sábado, 10 de novembro de 2018

Recordando George Brassens!


Após alguma pesquisa sobre a biografia de GEORGES BRASSENS, encontrei o seguinte na pt.wikipedia.org :
"Georges Brassens nasceu a 22 de Outubro de 1921 em Sète, porto de pesca francês banhado pelo mar mediterrâneo, filho de Elvira Dagrossa e do seu segundo marido Jean-Louis Brassens. A mãe é de origem italiana e profundamente católica, enquanto o pai é um livre pensador anticlerical. Todavia esta família, que inclui um quarto membro, a meia-irmã Simone, filha do primeiro casamento da mãe de Brassens, tem um ponto em comum : todos apreciam a música e todos têm de memória numerosas canções que adoram entoar, seja Tino Rossi, Charles Trenet ou tantos outros artistas populares da época. Educado neste meio, Brassens interessa-se naturalmente pela música, mas também pela composição.
Citação
«Éramos uns rudes aos quatorze, quinze anos e começamos a apreciar os poetas. Há que perceber o contraste. Graças a este professor pude aceder a algo de grande. Muito mais tarde, de cada vez que escrevia uma canção, perguntava-me a mim próprio: "será que agradaria a Bonnafé ?"»
Georges Brassens
Apesar de ser um fraco aluno, consegue ser motivado pelo seu professor de literatura Alphonse Bonnafé. Este, ao ver alguns pequenos poemas do jovem Brassens(na altura com 15 anos), e apesar de os achar ainda de fraca qualidade, incentiva-o a estudar os clássicos e assim poder melhorar a qualidade do seu trabalho.
Há uma característica que Brassens revela desde novo: aprecia funcionar em grupo e gosta de estar envolvido com os amigos. O seu primeiro grupo desta época começa por fazer pequenos distúrbios pela vila para mais tarde ter um convivio de tipo diferente: passeiam-se pela praia e pelos bares da vila, discutem a canção e os filmes, organizam projecções de cinema privadas, e chegam mesmo a formar uma pequena orquestra em que Brassens toca banjo.
Mas este grupo seguiria caminhos menos ortodoxos: procurando realizar algum dinheiro de bolso para as suas actividades lúdicas, realiza pequenos furtos essencialmente aos seus próprios familiares e amigos. Após várias queixas dos visados a polícia descobre-os e leva-os a julgamento. Brassens fica detido juntamente com os seus amigos e na pequena vila de Sète é o escândalo e a vergonha para as famílias envolvidas. O grupo passa a ser mal visto e é ostensivamente rechaçado dos locais que frequentava.


1964.
Expulso do liceu, e após uma curta passagem pelo atelier de pedreiro de seu pai, Brassens viaja para Paris onde se instala, em Fevereiro de 1940, com 18 anos de idade, em casa da sua tia Antoinette onde encontra um piano que utiliza para a sua primeira aprendizagem em regime de autodidacta. Ao mesmo tempo começa a aprender uma profissão, vindo a conseguir trabalho numa fábrica de automóveis como operário especializado. Um dos amigos do seu grupo de Séte, Louis Bestiou, junta-se-lhe como colega na fábrica. Mas em Junho de 1940 no decurso da guerra a fábrica é bombardeada pelos alemães e fica totalmente inoperacional.
Brassens e o seu amigo retornam às origens, mas poucos meses depois Brassens decide voltar a Paris à casa da sua tia onde tem tem acolhimento e alimentação. Agora já não quer trabalhar, pois o trabalho beneficiaria o ocupante alemão, mas nem por isso tem menos actividade : levanta-se de madrugada, vai para a biblioteca e deita-se com o pôr-do-sol. Dedica-se à leitura minuciosa dos grandes escritores : BaudelaireVerlaineVictor Hugo. Durante estes três anos em que desenvolve este estudo, adquire uma importante bagagem literária e chega mesmo a publicar, ainda que sem sucesso, uma recolha de poemas de autores diversos.
Em 1943 Brassens vê-se envolvido na guerra a que sempre tinha escapado: o governo francês decreta o STO (Serviço de trabalho obrigatório) para o qual convoca os jovens nascidos em 1920, 1921 e 1922. Brassens vai trabalhar para a fábrica de motores de aviões Bramo (Brandenburgischen Motorenwerken), fornecedora da Luftwaffe, localizada em Basdorf, na Alemanha. Aqui Brassens agrega um segundo grupo de amigos muitos dos quais se manteriam até bem depois da guerra.
Quando, após um ano de trabalho, consegue uma licença de 10 dias, Brassens desloca-se a Paris mas não mais se apresenta ao trabalho, sendo acolhido e escondido da polícia de Vichy por um casal amigo da tia, Jeanne Le Bonniec e Marcel Planche, que habitavam numa pequena casa num beco da cidade, o Impasse de Florimont, com grandes carências das comodidades mais elementares: não havia sequer água quente e as casas de banho eram no terraço. Apesar disso a atmosfera é acolhedora e Jeanne assegura-se que Brassens esteja sempre bem alimentado e alojado. Ele ficará escondido 5 meses até ao fim da guerra, altura em que recupera o seu cartão da biblioteca permitindo-lhe retomar as leituras, ao mesmo tempo que vai compondo algumas canções e prosseguindo a escrita de poemas e de um romance que havia iniciado em Basdorf.
Em 1946 colabora com a revista anarquista Le libertaire. Esta colaboração, apesar de visar também a obtenção de alguma contrapartida monetária, tem algo a ver com as suas ideias, expressas também nas suas canções, em que se revolta contra uma certa hipocrisia social, e a favor dos sectores mais desfavorecidos da sociedade.
Em 1947 sai o seu primeiro romance La lune écoute aux portes em que vinha trabalhando desde o seu tempo de trabalho obrigatório na Alemanha, mas não obteve qualquer sucesso. Adquire a sua primeira guitarra à qual se dedica de forma exaustiva, e escreve nesta altura algumas canções que se tornariam famosas como Le ParapluieLa Chasse aux papillonsJ'ai rendez-vous avec vousLe Gorille(canção contra a pena de morte, proibida de passar nas rádios durante anos), tendo ainda musicado um poema de Aragon Il n'y a pas d'amour heureux.
Citação
«Püppchen não é a minha mulher, é a minha deusa"»
Georges Brassens
Este ano de 1947 é também aquele em encontrou a mulher que o acompanharia ao longo da vida : Joha Heiman, de origem estónia, que Brassens apelidaria de Püppchen ("bonequinha" em alemão), que, por comum acordo, nunca viria a partilhar o mesmo tecto que o cantor.

Incentivado pelos amigos e conhecidos começa em 1951 a actuar nalguns cabarés parisienses, mas sem qualquer sucesso. A sua presença em palco é muito apagada, ninguém se interessa pelos seus textos, e Brassens começa a desanimar.
Todavia em 1952 dois dos seus amigos de infância conseguem-lhe uma audição num dos cabarés mais em voga na época, o Chez Patachou dirigido pela cantora Henriette Ragon (apelidada de Patachou pelos jornalistas franceses, a propósito do nome do seu cabaré). Muito a custo Brassens lá vai à audição a 6 de Março sendo apreciado de imediato por Patachou que lhe proporciona uma actuação logo na noite do dia seguinte. Nessa actuação a cantora confirmou a sua primeira apreciação, tendo-o contratado de imediato. Mas Brassens prefere que seja mesmo Patachou a cantar as suas canções remetendo-se ao papel de autor-compositor em que se sente mais à-vontade, evitando o contacto com os palcos e o público. Esta, apesar de aceitar incluir algumas das suas canções no seu reportório, insiste em que ele é a pessoa ideal para cantar canções como Le GorilleCorne d'Aurochs ou La Mauvaise réputation.
Apesar de todas estas hesitações e inseguranças, o caminho para o sucesso está aberto. Dezoito meses depois Brassens já é cabeça de cartaz no Bobino. Patachou apresenta-o a Jacques Canetti, (irmão de Elias Canetti, o prémio Nobel da literatura de 1981), ligado à editora de discos Polydor, e um dos homens mais influentes no meio musical francês. Não só Brassens actua no seu cabaré Les Trois Baudets, como grava alguns 78 rpm que viriam a ser publicados entretanto, apesar das dificuldades com as letras de algumas canções demasiado provocatórias para a sociedade da época. Estas reacções negativas de alguns acompanha-lo-iam ao longo de toda a sua carreira, mas nunca o fariam recuar na denúncia do que ele considerava serem os podres da sociedade.
Citação
«Penso que as ideias evoluem muito depressa. Penso que muita gente morre por ideias que-no momento em que morrem-já não têm cabimento. Por isso aconselho a pensar bem antes de morrer pelas ideias."»
Georges Brassens-entrevista com Jacques Chancel
Entretanto sai o seu segundo romance La tour des miracles, e, no início de 1954 canta no mais prestigiado music-hall parisiense, o Olympia, onde retorna poucos meses depois. Nesse mesmo ano sai uma recolha de textos chamada La mauvaise réputation. Brassens é reconhecido pelo seu domínio brilhante da língua francesa sendo-lhe atribuído nesse ano o grande prémio da Academia Charles Cros, pelo álbum "Le Parapluie".
Iniciam-se as digressões pela Europa e África do Norte.
Em 1957 faz a sua primeira, e única, aparição nos écrans de cinema, com o papel (quase que nem se pode falar de um papel tal era a semelhança entre a personagem e Brassens) desempenhado no filme Porte des Lilas de René Clair baseado no romance de FalletLa Grande Ceinture. Brassens comporá algumas das músicas da banda sonora deste filme. Desinteressado de tudo o que diz respeito à sua vida financeira nomeia o seu amigo Pierre Onténiente, companheiro de infortúnio em Basdorf, como seu secretário e agente, delegando-lhe a responsabilidade da gestão de toda a sua vida material e artística.

Placa comemorativa
na sua propriedade em Crespières.
Brassens resolve finalmente, após 25 anos, deixar a casa de Jeanne e Marcel que havia adquirido para eles uns anos antes, tendo-se mudado para em 1958 para uma propriedade que comprou em Crespières, chamada le moulin de la Bonde.
A sua carreira continua de forma imparável, ainda que por vezes entrecortada por cólicas renais motivadas por cálculos nos rins. Ao longo da carreira teve que sair de cena algumas vezes motivado pelas dores que sofria. Em 1963 realiza uma primeira cirurgia aos rins.
Em 1967 recebe o prémio de poesia da Académie française, uma reputada instituição dedicada à preservação da lingua francesa.
Em 1968 é novamente internado no hospital vítima de cólicas renais. Nesse mesmo ano morre a sua protectora e amiga Jeanne Le Bonniec com a idade de 77 anos.
Em 6 de Janeiro de 1969, por iniciativa da revista Rock & Folk e da rádio RTL, Georges Brassens participa numa entrevista histórica com dois outros gigantes da música francesa : Léo Ferré e Jacques Brel.
Em 1972, celebrando os seus 20 anos de actividade, é editada uma caixa com 11 álbuns acompanhada de um livro reunindo todos os seus textos e poemas.
No mesmo ano, Georges Brassens compra uma casa em Lézardrieux, na Bretanha, região que havia descoberto graças a Jeanne Planche originária de lá. Desloca-se frequentemente a esta terra de pescadores, que certamente lhe recordaria Sète onde havia passado a infância.
Os problemas de saúde prosseguem e a sua actividade faz-se ressentir disso. Em 1973 parte para a que seria a sua última digressão pela França e pela Bélgica. Nesse mesmo ano deu um concerto no Sherman Theatre da Universidade de Cardiff na Grã-Bretanha em 28 de Outubro, e que seria alvo de uma das raras gravações das suas actuações ao vivo, dando origem ao álbum Live in Great Britain. Em 1975, recebe das mãos do então presidente da Câmara Jacques Chirac o Grande Prémio do Disco de Paris.
Em 1980, muito doente, grava as suas últimas canções no álbum Les chansons de la jeunesse a favor da associação de beneficência Perce Neige, criada por Lino Ventura, a favor das crianças deficientes. Nesse álbum Brassens canta velhas canções francesas de Charles TrenetJean BoyerPaul Misraki e dele próprio.
Em Novembro após um diagnóstico de cancro do intestino é novamente operado. Recusa a quimioterapia, vindo a falecer quase um ano depois, em 29 de Outubro de 1981, uma semana após completar 60 anos de idade, na pequena aldeia de Saint-Gely-du-Fesc, perto da sua terra natal de Sète, em casa do seu amigo e médico, Maurice Bousquet. Está sepultado no cemitério du Py, também chamado o "cemitério dos pobres".

Georges Brassens vendeu cerca de 20 milhões de álbuns entre 1953 e 1981, o que constitui um recorde para quem começou a publicar música nos anos 50 e que já tinha um estilo claramente (e voluntariamente) fora de moda nos anos 70.
  • 1953 : La Mauvaise Réputation
  • 1954 : Les Amoureux des bancs publics
  • 1955 : Chanson pour l'Auvergnat
  • 1957 : Je me suis fait tout petit
  • 1958 : Le Pornographe
  • 1960 : Le Mécréant
  • 1961 : Les Trompettes de la renommée
  • 1964 : Les Copains d'abord
  • 1964 : Bobino 64 (ao vivo)
  • 1966 : Brassens au TNP (ao vivo)
  • 1966 : Supplique pour être enterré à la plage de Sète
  • 1969 : La Religieuse
  • 1972 : Fernande
  • 1972 : Tour de chant à Bobino (DVD) (Ao vivo)
  • 1974 : Georges Brassens in Great-Britain(Ao vivo)
  • 1976 : Don Juan


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Pediatras americanos contra castigos dos pais aos filhos

O tema é delicado e suscita sempre alguma polémica em relação aos métodos a adotar.


"A palmada oportuna" deve ser aplicada nas crianças? Não devemos fazê-lo? E como aguentar as suas birras e atitudes só para levarem a sua vontade avante?


Devemos falar com as crianças e explicar-lhes tudo, mas o pior são aqueles momentos em que elas não nos querem ouvir, perpetuando uma birra por tempo indefinido, até ficarem roxas...


Pois é, nada fácil...!!!! 

Ainda temos muito que aprender...


Nem 'palmadas pedagógicas', nem ameaças. Pediatras contra castigos

Em novas orientações sobre castigos físicos, a Academia Americana de Pediatria defende que os pais nunca devem bater nos seus filhos e nunca devem usar insultos que humilhem ou envergonhem as crianças
Os pediatras americanos querem acabar de vez com a "palmada pedagógica". Não bater, esbofetear, ameaçar, insultar, humilhar ou meter medo, estas são as linhas vermelhas traçadas pela Academia Americana de Pediatria na educação de uma criança. Uma atualização de boas práticas que não era feita há 20 anos e que foi publicada esta segunda-feira na revista especializadaPediatrics, onde os pais são incentivados a impor a disciplina de forma saudável, através do reforço positivo ou da imposição de limites.
Robert Serge, pediatra do Tufts Medical Center de Boston e primeiro autor do estudo 'Disciplina efetiva para criar crianças saudáveis', destaca à CNN os avanços na investigação nos últimos 20 anos que "nos levam a dizer com muito mais convicção que os pais nunca devem bater nos seus filhos e nunca devem usar insultos que humilhem ou envergonhem as crianças". Investigações que mostram uma relação direta entre os castigos físicos e comportamentos violentos nas crianças, assim como diminuição da massa cinzenta nos cérebros infantis e sintomas depressivos mais tarde, na adolescência. E no entendimento dos especialistas americanos, a famosa "palmada pedagógica" - "bater com a mão aberta, sem causar ferimento, com o objetivo de modificar o comportamento da criança" - entra claramente na lista dos castigos corporais.
As novas orientações são bastante mais rígidas do que as publicadas em 1998, quando os pais eram aconselhados a desenvolver métodos alternativos à palmada em resposta a um comportamento indesejado. "Esta nova diretiva encoraja os pediatras a discutir com os pais a informação sobre os diferentes modelos disciplinares, para que eles possam tomar as suas decisões sobre como preferem criar os seus filhos", acrescenta Robert Serge.
Uma ideia reforçada ao DN pela pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. "É infantilizante para os pais dizer-lhes o que não podem fazer sem lhes explicar o que provoca essas reações. Os açoites ou a chantagem não são conscientes, mas impulsos face ao incómodo provocado pelas alterações repentinas de humor das crianças. Temos de ajudar os pais a perceber que podem provocar essa situação com atitudes de intolerância".

Mudar de sítio e fazer a criança pensar

Mas como devem, então, os pais lidar com as fitas dos miúdos sem perder a calma? As respostas variam em função da idade. Se estivermos a falar de um bebé com menos de um ano, o melhor é distraí-lo ou mudá-lo de sítio - ou até de assunto - quando as birras chegam. Isto porque é melhor não esperar que crianças tão pequenas comecem logo a interiorizar muitas regras. Quando são mais velhos ou se estão na pré-adolescência, o melhor mesmo é deixá-los a pensar na vida sozinhos e focar numa receita alternativa: valorizar mais o bom comportamento dos miúdos do que os seus achaques.
O melhor é valorizar mais o bom comportamento dos miúdos do que as suas birras.

"É o empoderamento", traduz Ana Vasconcelos, que aconselha os pais a conhecerem-se melhor a si próprios e às suas reações, sem diabolizar os adultos e percebendo a pressão a que estão sujeitos. "Um pai que começa a gritar com o filho não consegue educar no futuro e vai provocar esse descontrolo também criança; um pai que grita e depois vem a mãe pôr água na fervura também é um mau exemplo, porque um desautoriza o outro".
A pedopsiquiatra adianta que há cada vez mais crianças intolerantes ao incómodo, ou seja, que não toleram um 'não. "E não estamos a falar de birras de meninos mimado", realça Ana Vasconcelos, "está provado que há mesmo alterações neurobiológicas no cérebro destes miúdos", indica a especialista, que destaca uma entrevista publicada há um ano a Marinus van IJzendoorn, onde o professor do Centro de Estudos da Criança e da Família (Holanda) define estas crianças mais difíceis "como orquídeas que precisam de cuidados ideais para florescer, mas que murcharão se o jardineiro for desajeitado".

Castigos físicos são permitidos nos EUA

Nessa entrevista, Marinus van IJzendoorn explicava que se as crianças com a variante curta do gene recetor da serotonina - o neurotransmissor que atua no cérebro regulando o humor, o sono, apetite ou o ritmo cardíaco - se encontrarem num mau ambiente, desenvolverão mais rapidamente sinais de depressão e de problemas do desenvolvimento comparativamente com crianças que possuam a variante longa deste gene.
Em Portugal, ao contrário dos Estados Unidos da América, os castigos corporais sobre crianças, mesmo em casa, são ilegais há mais de dez anos. A iniciativa internacional para abolir toda violência física sobre as crianças, um movimento apoiado pela Unicef e Unesco, refere no seu site que não existem recomendações em relação ao nosso país nesta área.
Já nos EUA, a lei permite aos pais infligir castigos físicos sobre os seus filhos em casa. Um estudo de 2004 mostrava que dois terços dos pais americanos usavam algum tipo de violência física sobre os filhos, embora uma outra investigação, de 2013, tenha concluído que o número de pessoas a responder que "uma boa e dura palmada é por vezes necessária para disciplinar uma criança" caiu de 84%, em 1984, para 70% em 2012. 
in DN por Pedro Vilela Marques 05.11.2018

domingo, 4 de novembro de 2018

Homenagem a Maria Guinot (1945-2018)



Maria Guinot (Maria Adelaide Fernandes Guinot Moreno), nasceu em Lisboa a 20 de junho de 1945 e aos quatro anos já estudava piano. A seguir matriculou-se no Curso de Música do Conservatório Nacional. 

Aos 21 anos já gravava temas da sua autoria (Balada do Negro Só, Criança Loura, Silêncios do Luar). Era licenciada em Germânicas e frequentou a Alliance Française e os Institutos Britânico, Alemão e Italiano. O governo francês concedeu-lhe uma bolsa de estudo. Chegou a viver em Paris onde se lhe abriram horizontes que viriam a influenciar um trabalho artístico de qualidade.

Inicialmente tinha formação musical clássica, mas foi no modelo de canção que se veio a destacar. Compôs temas em defesa dos direitos das mulheres. Era uma mulher de esquerda e de opiniões muito convictas. A seguir ao 25 de abril filiou-se no Movimento Democrático das Mulheres (MDM), tornou-se ativista tendo colaborado, através da sua música, em homenagens a mulheres antifascistas.

Maria Guinot venceu o Festival da Canção, a 7 de março de 1984, cantando "Silêncio e Tanta Gente", (com música e letra da sua autoria), acompanhando-se a si própria ao piano e representando Portugal na Eurovisão. 

Verdade seja dita: era uma pessoa discreta e nunca quis para si popularidade!

Foi casada com um professor universitário e com ele viveu até 2016, data da morte deste.

Há cerca de 10 anos que estava afastada da música, devido a graves problemas de saúde (AVC's) não conseguindo já tocar piano, o que provocava nela imensas saudades. Em 2011, recebeu a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.

Nos seus últimos anos de vida viveu num lar, na linha do Estoril. Morreu no dia 3 de novembro, de uma infeção respiratória.

DISCOGRAFIA consultada in pt.wikipeida.org

Álbuns de estúdio

  • Esta Palavra Mulher (LP, Ed. Autor, 1987)
  • Maria Guinot (LP, Upav, 1991)
  • Tudo Passa (CD, Âncora Editora, 2004)

Singles e EP

  • La Mère Sans Enfant / Toi, Mon Ami / A Canção Que Eu Canto / Criança Loura (EP, Alvorada, 1968)
  • Balada do Negro Só / Silêncios do Luar / Escuta Menino / Poema de Inverno (EP, Alvorada, 1969)
  • Um Adeus, Um Recomeço / Poema de Um Dia (Single, Rossil, 1981) ROSS 7074
  • Falar Só Por Falar / Um Viver Diferente (Single, Rossil, 1981) ROSS 7085
  • Silêncio e Tanta Gente / Estimo que esta carta te encontre de saúde (Single, Dacapo, 1984) Dacapo 14 115012
  • Silêncio e Tanta Gente / La silence et la foule / Silence / Augenblick der illusion (EP, Dacapo,1984) Dacapo Especial 3

Colectâneas

  • Venha Cantar Connosco 15 canções de convívio e amizade – 1981
  • Cem anos de Maio – 1986 – Homenagem às mães da Praça de Maio
  • Festa de Abril – foi apenas ontem (Maria Guinot e Pedro Barroso) – edição da associação 25 de Abril
  • Um Mar De Sons – 2005

in: n-tv.pt

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Como morreu Jamal Khashoggi, o jornalista saudita?" Como é possível semelhante atrocidade??

Limito-me a transcrever as notícias sobre esta morte praticada de forma "hedionda", perguntando-me como é possível que em pleno século XXI se passem casos destes ainda. 


Encontradas partes do corpo do jornalista saudita em Istambul

Os restos mortais de Jamal Khashoggi, que desapareceu na embaixada da Arábia Saudita em Istambul a 2 de outubro, foram encontrados na casa do cônsul geral da Arábia Saudita, avançou a Sky News.

Os restos mortais do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que desapareceu na embaixada da Arábia Saudita em Istambul a 2 de outubro, foram encontrados na casa do cônsul geral da Arábia Saudita, noticiou a Sky News, citando fontes anónimas. Segundo as mesmas fontes, o jornalista foi “desmembrado” e a sua cara “desfigurada”.
...(...)...
“Temos a certeza de que Khashoggi foi assassinado no consulado saudita”, revelou ainda Erdogan, quando se dirigia ao parlamento em Ancara para revelar as conclusões do inquérito à morte do jornalista saudita. Envolvidos no crime estão duas equipas sauditas, das quais fazem parte generais. O crime foi premeditado e selvagem, garante o presidente turco, que se referiu a ele como um “assassinato político”.
...(...)...
O jornalista Jamal Khashoggi, de 60 anos, voz crítica do regime saudita e colunista do jornal norte-americano The Washington Post, entrou no consulado da Arábia Saudita em Istambul no dia 2 de outubro, onde iria obter um documento para se casar com a sua noiva turca. Nunca mais foi visto. Mais recentemente, a Arábia Saudita admitiu que o jornalista foi morto — avançando depois que a morte ocorreu durante uma luta, num interrogatório que correu mal, e deteve 18 suspeitos.
in: observador.pt   23.10.2018   
in: vox.com

sábado, 20 de outubro de 2018

As praxes em Portugal

imagem in esquerda.net

As praxes continuam a ser alvo de grandes polémicas. 

Este tema tem provocado rios e rios de tinta em toda a comunicação social. 

Mas por mais que se pense que deve haver soluções para os exageros que nelas se cometem, a verdade é que não se tem conhecimento de diretrizes que permitam que as praxes decorram de modo saudável, com regras! 

Não é possível que as praxes continuem, mas com convívios verdadeiramente sãos entre todos os estudantes?

Ao ler sobre este assunto no jornal online observador (11.10.2018), pensei que deveria transcrever tudo o que li sobre o tema, por achá-lo bem exposto e de boa compreensão:

Serra da Estrela, final de setembro, durante a noite. Ao frio e no meio do breu, dois alunos estão de gatas, em frente a um grupo de colegas mais velhos, que lhes vão fazendo perguntas. Quando erram as respostas, têm de baixar as calças e são agredidos com colheres de pau de grandes dimensões, símbolo académico dos estudantes.

Aconteceu já este ano letivo a dois alunos do primeiro ano do curso de Ciências Biomédicas da Universidade da Beira Interior (UBI). Horas antes, tinham sido levados para a serra em bagageiras de carros, de cara tapada. Sabiam que iam ser praxados, mas não imaginavam que acabariam agredidos, numa praxe realizada por um grupo secreto, formado só por homens e criado há 11 anos, segundo apurouo Observador. Quando foram trazidos de volta à Covilhã, um dos caloiros ligou à polícia. A UBI, ao tomar conhecimento da situação, fez queixa ao Ministério Público (MP), que abriu um inquérito. O caso já está a ser investigado pelo MP da Covilhã. Ao Observador, a Universidade optou por não responder às perguntas sobre o tema.

Na mesma semana, um vídeo de um momento de praxe na Universidade de Évora começou a circular nas redes sociais e, com ele, uma nova polémica. As imagens mostram um rapaz no chão, com o corpo dobrado sobre ele próprio e os joelhos em cima das costas das mãos. A cabeça está encostada ao solo, em cima de um monte de pó branco. Possivelmente, farinha. Quando o jovem diz que não consegue aguentar mais estar naquela posição, outros estudantes que o estariam a praxar gritam: “Não me interessa. Desemerde-se!”. O Bloco de Esquerda tomou conhecimento da situação — que considera “absolutamente inaceitável” e “de profunda violência e humilhação” — e enviou uma pergunta ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), tal como já tinha feito em relação ao caso na Covilhã.

No início do mês, outro caso. Também nas redes sociais, começou a circular uma fotografia que mostrava vários caloiros da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa de roupa interior, no exterior das instalações. A forma como ali estavam, aparentemente em parada, chocou quem viu a imagem. Mas, na reação, a faculdade veio garantir que era uma “fotografia completamente descontextualizada” e explicou que se tratava de uma “ação voluntária e de auto-recriação por parte de alguns alunos” que decidiram despir-se por causa do calor que se fazia sentir, durante um churrasco no pátio, externo à Universidade.

Estes três casos conhecidos em setembro — mês de arranque do novo ano escolar — reanimaram a discussão sobre as praxes humilhantes, violentas e perigosas. Um debate que não tem nada de novo — não é a primeira, segunda, terceira ou quarta vez que acontece — e que, há cinco anos, ocupou o espaço público durante semanas ou até meses, por causa da tragédia do Meco. Na noite de 15 de dezembro de 2013, seis estudantes (quatro raparigas e dois rapazes) da Universidade Lusófona morreram naquela praia de Sesimbra, arrastados por uma onda quando, alegadamente, participavam em atividades da comissão de praxe. Os corpos foram encontrados nos dias seguintes.

O único sobrevivente foi João Gouveia, dirigente da comissão de praxe académica (o chamado Dux), que contou que o grupo estava a passar o fim-de-semana numa casa que tinham alugado na zona e que, naquela noite, decidiram ir até à praia. Cedo surgiram relatos de que as vítimas estariam a participar numa praxe, viradas de costas para o mar e eventualmente já dentro de água, comandadas pelo dux. O Ministério Público abriu um inquérito, mas o caso acabou por ser arquivado em março do ano seguinte. Os pais das vítimas insistiram numa acusação particular e o jovem foi constituído arguido, mas o processo não seguiu para julgamento, por decisão do Tribunal de Setúbal. O juiz não encontrou provas de existência de crime, nem de que a morte dos seis estudantes tivesse acontecido em contexto de praxe, sobretudo tendo em conta que os jovens envolvidos não eram caloiros. O tribunal concluiu que não havia indícios de que João Gouveia tivesse “sujeitado, pelo menos conscientemente, os colegas falecidos a um perigo que não pudessem eles próprios avaliar e evitar”. A decisão foi depois confirmada pelo Tribunal da Relação de Évora, em janeiro de 2015.

Praxe académica que acabou mal ou um grupo de jovens apanhados de surpresa por uma onda? É uma dúvida que, dificilmente, alguma vez irá desaparecer. Ainda assim, a tragédia deixou a sociedade de olhos postos na praxe académica, como nunca antes tinha acontecido. Governantes alertaram as instituições de ensino superior e prometeram combater o problema. Universidades proibiram a realização dessas atividades dentro das suas instalações — medidas que deixaram alguns estudantes descontentes. Cresceram movimentos anti-praxes: alguns pela mão de alunos, outros por incentivo desses mesmos governantes. E foi até criado um endereço eletrónico da Direção-Geral do Ensino Superior para denúncia de casos de praxes abusivas. A viragem na forma como as praxes eram vistas foi evidente, num fenómeno antigo com casos graves ao longo de décadas e que apenas não tiveram a mesma cobertura mediática e consequências trágicas de dimensão semelhante à do Meco.

A morte de Diogo Macedo, os excrementos de animais e o estudante que ficou tetraplégico

Em outubro de 2001, Diogo Macedo era aluno do 4ºano de arquitetura da Universidade Lusíada de Famalicão e membro da tuna académica. Num dos ensaios, sentiu-se mal e foi levado para o Hospital de Famalicão. Acabou por ser transferido para o São João, no Porto, onde morreu, sete dias mais tarde, com um derrame cerebral. Tinha 22 anos.

A autópsia viria a levantar várias suspeitas. O corpo tinha marcas de agressões violentas. O relatório revelava que o jovem tinha sofrido uma “fratura da 1ª vértebra cervical, arco posterior, com hematoma extenso no cerebelo direito”. O que aconteceu, afinal, naquele ensaio? Suspeita-se que foi obrigado a fazer flexões ao mesmo tempo que era agredido com uma revista, praxado por colegas mais velhos. Agressões que acabaram por provocar-lhe a morte.


Nunca se chegou a saber ao certo o que aconteceu naquela noite, nem quem foi o responsável pela morte de Diogo Macedo. Os membros da tuna fizeram um pacto de silêncio que nunca foi quebrado — e que dificultou a atuação da justiça. O único facto dado como provado pelo Tribunal Cível de Famalicão foi que Diogo morreu durante uma praxe, por ter sido atingido na nuca com uma revista. Nenhum dos membros da tuna foi acusado. Apenas a Universidade Lusíada, já em 2009, foi condenada a pagar uma indemnização de 91 mil euros à mãe do jovem, Maria de Fátima Macedo, por ter “violado o seu dever de vigilância” da praxe académica. Quem acabou julgada foi a mãe de Diogo. Maria foi acusada de quatro crimes de difamação, por se ter referido, em entrevistas, a um jovem que chegou a ser arguido no processo-crime, suspeito do homicídio. A mulher, de 62 anos, acabaria por ser absolvida.

Dois anos depois, a praxe chegou novamente a tribunal. Dessa vez, o caso não ficou por resolver. Ana Santos, aluna da Escola Superior Agrária de Santarém, foi o rosto do processo que acabaria na primeira condenação por praxes agressivas. A jovem tinha sido insultada e impedida de falar ao telemóvel, durante as atividades. Quando atendeu uma chamada da mãe, desobedecendo à ordem, foi obrigada a ajoelhar-se. Depois, os praxistas pediram a outros caloiros que lhe esfregassem excrementos de porco na cara. Ana Santos foi obrigada a ficar ao sol até que esses excrementos secassem. No final da atividade, foi abandonada a vários quilómetros de casa.

A jovem não ficou calada: denunciou o caso à polícia, enviou uma carta à direção da Escola Superior Agrária de Santarém e outra ao ministro do Ensino Superior. O presidente do conselho diretivo da Escola abriu um inquérito, mas logo na altura realçou que, no seu tempo, já era assim e que ele próprio também tinha “recebido bosta no corpo”. Era “tradição”, dizia. Menos “compreensivo” com a suposta tradição, o Tribunal de Santarém condenou sete estudantes envolvidos — Rui Coutinho, Lisbete Pereira, Sandra Silva, Armando Simões, José Vaz, Tiago Vieira e Tiago Figueiredo — a pagarem multas entre 640 e 1600 euros, numa sentença confirmada em 2009. O juiz considerou que os atos “ultrapassaram os limites impostos pela noção de praxe” e que iam “além do mínimo ético socialmente tolerável”.

Nos anos que se seguiram, os casos de praxes abusivas não desapareceram. Alguns iam sendo resolvidos dentro dos próprios organismos da praxe, como o “tribunal de praxe”. Outros acabavam por vir a público. Em novembro de 2007, no mesmo dia, em locais diferentes, vários alunos sofreram ferimentos graves e foram hospitalizados. Na Escola Superior Agrária de Coimbra, um estudante do terceiro ano de Engenharia do Ambiente ficou tetraplégico, na sequência de uma lesão na coluna: o diagnóstico registou um traumatismo vértebro-medular, com diversas fraturas, na região cervical. Foi o resultado de uma das atividades de praxe daquele dia, na qual os alunos deslizavam por um declive para uma vala com lama e palha.

Noutra Escola Superior Agrária, a de Elvas, um aluno caiu da muralha do castelo quando participava num “rally das tascas” — que levou maisquatro estudantes ao hospital em coma alcoólico –, realizado durante a semana de receção ao caloiro. O estudante do primeiro ano foi hospitalizado em Badajoz, com uma fratura da coluna cervical e múltiplas lesões graves a nível pulmonar. Os organizadores da praxe negaram as responsabilidades. Diogo Assunção, presidente da Associação de Estudantes, justificou-se com o facto de, naquela semana, não haver praxes, mas sim “uma semana de receção ao caloiro em que só participa quem quer”.

São apenas alguns exemplos de uma lista que é longa — o Bloco de Esquerda criou até uma cronologia das praxes abusivas — mas que, provavelmente, seria muito maior se a ela se juntassem os casos que não chegam ao conhecimento público. É que muitas vítimas de praxes humilhantes, violentas ou perigosas acabam por não denunciá-las, por receio de serem excluídas do grupo académico ou com medo de represálias. Para isso contribuirão os casos em que as denúncias acabaram em consequências piores, entregues às próprias estruturas estudantis. Foi isso que aconteceu, por exemplo, num dos primeiros casos de praxe violenta que se tornou público — e talvez o primeiro em que um estudante mostrou intenção de avançar para tribunal, apesar de isso, depois, não ter acontecido. Em 1999, uma aluna da Escola Superior de Educação de Leiria queixou-se aos responsáveis pela praxe: tinha sido agredida fisicamente e humilhada durante as atividades que, supostamente, seriam de integração dos novos estudantes. Resultado? Foi chamada ao tribunal de praxe e acabou condenada por se ter queixado. Como castigo, teve de cortar o cabelo.

Anos mais tarde, em 2003, Ana Sofia Damião, aluna do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros, sofreu as consequências por ter denunciado uma praxe que considerou abusiva: tinha sido insultada, obrigada a despir-se, a vestir-se novamente — agora com a roupa interior por fora — forçada a simular orgasmos e relações sexuais com os colegas e a revelar pormenores da sua vida sexual. A denúncia chegou aos responsáveis do Instituto, que abriram um inquérito e concluiram que deviam sancionar… a própria Ana Sofia Damião. A jovem recebeu uma repreensão escrita, “pela forma subjetiva excessiva como relatou os factos”. Os agressores foram também sancionados “por não terem a preocupação de avaliar se as ordens da praxe poderiam ferir suscetibilidades individuais”.

A aluna não desistiu e apresentou uma queixa-crime, mas o caso não chegou a julgamento por que o juiz entendeu que Ana Sofia tinha dado o consentimento para ser submetida àquelas práticas. Seguiu-se um processo cível contra o Instituto Piaget que, em 2009, foi condenado pagar uma indemnização de 38 mil euros.

Luís Monteiro, deputado do Bloco de Esquerda

É por casos como estes que Luís Monteiro, deputado do Bloco de Esquerda — e autor das duas perguntas feitas ao governo, este ano letivo, por causa das praxes abusivas — alerta: “Há sempre aqui um balanço entre o que é denunciar uma praxe violenta e pôr a vítima numa posição ainda mais desconfortável do que aquela em que ela já está“.

Afinal, a praxe é território de ninguém? Até onde podem (ou querem) ir as universidades?

A praxe é uma organização própria de estudantes, paralela à atividade letiva. Os alunos juntam-se de uma forma informal para organizar atividades — muitas delas, calendarizadas — de receção e integração dos mais novos que acabam de chegar. Esses, os caloiros, escolhem participar ou não. Como atividade, só por si, não são ilegais, por não ser, na sua definição, sinónimo de abuso. O problema é que, muitas vezes, acaba por ser. Nessas situações, quem tem o poder — ou a obrigação — de punir os responsáveis?

Regime jurídico das instituições de ensino superior

“(…) 4 – Constituem infração disciplinar dos estudantes:

a) A violação culposa de qualquer dos deveres previstos na lei, nos estatutos e nos regulamentos;

b) A prática de atos de violência ou coação física ou psicológica sobre outros estudantes, designadamente no quadro das ‘praxes académicas’.

5 – São sanções aplicáveis às infracções disciplinares dos estudantes, de acordo com a sua gravidade:

a) A advertência;

b) A multa;

c) A suspensão temporária das actividades escolares;

d) A suspensão da avaliação escolar durante um ano;

e) A interdição da frequência da instituição até cinco anos.

6 – O poder disciplinar pertence ao reitor ou ao presidente, conforme os casos, podendo ser delegado nos diretores ou presidentes das unidades orgânicas, sem prejuízo do direito de recurso para o reitor ou presidente (…)”

O Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), aprovado pela lei 62/2007, de 10 de setembro, é claro nesse aspeto. Qualquer abuso desta natureza, levado a cabo pelos alunos, constitui uma infração disciplinar que pode resultar, dependendo da gravidade, em multas, suspensões e, até, expulsões. “Convém esclarecer que a praxe em si mesma não é uma atividade negativa, passível de ser punida. O que aqui importa distinguir são os atos de violência física e psicológica que, por vezes, se praticam sob o pretexto de uma dita praxe académica. E estes atos, como qualquer ato de violência praticado entre estudantes, seja em contexto de praxe ou não, são passíveis de punição disciplinar pelos órgãos internos da Universidade”, esclarece António de Sousa Pereira, reitor da Universidade do Porto, ao Observador. Fica claro que é possível, mas Carlos Alberto Videira, ex-presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, não tem memória de expulsões que tenham acontecido por causa de praxes.

As praxes que acontecem dentro dos espaços das universidades, como acontece em Coimbra, estão sob alçada dos reitores. Qualquer abuso, é punido. “A Universidade de Coimbra nunca proibiu a praxe no campusexatamente para que ela [a praxe] possa ser feita sob o olhar e escrutínio de toda a comunidade académica“, explica por sua vez Madalena Alarcão, vice-reitora.

Esta opção de permitir as praxes dentro dos campus não é regra: é exceção. “Houve uma tentativa de fazer uma separação institucional relativamente às questões ligadas à praxe“, diz Carlos Alberto Videira. Mesmo antes da tragédia do Meco, muitas instituições de ensino superior já proibiam a realização de praxes dentro das suas instalações — começaram até a ter um papel mais ativo na receção aos novos alunos, criando atividades alternativas à praxe. Depois da morte dos seis alunos da Universidade Lusófona na praia do Meco, mais instituições optaram por incluir em cada um dos seus regulamentos a proibição da realização de praxes dentro dos campus.

“O que acontece na via pública está sob os olhos de toda a gente”

A ideia de proibir essas atividades dentro das instalações, que tentava travar abusos em contexto de praxe, desresponsabilizava, ao mesmo tempo, as universidades, caso esses mesmos abusos acontecessem. O deputado Luís Monteiro defende que “a fronteira de responsabilidade da instituição não acaba nem começa no perímetro da instituição” e lamenta que as universidade já não se “importem muito” com as praxes abusivas, só porque elas acontecem “a um metro da porta”.

Se as praxes abusivas não acontecem nas suas instalações, já não têm nada a ver com isso e os casos continuam a acumular-se. A diferença é que, agora, acontecem fora dos limites das universidades, dificultando a sua supervisão e punição. “Levam para a via pública essas atividades. E o que acontece na via pública está sob os olhos de toda a gente.Continuam a ser alunos, mas antes de serem alunos são cidadãos e maiores de idade. Aquilo que se passa fora dos campus já está fora da alçada dos reitores”, alerta Carlos Alberto Videira.

As associações académicas do país dizem que têm vindo a realizar contactos informais com as instituições no sentido de garantir que as praxes abusivas não acontecem. Reconhecendo a “praxe como uma atividade importante na integração dos novos estudantes”, a Associação Académica de Lisboa repudia “qualquer tentativa de humilhação ou abuso”. No mês após a tragédia do Meco, membros de várias associações académicas reuniram-se com o então ministro da Educação, Nuno Crato, para levar uma proposta de um Estatuto do Estudante do Ensino Superior: um documento — semelhante ao que já existe em relação ao ensino básico — transversal a todas as instituições, com os direitos e deveres dos alunos, incluindo normas e sanções em caso de abusos nas praxes.

Aquela que seria uma solução para travar praxes abusivas, mesmo fora do limite das instalações das universidades, não avançou e as instituições de ensino superior continuaram a não ser responsáveis legamente por isso. “Essa questão acabou por ficar na gaveta e acabou por não voltar a ser discutida“, disse Carlos Alberto Videiro. Também não voltou a ser discutida outra solução semelhante.

Com o afastamento das universidades, a praxe fica apenas entregue às autoridades. “A polícia já é responsabilizada por qualquer crime na via pública”, aponta Luís Monteiro. Até porque “tudo o que figura no código penal, seja ou não dentro da praxe, é um crime”. “Mas [as autoridades] não atuam porque os casos não são denunciados”, explica, acrescentando outra hipótese: “Há uma cultura de aceitação. Assume-se culturalmente que todos aqueles rituais e brincadeiras fazem parte de um processo normal”. Luís Monteiro recorda que algo semelhante se passou quando a violência doméstica passou a ser crime: “As autoridades não atuavam porque assumiam que eram escaramuças entre casais. Tal como na praxe, a polícia assume que culturalmente é normal acontecer”.

O número de queixas por praxes abusivas que chegam ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) tem vindo a diminuir — impondo-se a questão: há menos casos de praxes abusivas? Ou a diminuição deve-se à falta de conhecimento ou descrença neste mecanismo de controlo? O Observador questionou o MCTES sobre o que aconteceu às denúncias recebidas e se foram tomadas medidas em relação a ela. O email foi respondido por fonte do Ministério, mas sem qualquer dado relativo àquela pergunta. Foi, então, enviado um segundo email, com o pedido de uma resposta concreta ao que era questionado. A mesma fonte acusou a receção do email mas, até à publicação deste artigo, não respondeu.

Assim, das respostas do MCTES sobra “o total apoio ao combate a manifestações de abuso, humilhação e subserviência realizadas entre grupos de estudantes, sejam no espaço público ou dentro das instituições” e a garantia de ter “remetido toda a informação recolhida à Inspeção Geral da Educação e Ciência para que, no quadro das competências que lhe estão legalmente atribuídas, desenvolva a atuação adequada nas situações em apreço e no sentido de punir adequadamente todas as manifestações de poder, humilhação e subserviência associadas a praxes académicas, designadamente quando conflituam diretamente com a missão do ensino superior e o propósito daqueles que o frequentam”.

A praxe abusiva devia ser criminalizada?

A criminalização das praxes abusivas ou alterações no sentido de torná-las um crime público já foram discutidas. Carlos Alberto Videira não vê necessidade de se ir tão longe: “Não reconhecemos esse tipo de casos como praxe e devem ser punidos como qualquer outro crime”. Luís Monteiro também não acredita que a melhor solução seja proibir a praxe. “Nós [o Bloco de Esquerda] queremos combater toda a violência que acontece, na praxe e fora dela“, esclarece, em declarações ao Observador.A verdade é que quaisquer abusos passíveis de serem crimes que possam acontecer em contexto de praxe — por exemplo, crimes contra a integridade física, discriminação, injúria ou coação — encontram-se salvaguardados pelo Código Penal, Código Civil, a Constituição da República Portuguesa e, até, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Daí que, para o presidente do Instituto Politécnico de Viseu, João Monney Paiva, em declarações ao Observador, seja óbvio: “Este tipo de práticas condenáveis devem ser objeto de controlo por parte das autoridades de segurança pública, policiais e outras”. Para o deputado bloquista, isso não chega. Luís Monteiro defende que controlar as praxes abusivas passa por “criar mais mecanismos de denúncia” e “garantir que a justiça opera e que a polícia atua”. “Temos de garantir que os crimes que já são figuras penais no código penal são aplicados na questão da praxe. O que tem acontecido é exatamente o contrário: a praxe é uma exceção“, disse ainda.

O problema não será assim tão fácil de resolver. O facto de a participação do aluno ser voluntária é um dos argumentos utilizados para tirar valor criminal das praxes humilhantes ou violentas. Este consentimento tem grande influência na atuação da justiça e faz com que muitos dos casos que chegam a tribunal, e que poderiam configurar crimes, acabem sem qualquer conclusão. “Do ponto de vista jurídico, os juízes partem do princípio que há um consentimento de ambas as partes e que se enquadra numa atividade universitária de tradição académica”, explica o deputado Luís Monteiro, alertando: “É preciso é perceber porque é que existe [o consentimento]. Porque é que as pessoas, fora do contexto de praxe, não aceitam que alguém lhes parta as unhas ou que lhes dê uma bofetada e, no espaço da praxe, assumem que é natural.”

A explicação estará no contexto. Os caloiros parecem perder a capacidade de negar algumas atividades, mesmo que não gostem delas ou se sintam violentados, “porque sentem que aquele ritual é importante e receiam questionar e desafiar a autoridade“, como explica a psicóloga Rute Agulhas. “Os que se submetem sem questionar serão, à partida, jovens mais submissos, passivos, com dificuldade em fazer valer os seus direitos de forma assertiva. Desejam muito sentir-se integrados, fazer parte de um grupo, serem aceites. E esta motivação pode ser tão forte ao ponto de aceitarem sem questionar e submeterem-se ao que lhes é ordenado “, explica ao Observador.

Apesar de muitas vezes só chegarem a conhecimento público as praxes que implicam agressões físicas, muitas delas são abusivas por implicarem maus tratos emocionais. “Um dos critérios para podermos afirmar que estamos perante maus tratos psicológicos é a frequência”, diz Rute Agulhas reconhecendo que os maus tratos emocionais “não são devidamente valorizados” uma vez que “não deixam sequelas observáveis e visíveis”. “Podem envolver consequências tão severas como aquelas associadas às agressões físicas”, assegura a psicóloga.

A isto, soma-se uma caracterítica que pode agravar o problema: as praxes académicas são uma bola de neve. “Quem é praxado sente que agora faz parte de um grupo, que se rege por determinadas regras. E essas regras envolvem praxar, mais tarde”, explica a psicóloga. No ano seguinte, o praxado vai praxar. E, se calhar, de forma ainda mais abusiva. “São as regras do grupo. Que são aceites e que têm de ser cumpridas por quem valoriza sentir-se integrado neste grupo. Sob pena de deixarem de ser parte integrante desse grupo”, acrescenta.

Encontrei in: jornal online observador 11 outubro 2018 

por Carolina Branco e João Francisco Gomes