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segunda-feira, 24 de março de 2025

Dia Nacional do Estudante

Dia Nacional do Estudante – Agrupamento de Escolas Amato Lusitano
imagem in: https://aeal.edu.pt/portal/dia-nacional-do-estudante/

A história do Dia Nacional do Estudante

Celebra-se hoje a data que simboliza o papel dos estudantes na sociedade. Uma ação que, ao longo das décadas, transformou Portugal. 

Vamos conhecer alguns desses momentos 

Foi a 8 de maio de 1987 que a Assembleia da República Portuguesa estabeleceu o dia 24 de março como o Dia Nacional do Estudante. O decreto (n.º 77/IV) consagra a data, tendo como objetivos "o estímulo à participação dos estudantes na vida escolar e da sociedade" e a "cooperação e convivência entre os estudantes".

O decreto destaca também como metas "a democratização e o desenvolvimento do ensino", bem como "a ligação dos estudantes com a comunidade". A história do Dia Nacional do Estudante é, contudo, anterior ao diploma que o institui. 

Alguns dos principais marcos do seu trajeto. 

1962: Contra a proibição

Foi nesta mesma data que, em 1962, um conflito nasceria entre os estudantes universitários portugueses e o regime do Estado Novo. Depois da proibição das comemorações do Dia do Estudante, milhares de estudantes realizaram "uma concentração na Cidade Universitária, como protesto às determinações do Ministro da Educação", destacava o Jornal O Século. A crise duraria vários meses, incluindo greves às aulas, cargas policiais e detenções de estudantes. 

Dia Nacional do Estudante

Arquivo fotográfico da Torre do Tombo 
da Crise Académica de 1962 
(Fonte: ANTB)

O regime acabaria por retomar o controlo no final desse ano. Contudo, como escreve a TSF"a longa crise estudantil marcou o despertar para a atividade política de uma geração que, em anos futuros, mostraria ser um dos setores mais ativos da resistência ao Estado Novo". Uma resistência que se voltaria a evidenciar alguns anos mais tarde. 

1969: Os estudantes tomam a palavra

No dia 17 de abril de 1969, foi inaugurado o Edifício das Matemáticas, na Universidade de Coimbra. Na véspera, o reitor negou o pedido dos estudantes para ter a palavra durante a cerimónia.

Durante a inauguração, o presidente da Associação Académica de Coimbra, Alberto Martins, dirige-se ao Presidente da República, Américo Thomaz: "em nome de todos os estudantes da Universidade de Coimbra, peço para usar da palavra". Vendo o seu pedido ignorado, Alberto Martins coloca-se em pé, em cima de uma cadeira, e faz o seu próprio discurso, oferecendo a palavra a outros estudantes. 

Documentário da ESECtv sobre a Crise Académica de 1969 (Fonte: Canal do YouTube ESECtv)

Nessa noite, sete agentes da PIDE detêm Alberto Martins. Um grupo de estudantes exige a sua libertação e é carregado pela policia. Cinco dias depois, é decretado Luto Académico. Estava aberta a crise académica de 1969 – um período que se alargaria pelo restante ano e que incluiria greves estudantis, um cerco da Guarda Nacional Republicana à Universidade de Coimbra e o aumento da chamada de estudantes para a Guerra Colonial.

Incluiria também uma final da Taça de Portugal em futebol, no Estádio Nacional, no Jamor, marcada pelas mensagens de protesto e pelo forte contingente policial. A Académica de Coimbra perderia 2-1 com o Benfica e, no final, os jogadores colocaram a capa aos ombros, em sinal de luto.  

1992: "Alunos voltam à rua"

Foi também no Dia Nacional do Estudante, em 1992, que milhares de estudantes do secundário e da universidade saíram à rua em protesto. "Alunos voltam à rua" titulava o Diário de Notícias, no dia seguinte. As manifestações (em Lisboa, Coimbra, Porto e Aveiro) protestavam o aumento de propinas anunciado por Aníbal Cavaco Silva e a existência da PGA (Prova Geral de Acesso): uma prova de cultura geral obrigatória para quem queria entrar no Ensino Superior que existiu entre 1989 e 1993. 

Trailer do documentário produzido por Nuno Fonseca, sobre a luta contra as proprinas. (Fonte)

Os protestos estudantis iriam continuar durante o resto do ano, bem como durante 1993 (maio e novembro). A manifestação de novembro de 1993, em frente à Assembleia da República, seria mesmo carregada violentamente pela polícia. Em 1994, alguns milhares de estudantes manifestam-se no mesmo local, desta feita em protesto contra as Provas Globais, criando uma imagem icónica: virados de costas para o Parlamento, alguns estudantes baixam as calças e mostram o rabo

Fonte: fórum.pt (com adaptações)


𝗗𝗜𝗔 𝗡𝗔𝗖𝗜𝗢𝗡𝗔𝗟 𝗗𝗢 𝗘𝗦𝗧𝗨𝗗𝗔𝗡𝗧𝗘 | 𝟮𝟰 𝗠𝗔𝗥𝗖̧𝗢 – Junta  de Freguesia da Junqueira
aeal.edu.pt

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Uma das missões da escola é "ensinar", "educar" e desenvolver o gosto pelo "saber"

in paivense.pt

Encontrei o tópico referido no título do meu post, quando pesquisava um tema para desenvolver, a partir do livro "Palavras que falam por nós", de Pedro Braga Falcão, Clube do Autor, 2014.

Achei muito interessantes todas as explicações das histórias que as palavras contam e fiquei maravilhada com as referências às suas raízes etimológicas.

E é por tudo isso que aqui vou partilhar este texto maravilhoso de se ler e também de se compreender o poder que as palavras comportam.

"Palavras Educadas 

Uma das principais missões da escola é ensinar, verbo que comporta em si a ideia de um signum, palavra latina que deu sinal; insignare é assim "marcar algo com um determinado sinal" - tornar alguém "assinalável", ilustre, capaz de reconhecer os sinais dados; ensinar, neste sentido, é também fazer conhecer por meio de sinais, por indicações.

Afim a ensinar é educar, tarefa que está reservada não só à escola, mas particularmente aos pais, se atentarmos na sua raiz etimológica: educare, composto a partir de ex- (aqui no sentido de "para fora", mas também comporta o de "de forma completa"), e ducere, verbo muito frequente em latim, que quer dizer "conduzir, guiar". Há aqui uma ideia de guiar a criança desde o início. e de forma completa.

A própria etimologia de aluno vai nesse sentido, uma vez que o seu étimo alumnus conhece a sua raiz no verbo alere, "alimentar", e literalmente queria dizer "aquele que é alimentado", e também "órfão", no sentido em que um órfão é alimentado por alguém que não a mãe. Nesta perspectiva, a escola é responsável por alimentar a "alma" dos seus discípulos, enquanto num orfanato a palavra tem um sentido também literal.

Outro aspecto que deve guiar qualquer instituição de ensino é o gosto pelo saber. Este verbo, tal como "estudo" e "escola", revela mais uma vez o carácter metafórico (ou será realista?) das palavras, uma vez que deriva diretamente do verbo latino sapere, que, tal como em português, tem uma primeira acepção de "saborear, tomar o gosto", como na frase 'esta comida sabe-me bem'."

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Há mesmo condições para eliminar as propinas no ensino superior?


imagem: in publico.pt




Sim, será que Portugal consegue eliminar as propinas do ensino superior? 


Esses cortes não prejudicam certas instituições desse mesmo ensino que beneficiam dessas receitas?

É melhor conhecermos o problema mais profundamente, lendo o que nos diz o jornal dn.pt:


Propinas rendem mais de 330 milhões a universidades e politécnicos

Responsáveis do superior avisam que Orçamento do Estado terá de cobrir verbas, que são quase 24% das receitas do setor. Só o corte anunciado de 20% da propina máxima, já neste ano, tira dois milhões a algumas instituições 

O ministro do Ensino Superior voltou a pôr a hipótese em cima da mesa e o Presidente da República aplaudiu e apoiou. Mas eliminar as propinas, ainda que num horizonte a médio prazo, de dez anos, será sempre uma meta exigente, tendo em conta o protagonismo que estas têm vindo a assumir nas contas das instituições do ensino superior. As propinas renderam às universidades e aos politécnicos públicos 330,1 milhões de euros em 2017, o valor mais alto de sempre. E a importância desta contribuição dos alunos para as receitas das instituições acentuou-se todos os anos na última década. 
Entre 2008 e 2017, de acordo com dados do relatório Estado da Educação 2017, divulgado em dezembro passado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), as receitas anuais com as propinas cresceram quase 72 milhões de euros e a fatia por estas ocupada no bolo orçamental do superior público passou de 13,7% para 23,7%. Ou seja: registou um aumento de dez pontos percentuais. 
É com estes números que terá de lidar o governo que decida eliminar as propinas da equação, sendo que oimpacto será naturalmente inferior se a medida acontecer apenas de forma parcial. Por exemplo, abrangendo só os primeiros ciclos e mestrados integrados, ou isentando de custas os alunos nacionais e da União Europeia, bem como outros países com os quais Portugal tenha acordos a este nível, mas mantendo a cobrança nos restantes casos. 
No entanto, a fatura deverá ser sempre da ordem das centenas de milhões de euros anuais. Só a recente decisão de baixar a propina máxima em 20% para 856 euros, a partir de 2019-2020 (atualmente está nos 1068 euros), terá um impacto previsto de cerca de 65 milhões por ano nas contas públicas. 
Pedro Dominguinhos, presidente do Politécnico de Setúbal e do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), considera, em declarações ao DN, que "a proposta do senhor ministro será para as licenciaturas [1.ºs ciclos do ensino superior]" mas confirma que estas já representam "a grande maioria" das receitas relativas às propinas, avisando estar em causa "um valor importante" que seria "impossível" de cobrir sem um reforço das transferências do Estado. "As instituições não podem viver sem essas receitas das propinas", afirma. "Deduzo que [acabar com a cobrança das mesmas] seja uma medida importante para promover o acesso ao ensino superior mas, do ponto de vista das instituições, isto significa retirar receitas que têm de ser ressarcidas pelo Orçamento do Estado." 
"Face ao peso que o ensino superior tem, o próprio Orçamento do Estado já é curto [no que respeita às dotações das instituições]", reforça António Fontainhas Fernandes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e presidente do Conselho de Reitores das universidades Portuguesas (CRUP). "Há dez anos que houve estagnação, para não falar em redução. O governo ou governos que o assumirem [extinção das propinas], de forma gradual ou não, terão de garantir que em Orçamento do Estado estará lá inscrita a verba correspondente." 
Corte na propina máxima em 2019-2020 já pode causar dificuldades às instituições 
De resto, confirma também o reitor da UTAD, o anunciado corte de 20% no valor das propinas máximas a partir do próximo ano letivo já está a gerar receios de que possam haver problemas de tesouraria. "Esperamos que a questão da diminuição do teto máximo esteja resolvida ainda neste ano. Está em causa a sustentabilidade das instituições e o seu funcionamento." 
O compromisso de que o Estado irá cobrir a diferença está assumido. No entanto, lembra Pedro Dominguinhos, falta a sua concretização. "O Orçamento do Estado diz que as instituições serão compensadas. Como e quando não diz", adverte. "Em abstrato está lá previsto. Agora: não foi orçamentado", acrescenta. 
E, mesmo "querendo acreditar" que o dinheiro chegará a tempo, o presidente do CCISP avisa que qualquer atraso terá consequências no sistema. "Problemas cria de certeza absoluta. O impacto irá variar muito de instituição para instituição. As que cobravam a propina máxima e terão uma redução de cerca de 200 euros serão mais afetadas. No caso do Politécnico de Coimbra, por exemplo, serão cerca de dois milhões de euros de perda de receita. No nosso caso, no Politécnico de Setúbal, a redução no valor da propina será de apenas 44 euros por aluno." 
Como revelam os dados do Estado da Educação 2017, nos últimos anos além da redução das transferências do Orçamento do Estado - que começaram a encolher em 2011 e ainda continuam distantes dos valores de há uma década - as instituições do ensino superior perderam também alguma capacidade de captar receitas por outras vias. Em 2013, de acordo com o mesmo relatório do CNE, universidades e politécnicos inscreveram 516,2 milhões de euros na rubrica de "outras receitas" - um recorde. Mas em 2017 o valor já tinha descido para os 438,7 milhões. 
E esses dados, que atestam a crescente dependência das propinas como fonte de financiamento, levam também os responsáveis do ensino superior a recearem que o "esforço significativo" que será exigido aos contribuintes num cenário de extinção das propinas acabe por travar um crescimento real do financiamento do setor: "O ensino superior continua a precisar de mais investimento e do que estamos a falar, neste cenário, é apenas da transferência de uma verba que era assumida pelas famílias para o Orçamento do Estado", avisa o presidente do CCISP. 
Assumir a gratuitidade das propinas coloca ainda outro problema às contas públicas: a redução da margem para recorrer a fundos comunitários para financiar o sistema.Atualmente, perto de um quarto (24%) dos estudantes do ensino superior são bolseiros, sendo que na maioria dos casos a bolsa equivale ao valor da propina anual. E o Estado tem recorrido a verbas comunitárias para subsidiar este tipo de apoios. Em 2017, o Fundo Social Europeu (FSE) assumiu 86,5% dos 138,5 milhões de euros gastos com ação social direta no ensino superior. Em 2008, as verbas comunitárias representavam apenas 46% do total. 
Sem propinas, a verbas do FSE poderão continuar a ser usadas para cofinanciar bolsas dos alunos. Mas deixam de, por essa via, contribuir para os orçamentos das instituições. 
Entre os que mais cobram e menos alunos apoiam 
Dito isto, há uma realidade incontornável, que também é referida no relatório O Estado da Educação 2017, citando dados da rede Eurydice da Comissão Europeia: Portugal está entre os países da União Europeia (UE) que cobram propinas mais altas - e a mais alunos - nos primeiros ciclos do ensino superior, com a agravante de se contar também entre os que menos estudantes apoiam através de bolsas ou outro tipo de incentivos. 
Numa análise a mais de 40 sistemas educativos do espaço comunitário (vários estados, como o Reino Unido ou a Bélgica têm sistemas distintos no seu território), a rede Eurydice aponta cerca de duas dezenas de casos em que a propina no 1.º ciclo do ensino superior não existe ou, graças ou não aos apoios concedidos, tem um valor médio residual, abaixo dos cem euros. Portugal está no outro lado da tabela, entre os raros casos que cobram propina a todos os alunos, sendo também - apesar dos progressos registados no último ano letivo - daqueles que menos compensam esse valor com os apoios sociais. 
Em termos absolutos - e essa realidade não se irá alterar mesmo com o corte de 20% em 2019-2020 -, Portugal tem a sexta propina mais elevada entre aqueles que a cobram, sendo apenas superado por Irlanda, Holanda, Hungria, Itália e Espanha. E se for levada em consideração a percentagem dos estudantes que acabam por não pagar graças aos apoios sociais, o país passa a ser o quarto que maior esforço exige às famílias. 
Do "não pagamos" aos 1063,47 euros 
Durante muito tempo, as propinas não foram um problema para os estudantes do ensino superior público. Legislação dos anos 40, que se manteve em vigor até 1992, manteve o valor anual nos 1200 escudos: cerca de seis euros, sem contabilizar a inflação; o dobro disso se a levarmos em conta. A primeira tentativa de rever a legislação, desencadeada num governo de Cavaco Silva, foi recebida com forte contestação dos estudantes, no famoso movimento do "não pagamos", envolvendo protestos de toda a ordem, cargas policiais e a demissão do ministro Couto dos Santos, em 1993. 
Em 1995, a então ministra da Educação Manuela Ferreira Leite implementou uma propina única de 80 mil escudos. Dois anos depois, o PS aprovou uma lei de financiamento do ensino superior fazendo equivaler a propina anual a um salário mínimo nacional. Finalmente, em 2003, o governo de Durão Barroso implementou o sistema que ainda vigora, com tetos mínimos e máximos a aplicar pelas instituições, sendo que o aumento do teto máximo tem estado indexado ao valor da inflação, ainda que no ano letivo passado não tenha sido atualizado por decisão do governo. 

(in: dn.pt 09.01.2019)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Pediatras americanos contra castigos dos pais aos filhos

O tema é delicado e suscita sempre alguma polémica em relação aos métodos a adotar.


"A palmada oportuna" deve ser aplicada nas crianças? Não devemos fazê-lo? E como aguentar as suas birras e atitudes só para levarem a sua vontade avante?


Devemos falar com as crianças e explicar-lhes tudo, mas o pior são aqueles momentos em que elas não nos querem ouvir, perpetuando uma birra por tempo indefinido, até ficarem roxas...


Pois é, nada fácil...!!!! 

Ainda temos muito que aprender...


Nem 'palmadas pedagógicas', nem ameaças. Pediatras contra castigos

Em novas orientações sobre castigos físicos, a Academia Americana de Pediatria defende que os pais nunca devem bater nos seus filhos e nunca devem usar insultos que humilhem ou envergonhem as crianças
Os pediatras americanos querem acabar de vez com a "palmada pedagógica". Não bater, esbofetear, ameaçar, insultar, humilhar ou meter medo, estas são as linhas vermelhas traçadas pela Academia Americana de Pediatria na educação de uma criança. Uma atualização de boas práticas que não era feita há 20 anos e que foi publicada esta segunda-feira na revista especializadaPediatrics, onde os pais são incentivados a impor a disciplina de forma saudável, através do reforço positivo ou da imposição de limites.
Robert Serge, pediatra do Tufts Medical Center de Boston e primeiro autor do estudo 'Disciplina efetiva para criar crianças saudáveis', destaca à CNN os avanços na investigação nos últimos 20 anos que "nos levam a dizer com muito mais convicção que os pais nunca devem bater nos seus filhos e nunca devem usar insultos que humilhem ou envergonhem as crianças". Investigações que mostram uma relação direta entre os castigos físicos e comportamentos violentos nas crianças, assim como diminuição da massa cinzenta nos cérebros infantis e sintomas depressivos mais tarde, na adolescência. E no entendimento dos especialistas americanos, a famosa "palmada pedagógica" - "bater com a mão aberta, sem causar ferimento, com o objetivo de modificar o comportamento da criança" - entra claramente na lista dos castigos corporais.
As novas orientações são bastante mais rígidas do que as publicadas em 1998, quando os pais eram aconselhados a desenvolver métodos alternativos à palmada em resposta a um comportamento indesejado. "Esta nova diretiva encoraja os pediatras a discutir com os pais a informação sobre os diferentes modelos disciplinares, para que eles possam tomar as suas decisões sobre como preferem criar os seus filhos", acrescenta Robert Serge.
Uma ideia reforçada ao DN pela pedopsiquiatra Ana Vasconcelos. "É infantilizante para os pais dizer-lhes o que não podem fazer sem lhes explicar o que provoca essas reações. Os açoites ou a chantagem não são conscientes, mas impulsos face ao incómodo provocado pelas alterações repentinas de humor das crianças. Temos de ajudar os pais a perceber que podem provocar essa situação com atitudes de intolerância".

Mudar de sítio e fazer a criança pensar

Mas como devem, então, os pais lidar com as fitas dos miúdos sem perder a calma? As respostas variam em função da idade. Se estivermos a falar de um bebé com menos de um ano, o melhor é distraí-lo ou mudá-lo de sítio - ou até de assunto - quando as birras chegam. Isto porque é melhor não esperar que crianças tão pequenas comecem logo a interiorizar muitas regras. Quando são mais velhos ou se estão na pré-adolescência, o melhor mesmo é deixá-los a pensar na vida sozinhos e focar numa receita alternativa: valorizar mais o bom comportamento dos miúdos do que os seus achaques.
O melhor é valorizar mais o bom comportamento dos miúdos do que as suas birras.

"É o empoderamento", traduz Ana Vasconcelos, que aconselha os pais a conhecerem-se melhor a si próprios e às suas reações, sem diabolizar os adultos e percebendo a pressão a que estão sujeitos. "Um pai que começa a gritar com o filho não consegue educar no futuro e vai provocar esse descontrolo também criança; um pai que grita e depois vem a mãe pôr água na fervura também é um mau exemplo, porque um desautoriza o outro".
A pedopsiquiatra adianta que há cada vez mais crianças intolerantes ao incómodo, ou seja, que não toleram um 'não. "E não estamos a falar de birras de meninos mimado", realça Ana Vasconcelos, "está provado que há mesmo alterações neurobiológicas no cérebro destes miúdos", indica a especialista, que destaca uma entrevista publicada há um ano a Marinus van IJzendoorn, onde o professor do Centro de Estudos da Criança e da Família (Holanda) define estas crianças mais difíceis "como orquídeas que precisam de cuidados ideais para florescer, mas que murcharão se o jardineiro for desajeitado".

Castigos físicos são permitidos nos EUA

Nessa entrevista, Marinus van IJzendoorn explicava que se as crianças com a variante curta do gene recetor da serotonina - o neurotransmissor que atua no cérebro regulando o humor, o sono, apetite ou o ritmo cardíaco - se encontrarem num mau ambiente, desenvolverão mais rapidamente sinais de depressão e de problemas do desenvolvimento comparativamente com crianças que possuam a variante longa deste gene.
Em Portugal, ao contrário dos Estados Unidos da América, os castigos corporais sobre crianças, mesmo em casa, são ilegais há mais de dez anos. A iniciativa internacional para abolir toda violência física sobre as crianças, um movimento apoiado pela Unicef e Unesco, refere no seu site que não existem recomendações em relação ao nosso país nesta área.
Já nos EUA, a lei permite aos pais infligir castigos físicos sobre os seus filhos em casa. Um estudo de 2004 mostrava que dois terços dos pais americanos usavam algum tipo de violência física sobre os filhos, embora uma outra investigação, de 2013, tenha concluído que o número de pessoas a responder que "uma boa e dura palmada é por vezes necessária para disciplinar uma criança" caiu de 84%, em 1984, para 70% em 2012. 
in DN por Pedro Vilela Marques 05.11.2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Perguntas a alunos de 5º ano de escolaridade sobre orientação sexual...

in:radioportuense.com

Na escola Francisco Torrinha, no Porto, foi entregue uma ficha "sociodemográfica" para os alunos de 5º ano de escolaridade preencherem e onde havia questões como: "Nacionalidade...Escola...Ano e Turma...Namoras atualmente?...Já namoraste anteriormente?...Sinto-me atraído/a por homens, mulheres, ambos...Com quem vivo...Encarregado de educação...".

Todas estas questões provocaram grande celeuma devido aos miúdos serem crianças de apenas 9/10 anos. A imagem do inquérito foi fotografada por um dos alunos e partilhada nas redes sociais, tornando-se viral.

Questionado sobre o assunto, o Ministério da Educação diz ser um caso pontual e não ter conhecimento do referido inquérito da escola, mas vai tentar apurar informação junto da escola. Entretanto, sabe-se que, para já, tanto a escola como a Direção de Agrupamento não prestaram quaisquer declarações.

Na minha opinião, a escola devia ter informado os encarregados de educação de que necessitava de colocar estas questões aos filhos destes (sobre orientação sexual...) e qual o objetivo em mente; ou então, e ainda melhor, era colocar primeiro essas questões aos próprios encarregados, pois dado o seu caráter tão "íntimo", está bom de ver que não iria passar assim tão despercebido... Não passou, e a polémica estalou mesmo...

Alguns especialistas nesta matéria, depois de entrevistados pelo DN, responderam assim: 

"Perante o questionário e o teor das perguntas, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos é perentória. "É um atentado à dignidade humana. Não se faz, porque as pessoas têm de ser respeitadas na sua intimidade", afirma ao DN. Defende que este tipo de perguntas de orientação sexual não deve ser feito a alunos desta faixa etária, 9, 10 anos, porque aborda a intimidade das crianças. "Os pais têm de autorizar o inquérito, têm de ver o teor do inquérito. Os pais como primeiros educadores da criança têm de ver e dar autorização ao inquérito, e saber o objetivo da escola", considera a especialista.
Ana Vasconcelos defende uma escola inclusiva e reconhece a necessidade de conhecer o aluno, não através destas iniciativas. "Têm de ser através dos pais no que respeita a assuntos íntimos, como a saúde, a orientação sexual e a consciência de género", defende. Mas aos 9, 10 anos já se pode falar em orientação sexual? "A partir dos 3, 4 anos pensa-se que a criança já tem consciência do seu género. E antes do 5º ano, com 10 anos, as crianças já podem verbalizar que não se sentem no género que têm e que lhes foi atribuído. Pode acontecer", explica.


A Associação de Pais fez saber ainda, em comunicado enviado à Lusa, que "os pais estão calmos e a maior parte dos alunos não percebeu bem a questão que lhes foi colocada". "O Ministério da Educação está a par e vai agora tentar esclarecer a situação", adianta a associação.
O facto de as crianças não terem percebido a questão reforça a opinião de Ana Vasconcelos. "Sempre que eu faço uma pergunta a uma criança, há várias hipóteses. E se eu sei que a pergunta não vai ser compreendida não a faço", explica a pedopsiquiatra, que considera ser importante saber o objetivo da escola com esta "ficha sociodemográfica". "A intenção pode ser boa, mas saiu torto."
O facto de poder ser um inquérito anónimo não altera a opinião da pedopsiquiatra. E explica porquê? "Mesmo que não seja atribuída a identidade, os miúdos ficam a pensar naquilo. As perguntas que não percebem, que não sabem responder, causam impacto no seu pensamento." 
"Não vejo qual é o interesse em perguntar a uma criança de 9 anos por quem se sente atraído", refere o sexólogo Júlio Machado Vaz
O psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz foi uma das pessoas que partilhou a fotografia do inquérito com a legenda: "Aguardo com espantada - e talvez ignorante, claro... - curiosidade uma explicação." Ao DN justifica o porquê? "Não vejo qual é o interesse em perguntar a uma criança de 9 anos por quem se sente atraído, pode ser que haja uma explicação científica em que eu não tenha pensado."
(in DN de 11 de outubro 2018)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Lutas em torno da carreira dos docentes portugueses: o relatório da OCDE

in: jornaleconomico.sapo.pt

Chamou-me a atenção este artigo que abaixo transcrevo, de Pedro Sousa Tavares, no dn.pt de 11 de setembro de 2018, pois é um tema sério, importante, e que merece ser analisado por todos nós, sociedade portuguesa, neste princípio de ano escolar!

Mantém-se uma espécie de "guerra" entre os sindicatos da educação e o governo, a propósito da contagem do tempo de serviço dos professores, tendo nós assistido, já há meses, a posições extremadas por parte dos docentes com greves às aulas, às avaliações, aos lançamentos de notas, aos exames...

É lamentável a ausência de paz e tranquilidade neste setor! A falta de acordo entre sindicatos e governo continua, neste início de mais um  novo ano letivo...

Vamos então ler o que diz Pedro Sousa Tavares sobre a forma como o Relatório da OCDE - Education at a Glance 2018 - (podendo traduzir-se por educação em resumo), retrata a classe docente portuguesa:

"OCDE diz que temos professores envelhecidos que ganham bem e trabalham menos horas
Portugal tem uma força de trabalho docente envelhecida, com salários relativamente altos e horas dedicadas ao ensino comparativamente curtas". É desta forma - que dificilmente poderia ser mais controversa, numa altura em que sindicatos e governo travam uma batalha em torno do tempo de serviço congelado - que a OCDE abre o capítulo dedicado aos professores nas notas relativas a Portugal do relatório Education at a Glance 2018.
No documento é explicado que, por força da quebra nas novas contratações, a parcela dos docentes com mais de 50 anos aumentou 16% no país, entre 2005 e 2016, enquanto na média da OCDE a progressão foi de apenas 3%. Esta tendência, como já tinha sido revelado no ano passado, no relatório Perfil do Docente, da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e da Ciência, levou a que, "em 2016, apenas 1% de todos os professores, do primeiro ciclo ao secundário, tivessem menos de 30 anos (a média da OCDE era de 11%) e que 38% tivessem 50 anos ou mais (a Média da OCDE era de 35%).
Este facto é apontado como uma das explicações para o que a OCDE considera ser uma folha salarial "relativamente elevada", já que os docentes mais velhos estão habitualmente nos patamares mais elevados da carreira, onde se ganha melhor. Mas não é a única. De acordo com a organização, a classe goza em Portugal, face a trabalhadores com qualificações comparáveis, de um estatuto que é quase único no contexto dos seus estados-membros.
"Ao contrário de quase todos os outros países da OCDE, os professores portugueses, do pré-escolar ao ensino secundário, ganham mais do que outros trabalhadores com educação terciária [ensino superior]", diz o relatório, precisando que esta diferença "varia de 35% a mais no 3.º ciclo para 50% a mais no pré-escolar". Os diretores também são referidos, com a OCDE a concluir que estes "ganham o dobro do que os trabalhadores com o ensino superior ganham em média".
Refira-se que o relatório não afirma que os professores portugueses ganham mais do que os seus colegas de outros países. De resto, a mesma organização já produziu documentos que concluem precisamente o contrário, sobretudo quando se trata dos primeiros anos de profissão. O que a OCDE está a dizer é que, considerando a realidade nacional, os salários dos professores podem ser considerados acima da média.

"Horários mais leves do que a média"

A OCDE reconhece que, além do salário, é importante garantir outras "boas condições de trabalho" e que esta é uma variável "que engloba várias dimensões, muitas das quais são difíceis de medir". No entanto, diz também que, "pelo menos em termos de tempo dedicado ao ensino, os professores em Portugal beneficiam de horários mais leves do que na média da OCDE, e têm comparativamente mais tempo para atividades não letivas, como a preparação de aulas e a correção de trabalhos de casa".
Por exemplo, diz, "nos programas do terceiro ciclo em Portugal, o tempo dedicado às atividades letivas é de 616 horas por ano (a média da OCDE é de 701), o seu tempo de trabalho requerido na escola é de 920 horas (a média da OCDE é de 1178) e os professores passam 42% do seu horário total de trabalho a lecionar (quando a média, entre os países com dados disponíveis, é de 44%)".
O relatório lembra ainda que, "como noutros países, a carga de trabalho e exigência em termos de ensino podem evoluir ao longo da carreira dos professores" e que, em Portugal, "os professores podem beneficiar de uma redução dos horários letivos devido à sua idade ou anos de profissão, ou por se dedicarem a atividades extracurriculares na escola"."
Entretanto, li também no jornaleconomico.sapo.pt de 15 de setembro (artigo de Mariana Bandeira) que: 
"Professores pedem reunião extra ao Governo por causa do relatório da OCDE: A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) pediu uma reunião suplementar ao Governo e pediu explicações à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) por causa do último relatório sobre educação. A federação sindical refuta os dados divulgados esta semana e pretende receber explicações do diretor-geral para a Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher.
A análise da OCDE concluiu, entre outros aspetos, que os docentes e diretores das escolas em Portugal ganham em média mais do que outros trabalhadores com formação superior, uma tendência que contrario a maioria dos países membros.
“Os dados não só falsearam estas duas realidades da atividade docente em Portugal (salário e horário) como serviram para, junto da opinião pública, denegrir a imagem dos professores, através da divulgação de informações que, por não serem verdadeiras, os docentes de Portugal pretendem ver corrigidas, reiterando a Fenprof o pedido de informação sobre como recolheu a OCDE os dados que divulgou”, refere a missiva enviada à OCDE.
O “Education at a Glance 2018” demonstrou ainda que as instituições de ensino portuguesas despendem menos dinheiro por aluno anualmente do que a média da OCDE –  i.e. gastam menos de 10 mil dólares (aproximadamente 8.600 euros) por ano."

sábado, 27 de janeiro de 2018

Tecnologia: uma ajudante preciosa na educação

imagem in noticiasaominuto.com



Estou de acordo com o que li num artigo de Nuno Crato "Eles hoje aprendem de modo diferente...Ah é?" e partilho da sua opinião quando diz que "a interação humana é importante". 

Também gostei que expressasse uma certa esperança em relação ao modo como na educação se encaram as novas tecnologias, principalmente quando ele escreve: "... esperemos que os educadores não baixem os braços e deem às novas tecnologias o lugar que merecem: ajudantes preciosos da educação, mas ajudantes que têm de ser dirigidos." 

Não há como transcrever o artigo, para conhecer a importância desta temática: 

"Eles hoje aprendem de maneira diferente... Ah é?" (por Nuno Crato)


"Quando estava a estudar no liceu, surgiu uma novidade tecnológica: o laboratório de línguas. Na altura estávamos a aprender Francês. Em vez de o aprendermos com um professor, dizia-se, iríamos ter um laboratório em que cada aluno se enfiava numa pequena cabina, com um microfone à sua frente e auscultadores nos ouvidos. Nessas cabinas individuais cada um ouviria um texto gravado, responderia a perguntas seguindo o seu próprio ritmo, gravaria as suas respostas, ouvi-las-ia de novo, corrigiria a sua pronúncia e, num ápice, seria fluente em Francês. 
Era a modernidade! Era mais ativo, era mais moderno, as novas tecnologias entusiasmavam os alunos, o professor tornava-se apenas num “facilitador”, o aluno era o “centro das aprendizagens”. Estávamos no século XX, já a caminho do XXI. Os tempos eram outros. 
A experiência terminou em poucos dias. Cansámo-nos. Era tão aborrecido estar fechado, sozinho, a ouvir vozes gravadas! Era desanimador falar para um aparelho e manter monólogos sem sentido. Era triste não ter colegas nem um professor que orientasse as conversas, que lhes desse alguma espontaneidade, algum toque humano. 
Hoje sabe-se muito mais. Graças a estudos rigorosos de Patricia K. Kuhl e de outros investigadores de neuro-ciências e aquisição de linguagem, sabe-se mesmo que a interacção humana é insubstituível na aprendizagem inicial das línguas. 
Entretanto, passaram-se muitos anos… e já ouvimos as mesmas teorias muitas vezes. Era a calculadora que iria entusiasmar os alunos com a matemática. Eram os computadores que iriam transformar os alunos em “aprendentes ativos”. Eram as novas gerações digitais. Eram os “smartphones” que faziam parte integrante da vida dos novos alunos. Era a internet que tornaria obsoleta a memorização e o conhecimento. Não, a escola não poderia ser a mesma! 
Uma versão moderna destas teorias românticas postula que os jovens de hoje, nascidos depois de 1984, data em que apareceram os jogos vídeo de 8 bits, seriam completamente diferentes dos que os antecederam. Os novos jovens seriam “nativos digitais”, pois teriam aparecido num mundo novo e, desde muito cedo teriam dominado as tecnologias, que seriam para eles uma segunda pele, o seu meio natural. Nós, pobres adultos, tendo, quanto muito, e naturalmente com dificuldade, aprendido tarde a manejar as novas tecnologias, teríamos delas um domínio defeituoso. Seríamos apenas “emigrantes digitais” e não poderíamos perceber a nova maneira de aprender dos jovens. 
Não, não estou a fazer uma caricatura. Foi assim que Mark Prensky descreveu e contrastou as diferenças entre estas gerações. Vale a pena ver o artigo original para perceber a origem destas ideias. As suas consequências para a educação são tão claras como potencialmente prejudiciais: os jovens não precisariam de ser ensinados a dominar as tecnologias digitais, não deveriam ser ensinados de forma sequencial, dever-se-ia aceitar que se distraíssem continuamente pois teriam uma mente especial, capaz de processamento paralelo ou “multitasking”, estariam preparados para a aprendizagem em rede, para a aprendizagem por inquérito próprio, para a experimentação num mundo digital. Seriam, finalmente, “aprendentes ativos” e teriam, por natureza, uma mente crítica. Forçá-los a seguir programas rígidos tolheria a sua iniciativa. 
Na última década, contudo, vários estudos de psicólogos cognitivos vieram por em causa todas estas teorias. Começando pelo princípio: tudo indica que os “nativos digitais” são, afinal, um mito. 
Quando se analisa a capacidade dos jovens para utilizar as novas tecnologias, verifica-se que são poucas as áreas em que ultrapassam os adultos educados. Na maioria das situações e dos casos, utilizam as tecnologias de forma passiva, limitando-se a funcionalidades básicas no que respeita à sua educação e sem conseguirem dar-lhes uso criativo para a resolução de problemas. Alguns estudos são enfáticos: “a presença ubíqua da tecnologia entre os jovens não lhes traz como resultado uma melhoria na coleta de informação, na procura de informação nem nas suas capacidades de avaliação”. 
É verdade que nos impressiona ver a facilidade com que os mais jovens escrevem mensagens ou mudam de uma “app” para outra. Mas também nos impressiona a facilidade com que se levantam depois de uma queda, descem as escadas a correr ou aprendem uma língua estrangeira. Não foi sempre assim? 
Recentemente, Paul Kirschner e Pedro De Bruyckere, dois conhecidos investigadores de psicologia cognitiva, publicaram um artigo que sumariza os estudos recentes sobre o mito dos nativos digitais. Esse artigo teve a honra de editorial na prestigiosa “Nature”
Talvez algumas coisas estejam a mudar, como indica a receção da carta de dois investidores da Apple alertando para o vício das crianças nos telemóveis e outros aparelhos." 
No Observador, um artigo recente de Ana Cristina Marques ajudou a colocar os pontos nos ii. Esperemos que os educadores não baixem os braços e deem às novas tecnologias o lugar que merecem: ajudantes preciosos da educação, mas ajudantes que têm de ser dirigidos. Aliás como tudo ou quase tudo em educação." 
(Artigo de Nuno Crato, no jornal Observador a 23.01.2018)



terça-feira, 6 de junho de 2017

A Relação Professor-Aluno

in http://www.illum.com.mt/
  • Neste post de hoje, vou debruçar-me sobre um tema que me é muito querido: o da educação! Ele arrasta consigo a escola, os professores, os alunos, as famílias e as relações entre uns e outros...
  • Depois de ler este artigo, concordo com o seu autor:
  1. quando afirma que ..."no sistema de ensino, são os professores quem tem maior impacto no desempenho escolar dos alunos." 
  2. quando reconhece que "Hoje os professores estão desmotivados..."
  3. que "Os alunos quando levados a refletir reconhecem a importância dos professores na sua vida"
  4. quando refere que "É com o que aprendem na escola e com os professores que vão poder realizar os seus sonhos..."
  5. que "Hoje ser professor tem um âmbito mais alargado, dado as famílias terem menos tempo para os filhos." 
  6. que "Uma aluna lembrava que uma professora não ensina apenas uma, mas várias gerações." 
  7. e finalmente cito: "Os professores têm um grande impacto nos alunos pelo que ensinam, os valores que transmitem e pela relação que criam. O fomentar desta relação é tão importante quanto uma oportunidade para os alunos desenvolverem empatia e autonomia, que potencia a sua aprendizagem agora e o seu desenvolvimento futuro."

Vou ficar por aqui, porque afinal, reconheço que concordo em absoluto com tudo o que o autor deste texto escreveu. Quero dizer que sinto que ele escreveu tudo o que era preciso sobre professores e alunos. Ao rever-me como professora que fui durante mais de 30 anos, reconheço que o autor disse tudo o que era de mais importante na relação professor-aluno, não precisa de dizer mais nada, por agora, pelo menos, para mim! 

Vamos motivar todos os Professores para que exerçam a sua nobre missão e 

não se deixem esmorecer!

  • Afonso Mendonça Reis in observador.pt a 06.06.2017 escreveu o seguinte texto, e que com a devida autorização (espero bem) me permito transcrever:

"A relação professor-aluno é uma escola para a vida

A campanha ‘Inspira o teu Professor’ existe para reforçar a missão social dos professores. Hoje, quatro meses passados a trabalhar nas escolas, o que aprendemos?
A educação é uma prioridade para os Global Shapers Lisbon Hub. E, no sistema de ensino, são os professores quem tem maior impacto no desempenho escolar dos alunos. Hoje os professores estão desmotivados e os Global Shapers associaram-se ao Inspira o teu Professor por uma educação que promova todo o potencial dos jovens e de Portugal.
A campanha ‘Inspira o teu Professor’ desafia os alunos a pensar no impacto que os professores têm na sua vida e a produzir conteúdos como vídeos, cartazes e cartas para os inspirarem. Estes conteúdos permitem reconhecer não só a missão social dos professores, mas as características que os alunos valorizam nos professores e no ensino. A reflexão que se segue resulta da minha análise dos conteúdos produzidos durante a 2ª edição do ‘Inspira o teu Professor’ e do nosso trabalho nas escolas.
Os alunos, quando levados a reflectir, reconhecem a importância dos professores na sua vida. É com o que aprendem na escola e com os professores que vão poder realizar os seus sonhos: “ser professor é ser condutor de almas e de sonhos”; “levar para o resto da vida o que os professores nos ensinaram”. Hoje ser professor tem um âmbito mais alargado, dado as famílias terem menos tempo para os filhos. Vários alunos contam com os seus professores para superar as suas dificuldades, “iremos lembrar as caras dos nossos professores para o resto das nossas vidas, pois foram eles quem mais nos ajudaram quando mais precisámos”. Uma aluna lembrava que uma professora não ensina apenas uma, mas várias gerações.
Professores têm um papel muito importante na transmissão de valores. Apesar de incutir valores ser um papel do foro da família, os alunos reconhecem nos professores uma fonte de inspiração e alguém que lhes incute valores. Os professores são inspiradores, porque me ensinaram “a fazer o que é correcto, perante uma situação difícil seja ela qual for”. Os professores são a “esperança num mundo livre de ignorância e cheio de valores”. Esta questão é tão mais relevante quanto mais tempo passamos em ambientes sem moderação, como a internet. Os jovens podem falar com qualquer pessoa sem que a sua família se aperceba ou os “acompanhe”. Conhecemos o caso do jogo da Baleia Azul, que tanto nos chocou. São valores sólidos que os ajudam a proteger-se.
A relação professor-aluno precisa de mais empatia. Os alunos contam-nos que é fácil culpar os professores “por tudo” e que se esquecem que os professores “também são pessoas”. Eles próprios, os alunos, dizem que são por vezes “chatos, casmurros, mal-educados, etc.”, mas que, “no fundo, são boas pessoas”. Os mesmos alunos gostariam que os professores os conhecessem melhor, que soubessem quem são e o que os torna únicos. Alguns professores destacam que a carga lectiva e burocrática limita o tempo para poder investir mais na relação com os alunos.
Os alunos são muito claros, valorizam o professor interessado nos seus alunos, que não desiste deles e que goste de ensinar. Num tom mais provocador, mas não menos curioso, um grupo de alunos definiu a escola e a sua experiência no sistema de ensino, como uma prisão. Mas é esta boa relação com os seus professores que lhes permite transcender a prisão.
Desenvolver autonomia é uma grande oportunidade para fomentar uma relação frutífera entre alunos e professores. O facto dos alunos se desresponsabilizarem culpando os professores, é uma oportunidade. Esta atitude passiva pode advir de os alunos sentirem que não têm influência sobre a sua escola. Muitos professores mostraram interesse em ouvir a opinião dos alunos através dos conteúdos. Envolver os alunos no funcionamento da escola, permitiria desenvolver autonomia e valorizar o esforço colectivo, e investimento da sociedade, para que a escola funcione. Existem exemplos de escolas no Japão onde os alunos limpam a escola. Os alunos fazem-no com normalidade porque terão de fazê-lo como adultos. Dar espaço aos alunos para preparar e dar aulas é uma óptima forma de ver que abordagens pedagógicas eles privilegiam, fazê-los estudar mais e partilhar a responsabilidade. Assim os alunos não seriam “vítimas da prisão”, mas trabalhariam em equipa com os professores para tornar a sua própria aprendizagem mais dinâmica e estimulante.
As boas relações têm um grande impacto na nossa educação, aprendizagem e felicidade. Um artigo do New York Times cita um estudo feito pela Microsoft no Canadá que mostra que hoje a nossa concentração média é de oito segundos, abaixo dos 12 segundos de um peixe. A tecnologia expandiu o acesso a serviços e conhecimento, mas deve ser utilizada com equilíbrio. A hiper-conectividade e os smartphones estão a privar-nos da nossa atenção e concentração. Sem elas, vamos ter mais dificuldade em aprender, discernir sobre o mundo e criar relações, no nosso caso, entre professores e alunos. Mas as relações não são só importantes na educação. Um estudo longitudinal desenvolvido ao longo de 75 anos em Harvard mostra que relações de qualidade são a base de uma vida feliz. Os professores têm um grande impacto nos alunos pelo que ensinam, os valores que transmitem e pela relação que criam. O fomentar desta relação é tão importante quanto uma oportunidade para os alunos desenvolverem empatia e autonomia, que potencia a sua aprendizagem agora e o seu desenvolvimento futuro.
Afonso Mendonça Reis é fundador das Mentes Empreendedoras, Inspira o teu Professor e Professor Universitário na Nova SBE, foi nomeado um Global Shaper em 2012 pelo Fórum Económico Mundial.
O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo sobre a inovação social. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor e não vincula os Global Shapers de Lisboa."

sábado, 3 de novembro de 2012

Como vai a Educação no Pré-Escolar...



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A Educação do meu Umbigo


Do Pré-Escolar


by Paulo Guinote (http://educar.wordpress.com/)

  A realidade surreal do pré-escolar


Sou Educadora de Infância há 30 anos na rede pública do Ministério da Educação. Iniciei o meu percurso profissional nos anos dourados do pré-escolar em Portugal. Esse era o tempo dos pequenos Jardins de Infância de aldeia, bem integrados nas suas comunidades, interpelando-as culturalmente e em franco diálogo com as famílias. Esse era o tempo em que a bandeira agitada defendia que este tipo de estrutura se destinava a responder às necessidades pedagógicas das crianças e não das famílias. Não havia almoços nem prolongamentos de horário com nomes pomposos como “Actividades socioeducativas”. As crianças não permaneciam no Jardim tempo demais, eram serenas e viviam mais felizes.


Que longe estamos desses anos. Assistimos nos últimos tempos à caça aos chamados Jardins de Infância isolados. Qual será a razão? Com o argumento de centralizar e rentabilizar recursos que, supostamente, melhorariam a qualidade do ensino, os mega-agrupamentos escolares crescem como cogumelos, esvaziando as aldeias de crianças, que agora se amontoam em Escolas com vários ciclos de Ensino. O presente das Escolas Novas, com cores belas, bibliotecas, pavilhões multiusos, etc… revelou-se no entanto um presente envenenado. Em Educação, o formato mega não traz mais qualidade, e a massificação acarretou, claramente, menos qualidade no ambiente escolar, no atendimento pessoal e na actividade educativa.


Rentabilizar recursos significou desde logo que deixasse de existir 1 (uma) Assistente Operacional (auxiliar de educação) por cada grupo de Jardim. O rácio agora é de 1 (uma) Assistente para cada 2 (duas) salas. O panorama real pode ser, por exemplo, que, para uma Escola com 3 (três) salas de Jardim e 5 (cinco) de 1.º ciclo, existam apenas 4 (quatro) Assistentes Operacionais. O significado disto é o seguinte: uma Educadora que tem um grupo heterogéneo de 25 crianças, com 2, 3, 4 e 5 anos, passa pelo menos duas horas e meia por dia a braços com todo o grupo, sem qualquer apoio.


Oiço colegas jovens a fazerem-me relatos desesperados. Conta-me a Vera que, durante os primeiros dias deste ano, teve 30 crianças (por atraso na colocação de uma colega, uma turma havia sido dividida pelas demais Educadoras). Entre choros de início de ano lectivo, conflitos a gerir entre as crianças, crianças que faziam xixi e precisavam de ser mudadas, com uma casa de banho fora do alcance visual da Educadora e sem uma Assistente para lhe dar apoio a tempo inteiro… imagine-se o caos! Não é de estranhar que, num desses momentos, uma criança tenha escorregado e aberto o sobrolho numa ida ao WC. Quando a Educadora chegou ao local constatou o facto e, além de ter que dar a ajuda necessária a esta criança, e localizar a auxiliar que se encontrava em parte incerta, ao chegar à sala já tinha outra criança a precisar de ser mudada e mais 28 que precisavam da sua supervisão. Ao fim do primeiro mês de trabalho desabafa: “Ainda não consegui começar a trabalhar... Já me pergunto que sentido tem esta profissão neste contexto”.


A Isabel e a Manuela relatam-me outras situações caóticas nos seus pólos escolares decorrentes de rácios de 1 (um) adulto por 25 crianças na hora de almoço, havendo situações piores. Se uma criança precisar de ir ao WC nesta hora, pode ter que percorrer corredores fora do alcance da supervisão do adulto até ao WC mais próximo. A alternativa será o adulto acompanhá-la e deixar sem supervisão os outros 24! Lembremos que nos grupos de pré-escolar existem crianças com apenas 2 anos!


Se falarmos das horas de recreio após almoço, a situação ainda se agrava: é possível estarem 150 (cento e cinquenta!) crianças de pré-escolar e 1.º ciclo, e até mais, no mesmo espaço, durante hora e meia, sob a supervisão de apenas 2 (duas) Assistentes Operacionais. É evidente que o objectivo inglório e desesperado deste pessoal auxiliar acaba por ser evitar que alguém vá parar ao hospital. Mas é impossível evitar “galos”, mazelas várias, arranhões e nódoas negras sobre as quais os pais vêm pedir explicações (em mau tom) às Educadoras, que nem sequer estavam presentes por se encontrarem na sua hora de almoço.


Para piorar o panorama, o que qualquer Educador com duas ou três dezenas de anos de serviço pode confirmar, é que os grupos são cada vez mais caóticos. Agitação, desconcentração, comportamentos disruptivos, desafio da autoridade do adulto, brincadeiras violentas claramente influenciadas pelo consumo desregrado de televisão, desenhos animados e jogos violentos, são a realidade quase generalizada hoje em dia.


Para completar o cocktail explosivo, surgiu a famosa ideia da Escola inclusiva, para a qual não faltariam todos os apoios e mais uns quantos… nas palavras dos políticos que “venderam” esta ideia poética aos professores e ao País. É por isso que Isabel, a trabalhar num Jardim de Infância de um bairro problemático de Lisboa, com uma sala que nem tem as dimensões regulamentares, tem duas crianças com Necessidades Educativas Especiais integradas num grupo que não usufruiu de redução de número, como devia, e está a funcionar nestas condições partilhando a Assistente Operacional com outro grupo. Também ela tem que esperar à porta da sua sala, seguindo com o olhar o percurso que as crianças fazem pelo corredor até ao WC, deixando de estar com o grupo para assegurar que o trajecto é feito em segurança e que a criança não se perde pelos labirintos de uma escola com uma dimensão desumanizada e desajustada para a sua idade.


Junto-me com as colegas e partilhamos desabafos. Temos idades diferentes, mas há algo em comum. Estamos no início do ano lectivo e já quase à beira de um ataque de nervos. Trabalho de qualidade passa a ser uma miragem e a frustração e o cansaço instalam-se, cada vez mais depressa, a cada ano que passa. Como desenvolver projectos bem estruturados, se nem a questão da segurança física e emocional das crianças está assegurada?


E sou tentada a fazer comparações com uma realidade que conheço. A Experiência Pré-Escolar de Reggio Emilia (Itália) é considerada pioneira em qualidade de Educação de Infância a nível mundial. Cada grupo tem 1 (um) Educador e 2 (duas) Auxiliares! Cada Instituição tem ainda 1 (um) atelierista que trabalha em Artes com as crianças, e o município conta com 1 (uma) pessoa formada em Teatro que trabalha com todos os Jardins.


Sou Educadora há 30 anos. Tenho paixão pelo meu trabalho e não poderia fazer outra coisa na vida. Felizmente, tenho a sorte de estar num Jardim de Infância de aldeia e com pessoal suficiente para exercer a minha missão com qualidade e dignidade, mas sinto um desgosto profundo ao assistir à forma como se trata a Infância e os profissionais de Educação em Portugal. Os erros são muitos e crassos e estão generalizados. Não há visão de futuro e o abismo está perigosamente perto. O sistema suga toda a energia de Educadores e Professores, que só sobrevivem ao caos se tiverem uma saúde mental de ferro. Ao fim de um mês de trabalho, muitos dizem, desalentados, que não sabem se vão aguentar até ao fim do ano lectivo.


PS – Os nomes das minhas colegas são fictícios. Vivemos numa era de incertezas e, infelizmente, o receio não aconselha a “dar a cara”.


Helena Martinho


Educadora no Jardim de Infância do Vimeiro
Paulo Guinote
Novembro 1, 2012 ás 10:51 am
Categorias: Pré-Escolar, Testemunhos
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