi-los durante anos", disse a mulher. "Mas fiquei esgotada. Tive de parar. Era demasiado doloroso." E acrescentou alegremente: "Mas adoro o que faço agora."
"O que é?", perguntou Hoffman.
"Homicídios." 
From Vanity Fair 
(in Seleções Reader's Digest, setembro 2016)

in: CCINE10

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cuca Roseta, uma voz que se vem destacando no fado

in: cucaroseta.com
Cuca Roseta (Maria Isabel Rebelo do Couto Cruz Roseta, Lisboa2 de dezembro de 1981) é uma fadista portuguesa.
Cuca Roseta é uma das vozes da nova geração do Fado. O seu primeiro disco, lançado em 2011, foi produzido por Gustavo Santaolalla (músico e produtor detentor de dois Óscares e mais de 20 Grammys). Posteriormente grava “Raiz” onde se assume como compositora e letrista da maior parte dos temas. O sucesso repete-se e canta em mais de 30 paises de mundo, em todos os continentes.
No terceiro disco volta a surpreender e convida um aclamado produtor brasileiro. A primeira vez que Roseta cantou no Brasil foi durante o Campeonato do Mundo, tendo atuado nas principais cidades, sempre com teatros lotados. Aqui nascia a admiração e o amor do Brasil por esta fadista, que também não passou despercebida a uma pessoa muito especial: Nelson Motta, compositor, jornalista e produtor do Brasil, que sempre lhe dedicou os maiores elogios. Após um encontro em Lisboa, convidou Nelson Motta para produzir o seu mais recente disco. Nelson aceitou, mesmo depois de 10 anos de interregno, pois viu em Roseta um potencial único e um projeto que sempre quis fazer - gravar um disco de world fado - um fado virado para o mundo. Entre o Rio e Lisboa, juntou-se o talento e a voz de Roseta à sábia mestria de Nelson Motta. O disco, de nome “Riû”, junta vários universos musicais que influenciaram o fado e figuras incontornáveis da música mundial como Bryan AdamsDjavan, Ivan Lins, Jorge Drexler entre muitos outros. A fadista multiplica as suas participações e concertos pelo mundo inteiro. No ano de 2015 a fadista cantou em mais de 120 concertos, em Portugal e no estrangeiro.
in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cuca_Roseta

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Um vilão chamado açúcar!

Todos temos lido e ouvido nos meios de comunicação social, nos últimos tempos,  a grande preocupação que está a constituir a venda de alimentos e bebidas repletos de açúcar adicionado. 


Com efeito, em bebidas energéticas e refrigerantes, encontramos açúcar! Imagine-se...até no pão, nas sopas, em alguns enchidos, nos iogurtes, e em tudo o que seja alimentos processados. 


É um "açúcar invisível" e que aparece com vários nomes nas embalagens. Helen Bond é uma dietista da Associação Dietética Britânica e refere o seguinte:"É marketing inteligente - com termos como "frutose" a fazer as pessoas pensar que estão a cortar nos açúcares adicionados quando é o mesmo que espalhar açúcar branco sobre a comida." E o Dr Malhotra, um dos líderes da campanha antiaçúcar na Europa e cardiologista em Londres, diz mesmo: "Este açúcar adicionado é completamente desnecessário. Ao contrário do que a indústria alimentar nos quer fazer crer, o corpo não precisa de qualquer energia dos hidratos de carbono vindos do açúcar adicionado."


Vamos lá esforçar-nos por consumir açúcares moderadamente!

O Dr Robert Lustig, endocrinologista pediátrico da Universidade da Califórnia, é  um outro líder numa das campanhas mundiais contra o açúcar e faz-nos notar que "...o consumo de açúcar em todo o mundo triplicou nos últimos 50 anos. Mas tendo a população duplicado no mesmo período, o aumento do consumo de açúcar per capita foi de 50%! Os nossos alimentos agora contêm tanto açúcar adicionado que os nossos sistemas metabólicos (processamento de energia) não conseguem lidar com isso. O nosso corpo faz coisas diferentes com diferentes tipos de calorias. A frutos (açúcar adicionado) nas quantidades ingeridas hoje em dia é primeiro armazenada como gordura. Normalmente, essa gordura irá para a nossa barriga".


(as frases acima transcritas foram retiradas de um artigo de William Ecenbarger e Mary S. Aikins intitulado "Açúcar, o novo tabaco", in Selecções Reader's Digest setembro 2016)


in: Cantinho Vegetariano

E para que não seja tudo mau no que se refere ao açúcar, se consumido com moderação, vamos conhecer a sua história:


A HISTÓRIA DO AÇÚCAR

• SÉCULO VI a.C.


Antes de existir açúcar, tal como hoje o conhecemos, existiam apenas duas fontes de sabor doce no mundo: o mel e a cana.

A cana é cultivada já desde a Antiguidade. Terão sido os povos das ilhas do Sul do Pacífico, por volta do ano 20.000 a.C., a descobrir as propriedades desta planta, que crescia espontaneamente nas suas terras. 
Foi na Nova Guiné que a cana foi pela primeira vez cultivada. A partir desta zona, a cultura estendeu-se depois a outras ilhas vizinhas, como as Fiji ou a Nova Caledónia. Mais tarde, a cana-de-açúcar terá prosseguido a sua viagem e chegado a outros países, como as Filipinas, a Indonésia, a Malásia ou a Índia. 
Foram os Indianos, aliás, o primeiro povo a extrair o suco da cana e a produzir, pela primeira vez, açúcar “em bruto”, baptizado com o nome gur, por volta de 500 a.C.. Os segredos da produção de açúcar espalharam-se aos poucos por toda a região do Médio Oriente. Os Árabes aprenderam com os Persas a produzir açúcar sólido e foi desta forma que, por volta do século III a.C., se estabeleceram verdadeiras “rotas do açúcar”, com caravanas a fazer o transporte entre os países asiáticos e africanos. Mais tarde, vieram as Cruzadas. 
Motivados por uma causa religiosa, os Europeus viajaram até países longínquos... no regresso trouxeram alguns conhecimentos novos. Descobriram a cultura da cana-de-açúcar e introduziram-na na Grécia, em Itália e nalgumas regiões de França. No entanto, o sucesso não foi grande... o clima não era o mais adequado e o Oriente continuou a ser o maior fornecedor de açúcar do mundo ocidental. 
Nesta altura, eram os mercadores venezianos os principais intermediários deste comércio: em Alexandria compravam o açúcar proveniente da Índia, fazendo-o depois chegar ao resto da Europa. Durante centenas e centenas de anos o açúcar foi, assim, considerado uma especiaria extremamente rara e valiosa. Apenas nos palácios reais e nas casas nobres era possível consumir açúcar. Vendido nos boticários (as farmácias de então), o açúcar atingia preços altíssimos, sendo apenas acessível aos mais poderosos.
• SÉCULO XV e XVI


No início do século XV deu-se uma viragem importante na história do açúcar. 

O infante D. Henrique resolveu introduzir na Madeira a cultura da cana. O projecto correu bem e, em breve, Portugal estaria a vender açúcar ao resto da Europa. Por outro lado, com a passagem do cabo da Boa Esperança, os Portugueses passaram a viajar para a Índia com bastante regularidade. Nesta época, os Portugueses tornaram-se, assim, os maiores negociantes de açúcar, e Lisboa a capital da refinação e comércio deste produto. Normalmente associa-se o açúcar a um produto de origem sul-americana. No entanto, terá sido apenas na altura dos Descobrimentos que a cana fez a sua viagem até este novo continente. 

Foi Cristóvão Colombo o intermediário desta viagem, tendo levado alguns exemplares de cana-de-açúcar provenientes das Canárias para plantar em S. Domingos, a actual República Dominicana. A cultura de cana encontrou no novo continente excelentes condições para se desenvolver, e não foram precisos muitos anos para que, em praticamente todos os países recém colonizados, os campos se cobrissem de cana-de-açúcar. 

Os navegadores portugueses apostaram nos solos férteis das terras brasileiras para instalar plantações gigantescas de cana e... a aposta foi ganha! Os solos eram férteis, o clima o mais adequado e o sucesso foi tal que, por volta de 1580, existiam no Brasil cerca de 115 engenhos, a funcionar com a mão-de-obra de 10 000 escravos. Por ano, a produção atingia as 200 000 arrobas, ou seja, cerca de 3000 toneladas. Nesta época, na Europa, o açúcar era um produto de tal maneira cobiçado que foi apelidado de “ouro branco”, tal era a riqueza que gerava.

       
• SÉCULOS XVIII ao XX


Em 1747, um químico alemão chamado Andreas Marggraf desenvolveu uma alternativa ao açúcar de cana, conseguindo, pela primeira vez, produzir açúcar cristalizado a partir de suco extraído de raízes de beterraba. 

A história da produção de açúcar dava assim um novo passo e, aos poucos, o açúcar de beterraba iria tornar-se a principal fonte de açúcar no continente europeu. O açúcar de beterraba continua o seu caminho... Longo seria ainda o caminho a percorrer por este “novo açúcar”... 

O discípulo de Marggraf, Franz Carl Achard, instala, em 1796, a primeira refinaria de açúcar de beterraba da Europa. O açúcar obtido não tinha, no entanto, a qualidade desejável, sendo ainda bastante caro. Mais tarde, durante as invasões napoleónicas, a nova indústria teve finalmente a oportunidade que precisava para se desenvolver e aperfeiçoar, começando assim a concorrência entre o açúcar de cana e o açúcar de beterraba. 

A Primeira Guerra Mundial trouxe graves problemas. Os bombardeamentos destruíram muitas das refinarias de açúcar de beterraba europeias e foram grandes as dificuldades em obter mão-de-obra e matérias-primas. No entanto, bastaram alguns anos para a produção recuperar. 

Em 1920, a produção de açúcar de beterraba corria tão bem que se gerou uma crise e os preços acabaram por cair. Em 1937 realizou-se um acordo para regular o mercado de açúcar e foi criado o Conselho Internacional do Açúcar; em 1968 viria a nascer o mercado comum do açúcar, que tornou a Comunidade Europeia o maior produtor de açúcar de beterraba do mundo.
• ACTUALMENTE


Hoje, entre 131 países produtores de açúcar, 79 produzem açúcar de cana-de-açúcar e fornecem 3/4 da produção mundial de açúcar. O maior produtor é o Brasil, seguido pela Índia. O açúcar tornou-se um alimento comum à dieta de todos os países, constituindo uma fonte de energia de fácil e rápida assimilação. 

Consumido com moderação contribui para uma dieta equilibrada, proporcionando um sabor agradável aos alimentos. Para além disso, o sabor doce é um dos mais apreciados pelo ser humano, o que torna o açúcar um dos alimentos capazes de oferecer momentos de bem-estar e de prazer.


Fonte: Programa de Alimentação e Saúde promovido pela ARAP (Associação dos Refinadores de Açúcar Portugueses)
Texto transcrito na íntegra, encontrado em http://www.docerar.pt/index.php?id=124

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Homenagem a Vinícius de Moraes


imagem in: Wikipédia 
Soneto do amigo


Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Vinicius de Moraes
encontrei aqui: https://pensador.uol.com.br/poemas_de_amizade_de_vinicius_de_moraes/

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Prémio Nobel da Literatura 2016 atribuído a Bob Dylan

in: PopMatters 
"Bob Dylan é o 113.º vencedor do prémio máximo literatura, "por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana." Uma escolha que não deverá ser unânime entre a crítica.
Bob Dylan é o vencedor do prémio Nobel da Literatura 2016, “por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana”. O anúncio foi feito esta quinta-feira pela Academia Sueca, em Estocolmo. “É um poeta maravilhoso”, justificou a secretária permanente Sara Danius. É a primeira vez que o Nobel é entregue a um compositor, “que pode e deve ser lido”, para além de escutado.
Apesar de Bob Dylan ser presença habitual nas listas que tentam adivinhar qual será o vencedor, é uma escolha que pode ser polémica, sobretudo porque a carreira de Robert Allen Zimmerman — verdadeiro nome de Dylan — é sobretudo musical. O norte-americano de 75 anos merece o Nobel porque “é um grande poeta”, capaz de se “reinventar” ao longo de 54 anos de carreira, justificou Sara Danius, que garantiu ter havido “grande unanimidade” entre os jurados.
Sobre se antecipa críticas à escolha da Academia, respondeu simplesmente um “espero que não.” E acrescentou: “Talvez the times they are a’changing“, numa alusão à música de Dylan com o mesmo nome.
Já em 2008 o músico causou surpresa, ao ter vencido um Pulitzer especial pelo seu “profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado pela sua composição lírica de extraordinário poder poético”.
Para quem só agora quer começar a ouvir as canções ou a ler os livros de um dos maiores nomes da música do século XX, Sara Danius aconselhou Blonde on Blonde, sétimo disco do norte-americano, de onde saíram canções como “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again” ou “Just Like a Woman”. Um bom exemplo “da sua forma brilhante de rimar”, acrescentou a secretária, que a cada pergunta sobre a carreira musical de Dylan tenta incluir na conversa os dotes poéticos do laureado.
Quem pesquisar livros da sua autoria tem mais probabilidade de encontrar obras escritas sobre o músico, e não por ele. O primeiro livro que publicou, em 1971, chama-se Tarantula e é um misto experimental entre prosa e poesia. Encontra-se traduzido para português pela já extinta Quasi Edições, cogerida por Jorge Reis-Sá e Valter Hugo Mãe.
Mas o livro mais popular do músico será Crónicas: Volume 1, lançado em 2004 (editado em Portugal pela chancela Ulisseia). Primeira parte das memórias do autor de “Like a Rolling Stone”, a ideia era que a autobiografia tivesse mais volumes. Mas Dylan nunca mais publicou a segunda parte. É através destas páginas que o leitor fica a saber que Robert Allen Zimmerman, nascido a 24 de maio de 1941 no Estado americano do Minnesota, numa América onde a segregação racial era a realidade do dia-a-dia, começou a escrever poemas com dez anos de idade. E que aprendeu sozinho a tocar piano e guitarra.
Em 1961, deixa a universidade e a sua cidade para trás e muda-se para Nova Iorque, onde começa a tocar em cafés e clubes na zona de Greenwich Village. Influenciado por Woody Guthrie, editou o seu álbum de estreia, homónimo, em 1962, feito sobretudo de versões de canções tradicionais.
No ano seguinte, dá ao mundo The Freewheelin’ Bob Dylan. Logo a abrir, “Blowin’ in the Wind”, que se torna imediatamente canção hino de protesto e que, até aos dias de hoje, vai acumulando versões de diferentes artistas. “Girl from the North Country”, “Masters of War”, “A Hard Rain’s a-Gonna Fall” e “Don’t Think Twice, It’s All Right” estão também neste disco, obrigatório para quem quer conhecer a carreira do novo Nobel da Literatura, e onde a poesia é longa e não se subjuga às doutrinas da pop. “Masters of War”, por exemplo, tem oito estrofes anti-corrida ao armamento, que marcou a Guerra Fria.
Há uma data que ficará marcada para sempre na biografia do músico: 25 de julho de 1965. Depois de duas participações no Newport Folk Festival, em 1963 e 1964, com Joan Baez, Dylan aparece como cabeça de cartaz em 1965 e decide fazer, ali mesmo, o seu primeiro espetáculo elétrico. A reação às guitarras elétricas, por oposição à tradição blues/folk, chegaou em forma de apupos, vaias e até ameaças por parte do público. Foi um choque para o mundo da música em geral. É também nesse ano que lança Bringing It All Back Home, já com as primeiras canções rock n’roll — “Subterranean Homesick Blues” –, sem esquecer o lado acústico — “Mr. Tambourine Man”.

The Times They Are a-Changing?

Discutir a escolha do laureado é quase um desporto internacional. Mas o facto de ter vencido um músico pode abrir uma Caixa de Pandora — e os possíveis candidatos são muitos, de Leonard Cohen a Chico Buarque, passando por David Bowie. Para o Ministério da Cultura português, que reagiu no Twitter, “é o reconhecimento de um grande poeta que alia de forma exemplar a palavra e a música”. Bruno Vieira Amaral, que no ano passado venceu o Prémio José Saramago, considera que “mais do que qualquer outra coisa, este prémio é um manguito a todos os grandes escritores norte-americanos dos últimos 40 anos. Roth, McCarthy, DeLillo, Pynchon, foram ultrapassados de moto por Dylan.”
Um dos nomes mais frequentemente apontados à corrida ao Nobel é Salman Rushdie. O autor d’OsVersículos Satânicos não tem dúvidas de que a música e a poesia andam de mãos dadas e que Bob Dylan as conjuga como só os melhores sabem.
Ao Observador, o britânico Michael Gray, autor do primeiro trabalho crítico da obra Dylaniana, em 1972, com Song & Dance Man: The Art of Bob Dylan, acolhe com normalidade a ausência de unanimidade nas notícias. “Não só por ser músico, mas porque ele sempre causou reações mistas, há quem não goste das suas músicas, atitudes, livros, filmes, quadros“, lembra, numa entrevista telefónica.
O estudioso da carreira de Dylan não previu um dia como o de hoje. “Bem, sempre achei que ele nunca o receberia. Mas agora estou muito satisfeito.” E Dylan, que ainda não reagiu: estará satisfeito? “Não sei, não posso falar por ele”, começa por dizer Gray. “Mas acho que uma pequena parte dele está desiludida.” Isto porque, quando era jovem, o autor de “Knockin’ on Heaven’s Door” era contra prémios, por serem uma espécie de tributo à segurança, ao establishment. “Se ele estivesse a fazer algo novo, disruptivo, não ganharia os prémios”, afirma, lembrando a fase em que trocou o blues, o folk e o country pela guitarra elétrica, chocando a indústria.
Sobre a poesia musicada de Dylan, Michael Gray destaca duas passagens. A primeira é de “Idiot Wind“, do disco Blood on the Tracks, de 1975:
Down the highway, down the tracks
Down the road to ecstasy
I followed you beneath the stars
Hounded by your memory
And all your ragin’ glory
A segunda passagem que o autor destaca está incluída em “Mr. Tambourine Man”, esccrita 10 anos antes:
Yes, to dance beneath the diamond sky
With one hand waving free
Silhouetted by the sea
Circled by the circus sands
With all memory and fate
Driven deep beneath the waves
Let me forget about today until tomorrow.

Teremos um novo livro de Dylan para ler?

Para além dos volumes já mencionados, o músico conta na sua bibliografia com alguns livros de arte. Michael Gray, autor de várias obras sobre Dylan, descreve Tarantula como “maravilhoso e muito divertido”, com “sátiras maravilhosas sobre a consciência norte-americana contemporânea”, ainda que “não seja fácil de compreender”.
As Crónicas: Volume 1 são totalmente diferentes, desde logo porque autobiográficas. No entanto, Gray alerta para o “erro” que é encarar estas páginas como um retrato fiel da sua história. “Ele evita claramente escrever sobre a maior parte dos momentos mais importantes da sua carreira, como o momento em que se torna elétrico, em 1965″, aponta. Um exemplo de como Dylan nunca teve uma relação aberta com a fama. Também por duas vezes escreve “a minha mulher” ao longo do livro, apesar de se estar a referir a duas pessoas diferentes: Sara Lownds, com quem se casou em 1965 e se divorciou em 1977, e Carolyn Dennis, esposa entre 1986 e 1992. Os mais atentos, como Scott Warmuth, notaram também frases inteiras de outros escritores mais antigos, como Jack London e Robert Louis Stevenson, num tributo disfarçado.

“Não espere pelas Crónicas: Volume 2“, avisa. Apesar de Dylan ter dito numa entrevista à Rolling Stone, em 2012, que estava a trabalhar nelas, o autor considera que “já estão incorporadas no Volume 1”. “Acho que provavelmente nunca vão chegar… Mas eu erro muitas vezes [risos].”

Quem quiser ler as letras das canções que valeram, pela primeira vez, o Prémio Nobel a um músico, pode fazê-lo em português e em inglês, graças à editora Relógio D’Água. Em Canções Volume 1 (1962 – 1973)estão as composições abrangidas por aquele espaço temporal. Na página da esquerda fica o texto original, em inglês, e na página da direita, em espelho, a tradução feita por Angelina Barbosa e Pedro Serrano. O mesmo se passa em Canções Volume 2 (1974 – 2001).
Depois de 2001, a editora não voltou a traduzir as canções. Para Michael Gray, não vem grande mal ao mundo. Assumidamente fã, reconhece que “nem todos os trabalhos sao marailhosos” e considera mesmo que “o grande último álbum é Love and Theft, de 2001″. Os restantes, entre os quais o 35.º e último de originais, Tempest, de 2012, não estão à altura de composições passadas. Este ano saiu Fallen Angels, feito de versões de cantores e compositores norte-americanos, como Johnny Cash.

Há 23 anos que não vencia um norte-americano

Desde Toni Morrison, em 1993, que um norte-americano não vencia o Nobel da Literatura. Já no ano passado a escolha foi surpreendente com Svetlana Aleksievich, escritora bielorrussa de não-ficção cujos livros se centram na história da União Soviética e na identidade russa. Em 113 premiados, apenas 14 são mulheres. Para além do prestígio, o vencedor ganha oito milhões de coroas suecas (cerca de 821 mil euros, à taxa de câmbio atual).
Ao contrário de prémios como o Man Booker Prize ou o Prémio Camões, o vencedor do Nobel é sempre uma incógnita, já que não existe lista de finalistas. Ainda assim, há nomes que se repetem ano após ano nas listas de apostas, casos de Philip Roth, Joyce Carol Oates e Haruki Murakami. Bob Dylan também costuma ser presença habitual, mas não nos lugares cimeiros.
Para esta edição, a empresa britânica de apostas Ladbrokes, por exemplo, colocava no primeiro lugar o queniano Ngugi wa Thiong’o, seguido do japonês Murakami, o poeta Adonis, o romancista americano Don DeLillo e, em quinto lugar, o norueguês Jon Fosse.
O dia em que o mundo conhece mais um prémio Nobel da Literatura fica marcado pela morte de Dario Fo. O escritor e dramaturgo italiano foi distinguido pela Academia Sueca em 1997. Faleceu esta quinta-feira, aos 90 anos de idade." 
in observador.pt, um artigo de Sara Otto Coelho, 13.10.2016

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Generosidade genuína...

"Eis o que considero generosidade genuína: 
dar tudo de nós e, contudo, sentir como 
se nada tivesse custado." 

Simone de Beauvoir 
in: ThinkOlga