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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Notícias preocupantes da Covid-19!

Covid-19: Portugal regista aumento de novas infeções contrariando  decréscimo europeu – Observador
imagem in jornal OBSERVADOR


Já não nos bastam as que ouvimos diariamente nos meios de comunicação social sobre as guerras...Esta é mais uma e está sempre a repetir-se!

A Covid-19 está a voltar em grande força...infelizmente!

Todo o cuidado é pouco, pois pelos vistos o vírus regressou e é preciso evitar-se grandes ajuntamentos e outras situações, tão bem por nós conhecidos. A minha opinião pessoal é a de que a máscara, para quem tem sintomas de constipação ou gripe (que pode vir a ser Covid), ainda é "a melhor receita", e não temos de estar constrangidos por termos de a usar. É sinal de que somos responsáveis!

Enfim, não vou aqui enumerar os procedimentos aconselhados pelos médicos e cientistas, ouvidos e bem conhecidos com a pandemia desde 2020, em que "o pior" ainda levou cerca de 2 anos a atenuar-se.

A situação atual pede que estejamos atentos e sejamos sejamos cautelosos e responsáveis, disso não há qualquer dúvida! Temos de pensar em nós e nos outros. Se não o fizermos, o problema começa a alastrar.

Mas nada melhor que transcrever o texto da pesquisa que efetuei sobre este tema (tão desagradável e preocupante)!

FONTE: texto da Agência Lusa, de 03. de julho de 2024 no Jornal OBSERVADOR


Portugal com uma média de 12 mortes por dia e quase 400 novos casos de Covid-19 

Números de casos tem vindo a aumentar no último mês passando de uma média de três mortes diárias para doze e de uma média de 130 casos para quase 400. Houve ainda um aumento de 30% dos internamentos.

Portugal está com uma média diária de 12 mortes por Covid-19 e perto de 400 novos casos, um número que quase triplicou desde finais de maio, disse esta quarta-feira à Lusa o epidemiologista Manuel Carmo Gomes.

No fim de maio, Portugal tinha uma média de 130 notificações de casos positivos de Covid-19 por dia e nos últimos sete dias a média diária rondou as 390, precisou o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ressalvando que no início de maio o número de notificações era “muito baixinho”, cerca de dez casos.Relativamente ao número de mortes, Manuel Carmo Gomes disse que é de “aproximadamente 12 por dia”, o que representa também “um grande aumento relativamente há um mês“, em que se registavam cerca de três mortes diárias.

“Se recuarmos aproximadamente dois meses, nessa altura tínhamos um óbito de dois em dois dias”, adiantou o epidemiologista e membro da Comissão Técnica de Vacinação Contra a Covid-19.Segundo Carmo Gomes, também se registou “um aumento grande” do número de mortes de doentes internados em hospitais públicos com teste positivo, o que não significa que estivessem hospitalizadas por Covid-19.

Assinalou ainda o aumento de quase 30% de doentes internados que testaram positivo ao longo dos últimos três meses.

“Neste momento, as pessoas que testam positivo para Covid e estão internadas, um pouco mais de metade têm mais de 60 anos” e cerca de 24% mais de 80 anos, disse, apontando que, eventualmente, é nesta faixa etária que está a ocorrer a maior parte das mortes devido a terem várias doenças.Como razões para este aumento de casos, Carmo Gomes apontou a evolução do vírus SARS-Cov-2, com o surgimento de novas linhagens com capacidade de fugir aos anticorpos,

“Praticamente já não temos proteção contra estas novas linhagens do vírus”, nomeadamente a KP.1, KP.2 e KP.3, que têm “uma série de descendentes” e são dominantes, neste momento, na Europa e na América.


De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), a sublinhagem KP.3 tornou-se maioritária em Portugal ao longo do mês de maio, mas é geral na Europa e na América.

“Todos temos anticorpos a circular no corpo porque já fomos vacinados e fomos infetados, etc., mas estas linhagens têm capacidade de fugir a estes anticorpos”, salientou.

Por outro lado, o epidemiologista observou que já passaram cerca de oito meses desde a última campanha de vacinação, que ocorreu no outono de 2023, tendo a proteção das pessoas contra o vírus baixado.Recordou ainda que a cobertura vacinal no passado outono “não foi brilhante”.

“As pessoas com mais de 60 anos tiveram uma cobertura vacinal de aproximadamente 66%, o que quer dizer que os outros 34% nem sequer foram vacinados no outono, já não têm contacto com a vacina há mais de um ano e meio”, observou.Recordou ainda que a cobertura vacinal no passado outono “não foi brilhante”.

“As pessoas com mais de 60 anos tiveram uma cobertura vacinal de aproximadamente 66%, o que quer dizer que os outros 34% nem sequer foram vacinados no outono, já não têm contacto com a vacina há mais de um ano e meio”, observou.Numa altura de férias, Manuel Carmo Gomes lembrou que o vírus SARS-CoV-2 continua a circular e lembrou algumas recomendações para evitar a infeção.

“A Covid não tem características sazonais, pelo menos até ao momento, como a gripe que praticamente já desapareceu, mas continua entre nós e está a dar origem a esta onda” de infeções.

O epidemiologista aconselhou as pessoas de maior risco a evitarem estar em espaços não arejados com pessoas fora do seu círculo habitualO epidemiologista aconselhou as pessoas de maior risco a evitarem estar em espaços não arejados com pessoas fora do seu círculo habitual.

Lembrou a importância de higienizar as mãos, nomeadamente não levar as mãos à boca ou aos olhos sem estarem lavadas, e o uso de máscara por pessoas que sabem que “são de alto risco”.

FONTE: texto da Agência Lusa, de 03. de julho de 2024 no Jornal OBSERVADOR

sábado, 28 de agosto de 2021

A realidade sobre a imunidade de grupo, mesmo com mais de 70% da população portuguesa vacinada

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Penso que este artigo que encontrei na VISÃO DO DIA e que a seguir partilho, elucida muito sobre a realidade da situação que se vive em Portugal, com o Covid 19. 


Tínhamos muitas esperanças de regressar à antiga normalidade, mas, na verdade, é difícil atingir essa nova meta, depois do aparecimento da variante Delta.

Vamos ler porquê.




CHEGÁMOS AOS 70%. MAS IMUNIDADE DE GRUPO, NEM VÊ-LA


in VISÃO DO DIA, PONTO DE VISTA, 20 de agosto de 2021, por Mafalda Anjos, Diretora

São boas novas para Portugal. Quase um mês antes do antecipado, 70% da população está hoje vacinada contra a Covid-19. Em sequência disso, decorre esta manhã um Concelho de Ministros extraordinário, presidido pela agora Primeira-Ministra Mariana Vieira da Silva (em substituição de António Costa), e depois das 15h30 saberemos se será antecipado o levantamento das medidas restritivas, com a passagem para a segunda fase e em que moldes. Em causa estão os aumentos das lotações de restaurantes e cafés, espetáculos culturais e eventos e ainda serviços públicos sem marcação prévia. Já o uso de máscara na via pública, quando não seja possível cumprir o distanciamento recomendado de dois metros, terá de ser revisto pela Assembleia da República, mas vai manter-se obrigatório pelo menos até 12 de setembro. 
Como frisou a Ministra da Saúde ontem, será necessário ter em conta outros fatores além da meta de vacinação, como o índice de transmissibilidade, a incidência cumulativa a 14 dias e os internamentos hospitalares, informação que será conhecida no relatório de monitorização das linhas vermelhas da Direcção-Geral da Saúde e do Instituto Nacional Ricardo Jorge, divulgado hoje. 
Infelizmente, alcançado o número desejado dos 70%, nada muda de mais substancial nas nossas vidas. A velha normalidade é ainda uma miragem. Esta meta foi definida antes da predominância da variante Delta, com a qual a imunidade de grupo é bastante mais difícil – senão impossível – de alcançar. A imunização através das vacinas não impede totalmente o contágio nem a transmissão, protege sim contra a doença grave, a hospitalização e morte. Com a variante Alpha, as vacinas protegiam contra a infeção numa eficácia entre 80 e 90%, mas com a variante Delta, essa percentagem desce para os 60 a 65% com a vacinação completa, como explicou à VISÃO Manuel Carmo Gomes. Uma proteção que os não-vacinados não têm. (Vale a pena ler o fact check "A Covid-19 é transmitida com a mesma facilidade em pessoas vacinadas e em pessoas não vacinadas?") 
Um estudo de investigadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, divulgado ontem, que analisou um grande número de dados estatísticos, concluiu ainda que as pessoas vacinadas apresentam a mesma carga viral do que as pessoas não vacinadas, sendo necessário mais estudos para perceber se transmitem a doença com a mesma intensidade. 
Mesmo com 85% de pessoas vacinadas, uma meta que segundo o Vice-almirante Gouveia e Melo só deverá ser alcançada entre a terceira e a quarta semanas de Setembro, a imunidade de grupo não está garantida. 
Em discussão está agora a toma de uma terceira dose da vacina para assegurar mais imunidade. Para as próximas semanas espera-se nova informação da Agência Europeia de Medicamentos relativamente a este assunto. Com inúmeros países mais pobres e bastante atrasados na vacinação, certo é que é essencial uma visão global do problema e não apenas local (e egoísta). 
Só estaremos realmente protegidos contra a infeção por novas variantes quando toda a população mundial estiver protegida. Mas, até lá, há ainda um longo caminho a percorrer. O vírus vai continuar por aí nos próximos anos e vamos mesmo ter de aprender a viver com ele. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A virologista Li Meng-Yan



Li Meng-Yan, a virologista chinesa que diz ter fugido do país por recear pela vida, deu mais uma entrevista onde assegura que o novo coronavírus foi “criado num laboratório militar” controlado pelo regime comunista chinês. “O mercado de Wuhan foi apenas usado como um isco, uma distração“, garante a enigmática virologista.

Depois de, a 10 de julho, ter dado uma entrevista à Fox News que correu mundo (e de ter falado também com outros jornais, posteriormente), Li Meng-Yan deu uma nova entrevista citada pela Taiwan News onde diz que antes de fugir da China “tinha claramente determinado que o vírus tinha vindo de um laboratório militar do Partido Comunista Chinês“. 

Essa foi uma convicção que a virologista, atualmente escondida nos EUA, transmitiu aos seus superiores na escola de saúde pública da Universidade de Hong Kong – mas diz ter sido ignorada.Na entrevista à Fox News, Li Meng-Yan também tinha dito que o seu antigo supervisor, um homem chamado Leo Poon, avisou a investigadora para se “manter calada e ter cuidado“. “A razão por que vim para os Estados Unidos é porque tenho de contar a verdade sobre a Covid-19”, disse a investigadora à Fox. “Se tivesse contado a minha história na China, acabava desaparecida ou assassinada”, declarou.

Tanto o regime chinês como, também, a Organização Mundial de Saúde (OMS) têm desprezado as alegações da investigadora, com a OMS a garantir que não tem registo de que a virologista (ou, mesmo, o seu supervisor, Leo Poon, que alegadamente teria lá trabalhado como consultor) terem estado envolvidos em qualquer investigação relacionada com o novo coronavírus.

A virologista está no centro de uma intriga à escala internacional, ora aparecendo como uma denunciante que arriscou a vida e deixou a família para trás ora sendo acusada de estar a ser utilizada por figuras como Steve Bannon, ex-conselheiro de Trump, para tentar derrubar o regime chinês.

(in observador.pt a 04.08.2020 texto por Edgar Caetano)

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Aprovada regulamentação da app de rastreio à COVID 19 pelo Presidente da República



A aplicação "Stayaway Covid" foi concebida para rastrear contactos e ajudar a travar a pandemia do COVID19 em Portugal, esperando-se que seja lançada por estes primeiros dias do mês de agosto do ano de 2020. 

A 'Stayaway covid' é uma aplicação voluntária que, através da proximidade física entre 'smartphones', permite rastrear de forma rápida e anónima as redes de contágio por covid-19, informando os utilizadores que estiveram, nos últimos 14 dias, no mesmo espaço de alguém infetado com o novo coronavírus." (in jornaldenegocios.pt)

As últimas notícias a esse propósito, são:

O Presidente da República promulgou esta terça-feira o “diploma que estabelece o responsável pelo tratamento dos dados e regula a intervenção do médico no sistema STAYAWAY COVID”, lê-se no site da presidência. A aplicação tinha iniciado um teste piloto a 18 de julho para o qual convidou cerca de 13 mil pessoas, mas apenas pode participar quem tivesse um smartphone com sistema operativo Android. O teste devia ter terminado a 31 de julho, mas foi estendido até 7 de agosto.

Apesar de a Apple já ter aprovado a aplicação, ainda não deu aval para que a aplicação seja integrada na sua plataforma de testes TestFlight, impedindo assim quem tenha iPhone de aceder à a mesma. Questionado pelo Observador sobre o que poderia acontecer caso a aplicação fosse implementada antes de haver este “ok” da marca da maçã, Rui Oliveira, professor e administrador no INESC TEC, explicou que um dos cenários possíveis passariam por disponibilizar a app primeiro a quem tenha Android e depois a quem tenha iOS, “como aconteceu em França”.

Com o diploma promulgado pelo presidente da República, fica aberto o caminho para que o Governe anuncie que o INESC TEC pode disponibilizar a app a quem quiser usá-la. A app é de utilização voluntária e instalação gratuita.

Na segunda-feira, o secretário de Estado da Saúde, Lacerda Sales, tinha dito que as novidades sobre a aplicação que foi desenvolvida pelos investigadores do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) em colaboração com o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) e com Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), a Keyruptive e a Ubirider, estariam para “muito breve”.


O Governo aprovou a regulamentação para a app Stayaway a 16 de julho, em Conselho de Ministros, tendo pedido um parecer posterior à Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), que acusou a legislação de ser “excessivamente minimalista”, por remeter “todos os aspetos concretos ao tratamento de dados pessoais para uma definição posterior a ser feita pela DGS”.

(in observador.pt de 04.08.2020)

E do mesmo modo, o jornaldenegocios.pt de 04.08.2020 convida-nos a ler também sobre o mesmo tema, o seguinte:

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou hoje que a aplicação 'Stayaway covid' abre caminho que espera frutuoso para os portugueses, no mesmo dia em que promulgou o diploma.


"Não tive dúvida nenhuma, é uma lei que é muito importante, porque abre um caminho que esperamos que seja frutuoso para todos os portugueses", afirmou o chefe de Estado português.

Marcelo Rebelo de Sousa promulgou esta terça-feira o diploma que estabelece o responsável pelo tratamento dos dados e regula a intervenção do médico no sistema Stayaway covid', segundo informação disponível no sítio na internet da Presidência da República.

À margem de uma visita a Lagoa, no Algarve, o Presidente da República realçou que a lei "foi preparada durante muito tempo e com cuidados especiais para proteger uma série de direitos das pessoas" e poder corresponder "àquilo que autoridades independentes que respondem à Assembleia da República defendem" quanto à proteção desses direitos.

Aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa destacou ainda que "faz sentido" que "o que for criado" reporte à Direção-Geral da Saúde (DGS).

O Presidente considerou que "muitos portugueses ansiavam por esta lei e esta aplicação", mas, para ter a certeza que "não era inconstitucional nem levantava problema legais, foi feito um estudo" que não lhe trouxe "dúvidas nenhumas".

Quanto à adesão à aplicação, o chefe de Estado sublinhou que os portugueses "aderiram ao confinamento e perceberam como era importantes", realçando que "esta aplicação supõe uma adesão voluntária".

"Penso que as pessoas perceberão que, quer neste momento em que o surto parece ter uma evolução mais positiva, quer em momentos posteriores em que ninguém sabe o que vai acontecer, estamos munidos deste instrumento para conhecer a realidade. É bom para o Estado e para saúde pública, mas é bom para as pessoas", defendeu.

No dia 27 de julho, o Governo aprovou a versão final do diploma que estabelece a obrigatoriedade da aplicação de rastreio de contactos 'Stayaway covid' de respeitar a legislação e a regulamentação sobre proteção de dados e sobre cibersegurança.

A DGS é a autoridade gestora do sistema, sendo responsável pelo tratamento de dados para efeitos da legislação europeia e nacional aplicável à proteção de dados pessoais, e regula a intervenção do médico no sistema 'Stayaway covid'.

O Governo assegurou que a aplicação garante a privacidade dos cidadãos, sendo apenas registado um contacto próximo e de duração superior a 15 minutos com alguém que esteja infetado com o novo coronavírus, que provoca a doença covid-19.

A uma pessoa que tenha um teste positivo será dado um código por um profissional de saúde para introduzir no telemóvel.

Através do sistema de comunicação sem fios 'Bluetooth', os telemóveis que tenham a aplicação instalada reconhecem-se e enviam mensagens informando da proximidade de uma pessoa que tenha sido infetada, garantindo-se todo o anonimato, defendeu o executivo.

A 'Stayaway covid' é uma aplicação voluntária que, através da proximidade física entre 'smartphones', permite rastrear de forma rápida e anónima as redes de contágio por covid-19, informando os utilizadores que estiveram, nos últimos 14 dias, no mesmo espaço de alguém infetado com o novo coronavírus.

A aplicação foi desenvolvida pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

sexta-feira, 26 de junho de 2020

COVID-19: Costa e Marcelo foram contrariados por especialistas na tese do aumento de casos da COVID

in expresso.pt

Tanto António Costa como Marcelo Rebelo de Sousa têm deixado claro o seu desagrado perante o comportamento dos mais jovens, apontando-o como uma das justificações para o aumento do número de novos casos de COVID-19, especialmente na região de Lisboa e Vale do Tejo. Também têm sublinhado o papel que a testagem tem nos números totais, já que quanto mais se testar mais casos se irão encontrar.
Porém, os especialistas não partilham da mesma opinião. Segundo adianta o jornal Observador, as teses que o primeiro-ministro e o Presidente da República têm apresentado foram contrariadas na reunião que se realizou esta quarta-feira na sede do Infarmed, em Lisboa. Fontes partidárias ouvidas por esta publicação indicam que tanto Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Pública, como Rita Sá Machado, da Direcção Geral de Saúde (DGS), «desconstruíram o argumento dos testes».
Embora Portugal esteja a testar mais, ocupando o nono lugar do top de testes feitos por milhão de habitantes, esta não será a principal razão para o número crescente de novos casos confirmados de infecção. As mesmas fontes indicam que há outros factores a considerar, nomeadamente «o número de testes positivos por teste realizado». Nesse caso, «a taxa de positivos é muito elevada» e atrás de Portugal ficam apenas a Bulgária e a Suécia.
Quanto aos jovens, os líderes partidários ouvidos pelo Observador indicam que não existem sinais relativamente a um contágio mais elevado junto deste grupo etário. O caso da festa de Lagos, onde a maioria dos infectados é jovem, será a única excepção conhecida – somando já mais de 100 infectados.
No mesmo sentido, as festas e ajuntamentos não parecem ser o principal problema. Segundo os epidemologistas, o primeiro factor de contágio em Lisboa tem sido «a coabitação, em segundo lugar o contexto laboral e só em terceiro lugar o contexto social». Desconstruídos os argumentos, os especialistas alertam para uma possível segunda vaga, que pode ter como ponto de partida Lisboa.
FONTE: in executivedigest.sapo.pt

terça-feira, 5 de maio de 2020

Passear a tartaruga, também é preciso...

https://meiahora.ig.com.br

"Uma italiana de 60 anos foi multada em 400€, em Roma, por romper a quarentena imposta no pais, que é um dos mais afetados pelo corona vírus. O que mais irritou os agentes foi a justificação da mulher: ela disse à polícia que tinha saído para passear a tartaruga."

(encontrei in revista sábado nº 834 de 23 a 29 de abril 2020)

domingo, 26 de abril de 2020

Parece inevitável: não devemos conseguir evitar uma segunda ou terceira vaga de COVID-19

omunicipio.com.br

Pois é, que saga esta com este vírus!

Se começarmos a "facilitar", podemos ter a certeza de que um desconfinamento precipitado trará uma nova vaga de COVID-19.

Quando ouvimos os entendidos no assunto, estes não se cansam de dizer que não devemos ir todos para a rua; ao fazê-lo, torna-se muito fácil para o vírus atacar-nos. 

Também os ouvimos dizer que um regresso a alguma normalidade terá de ser de forma gradual e só será possível daqui a um ano, "com" ou "sem" vacina.

Escolhi um texto muito esclarecedor de toda esta situação de pandemia que estamos a atravessar e que parece não querer largar-nos tão cedo! Partilho-o aqui, dando a palavra aos entendidos e especialistas no assunto:


É inevitável: com a retoma da economia e o levantamento das medidas de confinamento, o país tem de se preparar para uma segunda ou terceira onda de Covid-19. O risco está em subestimar a ameaça.
Primeiro as más notícias: quando o outono chegar, o mais provável é ainda não haver uma vacina para a Covid-19 ou um fármaco totalmente eficaz. Por se tratar de um vírus que ataca o sistema respiratório, é provável que, tal como no caso da gripe, se verifiquem infeções sazonais. Algumas das pessoas infetadas terão de ser hospitalizadas e poderão precisar de cuidados intensivos. A maioria, no entanto, recuperará no domicílio. Uma pequena percentagem não sobreviverá à gravidade dos sintomas do novo coronavírus.

Agora, as boas notícias: nessa fase, “o vírus já terá entrado na nossa vida e vamos deixar de pensar nele, vai adaptar-se a nós e nós a ele”, assegura Miguel Castanho, investigador principal do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. É o que aprendemos com a história da gripe pneumónica, também conhecida como “gripe espanhola”, que há um século matou 100 milhões de pessoas. Em Portugal, estimam-se 136 mil mortes num país com seis milhões de habitantes. “A gripe não foi derrotada. Tomaram-se medidas para ir vivendo com a pandemia. E o vírus foi perdendo força”.

Se nesta altura é ainda absurdo desvalorizar o impacto da Covid-19, com a renovação do estado de emergência, em Portugal, até 2 de maio — e mais de três mil milhões de pessoas de todo o mundo em confinamento — após uma segunda ou terceira onda de infeções pelo SARS-CoV-2, segundo os investigadores, o vírus deixará de ser uma fatalidade. Isto, claro, se forem tomadas as medidas certas, como a reposição gradual da normalidade, a prática de distanciamento social ou o uso obrigatório da máscara. Mas, deixada sem controlo, uma segunda vaga será tão ou mais perigosa quanto a primeira. O que voltaria a colocar pressão nos hospitais e profissionais de saúde.

Para Adolfo García-Sastre, professor de Medicina e Microbiologia no Instituto de Saúde Global do Hospital Mount Sinai, em Nova Iorque, o regresso à normalidade pós-pandemia só acontecerá dentro de um ano, com ou sem vacina. E só depois de duas ou três ondas da doença. “Dentro de um ano poderemos começar a levar uma vida normal. Haverá infeções, mas será mais fácil controlá-las. Quando o número de casos começar a diminuir, é importante não cantar vitória e não sairmos logo todos para a rua, porque é fácil que o vírus volte a atacar. Teremos de voltar à vida normal aos poucos e estar preparados para isolar novamente as pessoas se for necessário”, afirmou em entrevista ao jornal El País.

Um cenário que o investigador português Miguel Castanho também antecipa. E serve-se dos terramotos para explicar como é que daqui para a frente se vive com o novo coronavírus — ambos são ameaças reais mas sem data definida. “Não sabemos em que dia é que os sismos ocorrem. Mas sabemos que são inevitáveis. É por isso que elaboramos planos de emergência antes de a terra tremer. Para estarmos preparados. Temos de começar a fazer o mesmo para as pandemias”.

O problema não é de hoje, já vem de trás. Se, por um lado, os antibióticos e vacinas revolucionaram a medicina, também é verdade que a banalização destes fármacos se tornou um problema de saúde pública. “As bactérias e os vírus foram menosprezados ao longo dos anos”, acrescenta o investigador do Instituto de Medicina Molecular. Com alguma “arrogância”, a sociedade confiou na ciência para estancar todas as doenças infectocontagiosas na sua fase inicial. Foi assim com a pandemia de gripe H1N1, em 2009. E com a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que provocou pneumonias atípicas entre 2002 e 2003. E com a MERS (Síndrome Respiratória do Médio Oriente) que atingiu o mundo em 2012.

O mau exemplo de Singapura serve de aviso

A primeira vaga de Covid-19 apanhou o mundo inteiro desprevenido. Os investigadores alertam agora os países para começarem já hoje a estudar a melhor forma de minimizar a segunda e mesmo uma terceira onda. Isto numa altura em que há maior pressão para reabrir a atividade económica, em Portugal e no mundo inteiro.

Há sinais cada vez mais evidentes de que a sociedade não suporta uma espera tão prolongada. No entanto, o desconfinamento precipitado pode abrir a porta a uma segunda vaga de contágios e a um novo lockdown, com consequências catastróficas. Veja-se o caso de Singapura: em apenas quatro semanas, um dos países com melhores resultados na contenção do novo coronavírus, tornou-se agora no território com o maior número de casos de Covid-19 no sudeste asiático. Para travar esta segunda vaga de infeções, o país prolongou a quarentena até junho (quando estava prevista até 4 de Maio).

A resposta de Singapura à pandemia chegou a ser elogiada pelo diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Ghebreyesus. As fronteiras foram encerradas logo no início. Os testes eram gratuitos para os residentes, o que permitiu o rastreamento de todos os que contactavam com os contaminados. As escolas mantiveram as portas abertas e a economia nunca fechou. Agora, só nos últimos três dias foram identificados três mil novos casos de Covid-19, elevando o total de infetados para mais de oito mil. Há um mês, o país contava com cerca de 300 infetados. O número de vítimas mortais mantém-se baixo, apenas 11 mortes. Dados modestos, se os compararmos com alguns países europeus ou com os Estados Unidos. Mas uma fonte de preocupação para um território com 5,7 milhões de habitantes.

O que correu mal em Singapura? Houve quem antecipasse a impossibilidade de equilibrar a economia com a saúde. Mas a resposta estava na retirada abrupta das medidas restritivas (phase-out do lockdown). Como revelam os dados: 70% dos infetados que deram origem à segunda onda de Covid-19 são imigrantes. Estima-se que o grupo seja composto por 320 mil pessoas, quase todas da Índia e Bangladesh, trabalhadores da construção. A maioria vive em grandes dormitórios, nos arredores da cidade, onde mais de 20 imigrantes partilham um quarto de 10m2. Não há espaço para o distanciamento social.

Encorajada por essas condições, a Covid-19 “espalhou-se como fogo em palha seca”, relatou à BBC Yik Ying Teo, conceituado professor de Saúde Pública. Devido ao seu tamanho, ao autoritarismo do governo e a um bom sistema de saúde, os investigadores acreditam que o país tem a capacidade para controlar a epidemia. Mas serve de exemplo aos que querem “reanimar a economia sem deixar descontrolar a pandemia”, como afirmou o primeiro-ministro António Costa durante o debate quinzenal, no Parlamento. A linha é ténue. Basta um passo em falso para deitar tudo a perder.

Se, por um lado, de acordo com os vários especialistas que o Observador contactou, é preciso libertar a atividade económica do “Grande Confinamento” (nome já atribuído a esta crise), e restabelecer uma “nova normalidade”, também é verdade que no dia em que o país começar a descomprimir, o número de infetados vai aumentar. Isso é ponto assente.

É o que confirma a especialista em Epidemiologia e Estatística, Carla Nunes. “Os números vão subir. E há um risco real de não se conseguir controlar o aumento de casos. A nossa salvaguarda é dar o apoio necessário às situações mais graves, às populações vulneráveis, que poderão necessitar de cuidados intensivos. Isso é o que vai fazer a diferença”, explica a diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, que concorda com o levantamento do lockdown não só por uma questão económica mas também de saúde mental e de outras situações clínicas que estão “pendentes” devido à Covid-19.

No entanto, alerta para a forma como a sociedade tem de olhar para os números da pandemia – à medida que regressa à normalidade. “O problema desta doença é que não conseguimos ver logo o real impacto das medidas de desconfinamento na curva epidemiológica. Temos um delay de 15 a 20 dias”. Isto significa que mesmo que a reabertura da economia seja feita gradualmente, com as medidas a serem levantadas a cada duas semanas, como foi anunciado pelo primeiro-ministro, não vai ser possível fazer uma avaliação do que está a correr mal no momento. Terá de se esperar, entre 15 a 20 dias, para se perceber se as medidas adotadas para conter o surto estão a resultar. “Isto é como abrir agora a torneira e só perceber que temos uma inundação em casa daqui a duas semanas”, salienta Carla Nunes. Por isso defende que sejam aplicados sistemas de vigilâncias (com recurso a testes rápidos) aos grupos de risco, como sejam os idosos ou as crianças, já que as creches serão um dos primeiros setores a abrir portas.

Para Ana Aboim Horta, médica infecciologista do Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar do Porto, é preciso continuar a sensibilizar a população para o facto da luta contra a Covid-19 “não estar terminada”. “É provável que a inversão gradual das medidas de confinamento conduza a um aumento de novos casos. Mas poderá ser uma transmissão residual. Para isso, temos de nos comportar como se todos tivéssemos Covid-19. Essa seria a melhor forma de travar uma segunda vaga”, assume a médica. Por isso, o que mais a preocupa são as concentrações de pessoas em bares, discotecas ou jogos de futebol. E nem uma data avança para esse cenário. “É verdade que a economia não pode ficar parada, mas tão cedo não vamos ver tantas pessoas juntas”.
Portugal sobrevive a um segundo lockdown?

Este é o tema do momento. E pôs médicos e cientistas a falar de economia e economistas e empresários a comentar a curva epidemiológica. “Não são realidades inconciliáveis”, confirma Manuel Rodrigues, ex-secretário de Estado das Finanças e docente na área das Finanças no King’s College de Londres. Ele é um dos 170 subscritores de uma carta enviada ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a 13 de Abril, com 12 sugestões de medidas a tomar pelas autoridades para travar uma segunda vaga de infeções e evitar colocar os portugueses em períodos de lockdown intermitente. Um modelo seguido por Hong Kong mas que “apresenta grandes riscos para a sustentabilidade do modelo económico e financeiro do país”, assim como para as empresas e famílias, defende Manuel Rodrigues.

Em alternativa, Manuel Rodrigues aponta um modelo adotado pelo Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Países que mostram ser possível, “com medidas de contenção rigorosas e inteligentes”, manter a economia em funcionamento sem confinamento e, ao mesmo tempo, conter a propagação do vírus para um número reduzido de novos casos por dia. E salienta, em primeiro lugar, o uso obrigatório de máscaras fora de casa. E, em segundo, a capacidade de notificar as pessoas que estejam em risco por terem estado em contacto com um caso positivo. Como? Seria o delegado de saúde a solicitar às operadoras de comunicação móveis a “notificação das pessoas em risco, de acordo com os critérios de triagem e sigilo”.

Também o secretário-geral da UGT, Carlos Silva, outro dos subscritores da carta, admite mudanças no mercado de trabalho para acomodar as medidas de contenção rigorosas. E dá como exemplo a AutoEuropa. A fábrica laborava com cinco mil trabalhadores, distribuídos por três turnos rotativos. A produção só parou com a pandemia. “Nesta nova normalidade, se calhar não vão estar mais de mil colaboradores nas instalações. E vão estar todos equipados com luvas, máscaras e a cumprir o distanciamento social.”

Susana Peralta, professora de Economia na Nova SBE, reconhece que, com a população ativa fechada em casa, a economia não arranca. Mas alerta para a possibilidade de o desconfinamento, por si só, não atenuar a recessão. Haverá sectores que vão continuar com negócios, no mínimo, muito reduzidos, como é o caso do turismo ou da restauração. “O vírus gerou medo entre as pessoas e elas deixaram de sair de casa. Agora, vão ter de aprender a conviver com uma infeção. E o que lhes pode dar segurança, por exemplo, é saber que os hospitais estão preparados para o caso de o número de infetados voltar a subir”.

Os números também lhe dão tranquilidade. Como não conhece os dados a que o primeiro-ministro se agarra para abrir a economia, admite que essa “opacidade na divulgação da informação” lhe transmite incerteza. “E a incerteza é a pior inimiga da economia”, acrescenta. E pede mais explicações: “Não podemos correr o risco de desconfinar de forma pouco informada. As autoridades têm de nos dizer o que está planeado caso o levantamento das medidas de contenção suscite a multiplicação de novos casos. Voltamos todos para casa?”, pergunta a professora de economia, que antecipa ainda um período de dois a três anos até se poder falar de retoma económica.

Um segundo lockdown pode ter consequências imprevisíveis, dizem os economistas. O mesmo reconheceu Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa — e um dos académicos que colabora com a Direção-Geral da Saúde e participa nas sessões à porta fechada no Infarmed — em entrevista à Rádio Renascença. “Receio que haja alguma dificuldade na aceitação desse tipo de confinamento seguido de desconfinamento por parte da população. Preferia apostar no que a União Europeia tem sugerido em linhas gerais: ter um bom sistema de vigilância que permita detetar com rapidez os novos casos, isolá-los e fazer contact tracing (rastreio de contactos). Esse trabalho de formiguinha tem sido feito de forma extraordinária pelos nossos delegados de saúde”.

O facto de o vírus já estar a circular muito pouco na comunidade, segundo explicou Manuel Carmo Gomes, é a chave para o país desconfinar. “Quando houver os ressurgimentos, que espero que sejam localizados, o crescimento da doença não será tão rápido como o que observámos em março. É muito perigoso começar de um nível muito alto porque, se duplicar em 3 ou 4 dias, perdemos rapidamente o controlo da situação. Se começarmos num nível baixo, a duplicação ainda nos permite reagir. Mas temos de nos manter vigilantes”. É, portanto, um desconfinamento com “passinhos de bebé”. E que será apoiado na informação que os testes serológicos (que serão alargados a todo o país) vierem a revelar sobre as regiões onde há mais pessoas imunizadas e a que faixa etária pertencem.

A diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Carla Nunes, confirma que a baixa imunidade da população portuguesa é um fator de risco acrescido no desconfinamento. Mas ressalva que foi uma “estratégia planeada” que permitiu conter o vírus e salvaguardar o sistema nacional de saúde. É por isso que é tão importante abrir a economia por setores. “Aos poucos, para ir vigiando a curva epidemiológica”.

Também o professor de Medicina Manuel Castanho vê no regresso cauteloso a melhor forma de atenuar os efeitos de uma segunda vaga de Covid-19. E aponta três razões para uma onda mais ligeira.Em primeiro lugar, e estando o vírus a circular livremente, em especial entre os assintomáticos, “as pessoas vão adquirindo imunidade de grupo”. Em segundo, o próprio vírus sofrerá alterações que lhe vão retirar alguma vantagem. Por último, e não menos importante, “o grau de preparação da sociedade para uma nova onda também será maior”. E isso significa isolar aqueles que revelam sinais da doença e os seus contactos, proteger as pessoas mais velhas e assegurar a capacidade dos hospitais para lidar com mais casos. “Não podemos é improvisar”, alerta.

Daqui a um ano, confirma Adolfo García-Sastre, mesmo que ainda não haja vacina, calcula-se que “40% a 50% da população mundial terá sido infetada”, o que dará tempo para o vírus refrear a sua propagação. “Tudo depende do número de infetados em cada onda. Quanto mais gente for contagiada na primeira, menos haverá na segunda e vice-versa”, explicou. Impossível é erradicar o vírus. “Teria de haver uma vacina eficaz e uma vacinação em massa. E isso é muito difícil de implementar”.

Todos os investigadores rejeitam agora o uso generalizado de hidroxicloroquina – usada contra a malária, a artrite reumatóide e outras doenças auto-imunes – em doentes com Covid-19. Mas admitem ser mais viável, num curto espaço de tempo, encontrar um fármaco (ou uma combinação de vários). Mesmo com um afrouxamento da regulamentação, que poderá permitir que uma vacina seja testada com sucesso e comercializada em cerca de um ano, a médio prazo a esperança está nos tratamentos com antivirais, que poderão ser decisivos para aumentar a taxa de recuperação e as hipóteses de sobrevivência dos doentes com Covid-19.

Foi esse o sentido da entrevista à BBC de David Nabarro, professor de Saúde Global no Imperial College, no Reino Unido, e membro da Organização Mundial de Saúde: “Nem sempre se desenvolve uma vacina que seja segura e eficaz contra cada vírus. Alguns vírus são muito difíceis. Para o futuro próximo, teremos de nos adaptar e encontrar maneiras de seguir com as nossas vidas com este vírus como uma ameaça constante”.
Reino Unido quer medidas de confinamento até ao final do ano

É o que já estão a fazer vários países europeus: seguir em frente. A Áustria, a Dinamarca, a Noruega e a República Checa foram os primeiros a avançar com o regresso à normalidade, depois de olharem com otimismo para a curva dos casos de contaminação por Covid-19.

O Reino Unido, um dos países mais afetados na Europa pela pandemia de Covid-19 e está relutante em levantar as medidas de confinamento. Chris Whitty, responsável pela Direção-Geral da Saúde, alertou esta quinta-feira para o facto do país ter de conviver com as medidas de confinamento pelo menos até ao final do ano. Para Whitty, a saída ideal seria com “uma vacina altamente eficaz”, ou medicamentos para tratar a Covid-19. No entanto, salientou que o caminho a percorrer entre a existência de uma vacina e a imunidade generalizada “vai ser muito longo”.

Já a Alemanha deu, esta semana, os primeiros passos no relaxamento das medidas de contenção. Reabriu espaços comerciais, numa tentativa de regresso à normalidade, depois de as medidas de restrição terem sido impostas em todo o país a 23 de março. As máscaras vão passar a ser obrigatórias nos transportes públicos e supermercados.

Espanha prolongou o Estado de Emergência até 9 de maio, mas, apesar de o número de casos e óbitos diários continuarem a crescer, o país quer levantar algumas medidas de confinamento. Para que esse alívio ocorra da melhor forma, Pedro Sánchez assumiu guiar-se pelos seis indicadores da Organização Mundial de Saúde, segundo os quais será necessário verificar a capacidade do sistema de saúde, identificar e controlar todos os infetados e manter as regras de distanciamento social e higiene. Um modelo que, como avisou Tedros Ghebreyesus, evita que “a fase de descida seja tão perigosa como a subida”.

Já os franceses vão continuar confinados por mais algum tempo. A partir de 11 de maio, o Presidente Emmanuel Macron prevê o fim “progressivo” do confinamento, com escolas a reabrirem, bem como algumas empresas. A abertura de bares, restaurantes, hotéis, cinemas e museus só deverá acontecer em meados de julho.

Em Itália, as autoridades já pensam num levantamento “gradual e controlado” das restrições. Chamam-lhe a Fase II — “coexistência com o vírus” — e poderá ser aplicada a partir 16 de maio. Isto se, até lá, não se registarem alterações na situação. Entretanto, já abriu algum comércio local enquanto as restantes atividades aguardam encerradas, pelo menos, até 4 de maio. Quem estiver a trabalhar nestes estabelecimentos é obrigado a usar máscara.

(texto de maria barbosa in observador.pt 25.04.2020)

domingo, 19 de abril de 2020

A Organização Mundial de Saúde e a China

Aqui fica um artigo para reflexão, no  meio da "grande confusão" em que todo o mundo se encontra, trazida pelo COVID19.

imagem in https://economia.uol.com.br/noticias
Tedros Adhanom Ghebreyesus  


A China manda mesmo na Organização Mundial de Saúde?

Trump suspendeu o financiamento dos EUA à OMS, que acusa de "papaguear" o regime de Xi Jinping. Dirigida por um homem escolhido pela China, as falhas da OMS são muitas — mas não escondem as de Trump.

Por esta altura, um olhar treinado já fará crer que algo muito importante está para ser anunciado assim que Donald Trump se abeira do pódio do Rose Garden. É ali, naquele jardim do lado de fora da sala oval da Casa Branca, que o Presidente dos EUA tem encontrado a sua zona de conforto para fazer alguns dos anúncios mais importantes desde que a Covid-19 entrou pelo país, tornando-o naquele que tem mais casos e também mortes nesta pandemia.

Foi ali, com a sala oval pelas costas e em cima de um relvado cuidado, que Donald Trump anunciou medidas como a declaração do estado de emergência a 13 de março ou o Defense Production Act, a lei que permite ao Presidente controlar parte da indústria para garantir a produção de bens urgentes, como é agora o caso dos ventiladores ou das máscaras.Esta terça-feira, 14 de abril, não foi exceção. Desta vez, Donald Trump foi ao Rose Garden para largar a bomba com que já vinha a acenar nos últimos tempos: suspender o financiamento norte-americano para a Organização Mundial da Saúde (OMS), sob acusações daquele organismo da Organização das Nações Unidas (ONU) estar a ser instrumentalizada pela China.

China-centric.
Foi essa a expressão que Donald Trump utilizou em inglês para, no fundo, defender que a OMS tem agido em prol da China nesta crise pandémica e sem ter em vista o interesse do resto do mundo.
“Toda a gente sabe o que se passa lá”, atirou Donald Trump.
E, de seguida, passou a enumerar aquilo que tem referido como exemplos de uma má gestão da pandemia da Covid-19 pela OMS. Falou, por exemplo, da “oposição desastrosa” da OMS ao encerramento do tráfego aéreo, expressado precisamente depois de os EUA terem parado os voos da e para a China — acrescentando que “muitos países disseram ‘ah, vamos ouvir o que diz a OMS’ e agora têm problemas como nunca antes”. Referiu, também, que a OMS “fracassou em obter informação de forma adequada, para depois analisá-la e partilhá-la de forma atempada e transparente”. E acusou ainda a OMS de “papaguear e apoiar publicamente” em janeiro que, tal como as autoridades chinesas diziam, o contágio do novo coronavírus não era feito através do contacto entre humanos.
“Eu disse ao Presidente Xi, eu disse: ‘A OMS está centrada na China’. Ou seja, seja lá no que for, a China tem razão. Não pode ser assim. Não pode ser. Não está certo.”

Ao perder o maior contribuidor, OMS admite revisão de erros na “devida altura”

A decisão pesa de forma inegável na OMS, que tinha até agora nos EUA o seu maior financiador. A OMS foi fundada em 1948 e desde então tem funcionado com o financiamento praticamente exclusivo dos países reconhecidos pela ONU, aos quais se têm juntado mais recentemente fundações privadas. Porém, é aos países que cabe a maior parte do financiamento — e os EUA têm sido, por norma, o maior contribuidor.
Há duas maneiras de os países contribuírem para a OMS. A primeira é através de uma sistema obrigatório de quotas, que são calculadas consoante a riqueza e a população de cada país. A segunda surge através do financiamento voluntário de programas — cujos focos e objetivos são acordados entre o país que faz o donativo e a OMS. Em 2019, a OMS estimava as contribuições dos EUA em 240 milhões de dólares (quase 220 milhões de euros) como pagamento da tal “quota” obrigatória e ainda 656 milhões de dólares (600,5 milhões de euros) em financiamento voluntário. Ou seja, um total que quase chega aos 900 milhões de euros e que representa praticamente 15% do orçamento da OMSEsta quarta-feira, na sua conferência de imprensa diária, o diretor-geral da OMS, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesu, destacou que os EUA “têm sido um generoso amigo de longa data”. “E esperamos que assim continuem a sê-lo”, acrescentou, dizendo ainda que lamentava a decisão de Donald Trump.
A esta reação juntaram-se outras de vários países e organizações internacionais, que criticaram a medida de Donald Trump. O alto representante para a Política Exterior da UE, Josep Borrell, disse que “não há nenhuma razão que justifique esta decisão” e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha referiu que “atirar culpas não nos vai ajudar”. No Reino Unido, um porta-voz do primeiro-ministro, Boris Johnson, reiterou: “Não temos nenhum plano de cortar a nossa contribuição”. E a partir de Pequim, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Zhao Jijan expressou as “sérias preocupações” da China sobre aquela medida.
A partir da ONU, a reação foi mais diplomática. Embora tenha dito que “agora não é o momento”, o secretário-geral, António Guterres, reconheceu ainda que “assim que passemos a página desta pandemia, haverá tempo de olhar para trás” e, entre outras coisas, entender “como reagiram todas as pessoas implicadas”.
Esse tom, de abertura de algum espaço para autocrítica no futuro, foi adotado pelo próprio Tedros Adhanom Ghebreyesu: “Na devida altura, a prestação da Organização Mundial de Saúde no combate a esta pandemia será avaliado pelos seus Estados-membros”. E admitiu: “Sem dúvida que vão ser identificadas áreas onde há que melhorar e haverá lições para todos aprendermos. Mas, por agora, o meu foco é parar este vírus e salvar vidas”.Porém, para Donald Trump e muitas vozes nos EUA, a “devida altura” para analisar esta prestação já chegou. À hora a que Tedros Adhanom Ghebreyesu falava a partir de Genebra, na Suíça, o número de diagnosticados com Covid-19 em todo o mundo já passava dos 2 milhões e as mortes já rondavam os 130 mil em todo o mundo. Em termos absolutos, nenhum outro país tem números tão altos como os EUA: mais de 620 mil casos e mais de 28 mil mortes — um número que está constantemente a ser atualizado.
E, a par com esses números, tem subido o coro de críticas contra a atuação da OMS junto do país onde a pandemia teve origem: a China.
“A China cometeu pecados imperdoáveis de ação, mentindo sobre o surto, punindo os médicos e afastando os jornalistas que disseram a verdade; e ao mesmo tempo a OMS cometeu pecados de inação, perante a sua falta de independência e coragem num momento de enorme importância”, resumiu o editor da National Review, Rich Lowry, num texto para o Politico.
A lista de ocasiões em que, durante esta crise, a OMS está a ser acusada de alinhar com a China é extensa e remonta à fase inicial desta pandemia, que as autoridades chinesas identificaram entre novembro e dezembro mas que só em janeiro assumiram.

É no primeiro mês de 2020 que começam a surgir os primeiros sinais de uma alegada conivência entre a OMS e a China. “Especialmente ao início, era chocante quando ouvia vezes sem conta o diretor-geral da OMS a dizer aos media frases que eram praticamente citações diretas dos comunicados do governo da China”, disse à revista The Atlantic o cientista Xiao Qiang, da Universidade de Berkeley, na Califórnia.
A 14 de janeiro, a OMS publicou um tweet onde dizia que “investigações preliminares produzidas pelas autoridades chinesas” não tinha determinado nenhumas “provas claras de que haja transmissão entre humanos do novo coronavírus”. Esta conclusão, soube-se pouco tempo depois, é totalmente errada. Porém, como assinalou a The Atlantic, ela foi divulgada nas redes sociais da OMS com um grau de certeza que nem as próprias autoridades chinesas assumiram.A 15 de janeiro, o boletim da Comissão de Saúde de Wuhan dizia que não tinham sido encontradas provas de transmissão entre humanos. Porém, referindo que o risco de transmissão era “baixo”, fazia já à altura uma salvaguarda: “A possibilidade de transmissão limitada entre humanos não pode ser excluída”.
Cinco dias mais tarde, a 20 de janeiro, a China confirmou pela primeira vez aquilo de que já se suspeitava e que alguns médicos de Wuhan foram punidos por terem alertado: afinal, o novo coronavírus podia ser transmitido entre seres humanos. A 23 de janeiro, as autoridades chinesas decretaram o início do confinamento na totalidade da região de Hubei (onde Wuhan é a maior cidade) e também na maioria do país — levando a cabo um confinamento que deixou entre portas cerca de 930 milhões de pessoas.Em menos de um mês, a narrativa chinesa implodira: afinal, o vírus era altamente transmissível e obrigava por isso mesmo a uma transformação completa do país, que ficou praticamente todo em quarentena. A capacidade de ir do dito ao feito foi amplamente elogiada pelo diretor-geral da OMS. Depois de um encontro com Xi Jinping a 28 de janeiro, em Pequim, elogiou a ação das autoridades daquele país.
“Se não tivesse sido o esforço do governo chinês, e o progresso que eles fizeram para proteger o seu próprio povo e os povos de todo o mundo, teríamos nesta altura muitos mais casos fora da China”, disse. Por essa altura, a China tinha praticamente 10 mil casos confirmados. Fora da China, os números eram estes: 7 nos EUA, 5 na Alemanha, 2 em Itália e nenhum em Espanha ou no Reino Unido. Ou seja, verdadeiramente baixos — mas não por muito tempo, como se sabe.A 31 de janeiro, já a maior parte da população da China estava dentro de portas, Donald Trump decidiu unilateralmente impedir a chegada de voos da China em solo norte-americano. A decisão foi apoiada pelo diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla inglesa), Anthony Fauci. De acordo com o homem que tem partilhado o pódio das conferências de imprensa com Donald Trump durante esta crise, essa decisão tornou-se necessária porque havia “muitos fatores desconhecidos” em torno do novo coronavírus.
Essa decisão, porém, viria a ser criticada pelo diretor-geral da OMS. “Apelamos a todos os países para que implementem decisões que sejam baseadas na ciência e que sejam consistentes”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus. Estes pedidos não foram, porém, reiterados quando em março a própria China passou a impedir que aterrassem no seu país voos de lugares como Itália ou Irão quando ambos já tinham o vírus dentro das suas fronteiras.
À altura, no início de fevereiro ainda havia algum espaço para humor. A meio da sua intervenção, o diretor-geral da OMS sentiu uma irritação na garganta e por fim tossiu. Logo a seguir, bebeu um pouco de água e gracejou: “Não se preocupem, não é corona”. A sala irrompeu em gargalhadas.

China e Tedros: homem escolhido, frutos colhidos

Tedros Adhanom Ghebreyesus, 55 anos, nasceu na Etiópia. Microbiologista de formação, destacou-se no estudo da malária no seu próprio país, até que foi nomeado para ser ministro da Saúde. Ocupou esse cargo entre 2005 e 2012, ano em que transitou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ali ficou até 2016, ano em que decidiu juntar as duas vocações — as políticas de saúde e a diplomacia — e candidatar-se ao cargo de diretor-geral da OMS.
Conseguiu, tornando-se no primeiro africano e não-médico a dirigir aquela organização. A 23 maio de 2017, ao derrotar um candidato britânico e outra adversária do Paquistão, foi eleito com o apoio de 133 dos 185 países elegíveis para votar naquela eleição. O voto para determinar aquele mandato de cinco anos foi, como de costume, secreto. Porém, não foi segredo para ninguém que o homem que se apresentou a votos apenas com o seu primeiro nome, Tedros, contava com um apoio muito importante: a China.

Não era um apoio de somenos, como se veio a confirmar mais tarde. Desde 2014 até 2020, a China aumentou as suas contribuições para a OMS em 52%, rondando agora os 86 milhões de dólares (perto de 79 milhões de euros). Embora seja um número 10 vezes menor do que aquele que os EUA previam para este ano, este, ao contrário do que compete a Washington, tem muito por onde crescer: além da quota obrigatória, indexada à riqueza do país, a China também tem aumentado as suas contribuições voluntárias. Esta é uma aposta concertada da China, que neste momento conta já com uma alta influência entre 4 das 15 agências das Nações Unidas à medida que os EUA de Donald Trump aposta no isolacionismo.
Uma dessas agências é a OMS, onde os frutos têm sido quase imediatos. A 24 de maio de 2017, um dia depois de Tedros Adhanom Ghebreyesus ter sido eleito, já o jornal China Daily (órgão de comunicação social anglófono que pertence ao Estado chinês) destacava o encontro entre o etíope e a então ministra da Saúde da China, Li Bin. Sem oferecer qualquer citação, o artigo garantia então que o recém-eleito diretor-geral da OMS “reiterou a adesão da organização ao princípio de Uma China”, em alusão ao princípio de que  Taiwan é, de acordo com a pretensão de Pequim, parte da China.

Esta postura viria a ter repercussões já em 2020, durante a crise do novo coronavírus, com o governo de Taiwan a queixar-se de ter sido esquecido pela OMS. Numa entrevista à televisão RTHK, o representante da OMS na China, Bruce Aylward, foi confrontado com uma pergunta sobre a possibilidade de a organização aceitar a candidatura de Taiwan enquanto país-membro. Primeiro, Bruce Aylward permaneceu 10 segundos em silêncio. Depois, disse: “Não consegui ouvir a pergunta”. Perante a insistência da jornalista, respondeu: “Não, não é preciso, vamos avançar para outra”. E após nova insistência, a chamada caiu. Retomada a ligação, nova pergunta sobre Taiwan, a resposta de Bruce Aylward foi sintomática da posição da OMS: “Já falámos sobre a China”. E colocou fim à entrevista logo a seguir.Mas nem todas as polémicas em torno de Tedros Adhanom Ghebreyesus dizem respeito à China. Também na reta inicial do seu caminho na OMS, fez duas nomeações no seio daquela organização que levantaram várias preocupações à altura.
Uma foi a nomeação de Teresa Kasaeva, uma funcionária do Ministério da Saúde da Rússia, para liderar a divisão de combate à tuberculose na OMS — uma decisão que foi tomada um mês depois de uma reunião entre Tedros Adhanom Ghebreyesus e Vladimir Putin e que seguiu para a frente apesar das más prestações da Rússia no que toca àquela doença.

A outra, que foi recebida com ainda maior revolta — tanta que, no final de contas, acabou por ser retirada —, surgiu quando propôs o ditador do Zimbabué Robert Mugabe para embaixador da boa vontade da OMS. Não terá sido alheia a esta decisão o facto de Robert Mugabe liderar a União Africana quando aquele bloco de 55 países decidiu apoiar a candidatura de Tedros Adhanom Ghebreyesus à liderança da OMS.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, que ao entrar para o cargo se destacou pelo seu estilo descontraído, deixando de lado a rigidez de alguns dos seus antecessores, não será um político sem mácula no que toca ao seu percurso na Etiópia.
Durante a campanha para diretor-geral da OMS, foi acusado de ter escondido três surtos de cólera na Etiópia: em 2006, 2009 e 2011. À altura um regime ditatorial com centenas de presos políticos, a Etiópia era já o país em toda a África que recebia mais empréstimos da China per capita. À altura, Tedros Adhanom Ghebreyesus defendia que o seu país era uma “democracia nascente” e negou as acusações de ter escondido quaisquer surtos de cólera — e acusou a equipa de campanha do seu adversário britânico, da qual partiram aquelas acusações, de ter “a típica mentalidade colonial virada para ganhar a qualquer custo e a desacreditar o candidato do país em desenvolvimento”.

“A OMS não tem um exército, por isso não pode obrigar ninguém a  a nada”

Numa altura em que Donald Trump deixa a OMS desamparada, e quando as críticas em torno do alegado favorecimento de Tedros Adhanom Ghebreyesus à China se avolumam, há ainda assim vozes que referem que aquele organismo está de pés e mãos atadas.
“A OMS não tem um exército, por isso não pode obrigar ninguém a  nada”, diz ao Observador Charles Clift, consultor de saúde pública associado ao think-tank Chatham House e que trabalha esporadicamente para a OMS. “Eu podia até recomendar muitas coisas à OMS, mas a verdade é que não estamos a falar de um país, estamos a falar de um organismo que tem de contar com a cooperação dos países. E, se um país é relutante, a OMS faz o quê? Tem de usar diplomacia, não tem outra hipótese.”
Para Charles Clift, esta tem sido a abordagem da OMS perante a China — e que, defende este especialista em contraciclo com as críticas que têm surgido nos últimos meses, tem dado frutos também durante esta pandemia.“A OMS tirou benefícios de tudo isto, claro”, garante. “Pode ter havido um  tom lisonjeio talvez pouco adequado, mas isso permitiu à OMS aceder a Wuhan, perceber como é que eles implementaram o confinamento, como fizeram os testes e o rastreio de contactos de infetados. Tudo isto foram benefícios. Tanto que o resto do mundo está a implementar essas mesmas medidas.”
Charles Clift reconhece, ainda assim, que a postura da China não tem sido 100% transparente durante este processo. Porém, sublinha, a OMS pouco pode fazer quanto a isso. “O que a China escondeu, está escondido. Nunca saberemos”, sublinha. “É com o resto que temos de trabalhar.”
É precisamente para esse “resto” que apontam os especialistas em saúde global Matthew M. Kavanagh e Lawren Gostin num ensaio publicado pelo Washington Post.
Em primeiro lugar, reconhecem que “é justo debater se a China conseguiu um bom equilíbrio nas comunicações iniciais sobre a Covid-19 na China”. Ainda assim, sublinham que foi graças à proximidade forjada entre a OMS e Pequim que foi possível cientistas de todo o mundo, inclusive dos EUA, terem acesso a dados científicos do novo coronavírus. “Os cientistas dos EUA só conseguiram dados epidemiológicos nos primeiros tempos [da Covid-19] fornecidos pela China porque a OMS conseguiu esse acesso”, escrevem aqueles dois especialistas.
No mesmo texto, os autores remeteram ainda para um tweet de Donald Trump a 24 de janeiro, quando bastavam os dedos de uma mão para contar o número de casos em todos os EUA. Ali, Donald Trump ainda não adotara o tom crítico de hoje, agradecendo pessoalmente a Xi Jinping e enaltecendo a “transparência” do seu país.“A China tem trabalhado muito arduamente para conter o coronavírus. Os EUA apreciam enormemente os seus esforços e transparência. Vai ficar tudo bem. Em especial, e em nome do povo americano, quero agradecer ao Presidente Xi!”, escreveu Donald Trump.

Os problemas no “quintal” de Trump

Em paralelo que muitos apontam as instância em que a OMS pode ter sido conivente com o regime chinês durante todo este processo, há também vários fatores que apontam para uma resposta insuficiente e tardia de Donald Trump a esta crise.
Donald Trump refere com frequência a proibição de aterragem de voos chegados da China nos EUA a 31 de janeiro como prova de que a sua administração agiu de forma atempada à pandemia. Porém, há outros indicadores que demonstram que Donald Trump adiou a tomada de medidas que poderiam ter prevenido o crescimento da Covid-19 nos EUA.
Segundo a Bloomberg, Donald Trump foi avisado pelos serviços de informação norte-americanos, incluindo pela CIA, que os números de casos e mortos pela Covid-19 reportados pela China não eram fidedignos — e o The New York Times acrescentou que essa informação foi-lhe dada em fevereiro. E, também de acordo com o The New York Times, Da equipa de especialistas da Casa Branca para doenças infecciosas alertou na terceira semana de fevereiro o Presidente para a necessidade de adotar medidas de distância social — levando à quarentena da maioria da população —, sugestão essa que viria a ser rejeitada até que, a 16 de março, foi aprovada.Além disso, apesar de Donald Trump ter tomado a decisão de banir os voos da China no final de janeiro, foi só a 12 de março que proibiu os voos da maior parte dos países da Europa — isto numa altura em que a Itália, à altura maior foco no continente, já estava em quarentena a nível nacional. E só a 13 de março declarou o estado de emergência altura em que os casos já eram mais de 2 mil em todo país e as mortes 48 — valores que num só mês cresceriam em 1200% nos diagnósticos de Covid-19 e em 59039% nas óbitos por aquela doença.
“A OMS não pode ser culpada, com credibilidade, pela resposta lenta dos EUA”, sublinham Lawrence Gostin e Matthew Kavanagh no Washington Post. E ao Observador Charles Clift acrescenta: “A pessoas que criticam a OMS deviam olhar para o seu próprio quintal. Trump só está a fazer isto porque tem uma disputa em curso contra a China e também porque tem umas eleições para ganhar em novembro”. E, recusando dizer nomes de países, mas sugerindo que os adivinhemos, acrescenta ainda: “O que causou a maioria dos mortos por Covid-19 não foram os erros cometidos pela OMS, foram os erros cometidos pelos países”.
Encontrei in observador.pt  15.04.2020, por João Almeida Dias