sexta-feira, 18 de junho de 2021

"Longe o agouro"...

Desde sempre, ouvíamos os mais velhos dizerem que agouro era um presságio baseado na observação de factos ou objetos, uma profecia, um sinal de uma coisa negativa.

Quem não se lembra, em pequeno, de ouvir o pai ou a mãe dizer em casa: "Meninos, não se põe o chapéu ou o guarda-chuva em cima da cama, que dá azar!". Se o meu pai por acaso via facas cruzadas na mesa, dizia logo para as descruzar porque era sinal de que podia acontecer algo de mau.  

Também era hábito lá em casa ouvir dizer entre nós, quando queríamos livrar-nos de algo, repelindo o que não queríamos que nos acontecesse: "bate lá três vezes na madeira" (=o diabo seja cego, surdo e mudo; ou então, =lagarto, lagarto, lagarto= cruzes canhoto).

E, tal como estes exemplos, há outros, são inúmeros!

Uma superstição que eu ouvia muito a minha mãe era a de não deixar limpar teias de aranha onde as houvesse alojadas, pois para ela, aranhas, aranhiços e aranhões eram sinónimo de "dinheiro"! Deviam ser conservadas, era bom sinal, era dinheiro que vinha aí, e este faz sempre falta numa casa de família, por isso era bem-vindo! Assim como quando caía açúcar na toalha era sinal de sorte ou boa fortuna. Ainda um exemplo de que me lembro, dum copo que se partia, dizia-se logo que era sinal de que alguém tinha inveja de nós, mas se bebêssemos do mesmo copo de um amigo ou amiga, ficávamos a conhecer os seus segredos......

Outra superstição frequente ainda nos dias de hoje: se se oferecer lenços a uma pessoa, esta deve entregar em troca uma ou duas moedas. Na altura, quando eu era miúda, se me ofereciam meia dúzia de lenços, eu retribuía aí com uns 5 escudos; hoje, talvez convenha retribuir com 50 cêntimos..; de contrário, pode acontecer algo de mal...nunca se sabe...! 

No meu imaginário há muitos exemplos, sei que fazem parte dos saberes populares, mas é bom recordá-los e sobretudo pensar que ainda hoje muita gente continua a acreditar em pragas, agouros, rezas, superstições...uns são positivos, outros são negativos...

Partilho aqui algumas explicações para alguns presságios e que encontrei na leitura de um livro que aconselho:


in fnac.pt


Agouro ou presságio é sempre um prognóstico, um vaticínio. Em tempos bem antigos, era a predição feita pelos áugures, os sacerdotes romanos. Esse vaticínio tinha por base a observação do voo e canto das aves. Hoje, um agouro ou presságio é sempre uma predição a respeito do futuro, um indício de um acontecimento nefasto, pode até ser apenas de uma má notícia. Um sinal que prenuncia algo.

Na literatura portuguesa, de imediato, lembramo-nos de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Madalena fica intimidada com os agouros de Telmo: "..." não entremos com os teus agouros e profecias do costume: são sempre de aterrar (...) deixemo-nos de futuros (...); mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes (...) esses teus contínuos agouros em que andas sempre, de uma desgraça que está iminente sobre a nossa família (...)." Estes temores de Telmo dão força aos de Madalena e indiciam a destruição de toda a sua família, um destino irrevogável. São imensas as referências ao "dia fatal", à "hora fatal", o retrato do Manuel de Sousa a arder, o medo de sexta-feira, e, claro, como não podia deixar de ser, o célebre "Ninguém" do Romeiro.

Também em "Os Maias", de Eça de Queiroz, o tema é recorrente. Quem não se lembra da lenda recordada por Vilaça, segundo a qual "eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete", de Afonso ao se aperceber da semelhança entre o filho Pedro e o avô da sua mulher, que enlouquecera e se enforcara, a sombrinha de Maria Monforte, quando Afonso a vê pela primeira vez: "como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas".

Por outro lado, Fernando Pessoa, num poema intitulado precisamente "Presságio", julga que o amor apenas é verdadeiro quando não passa de um presságio, existindo apenas no seu interior:

"O amor quando se revela/Não se sabe revelar/Sabe bem olhar p'ra ela/Mas não lhe sabe falar             

Quem quer dizer o que sente/Não sabe o que há-de dizer/Fala: parece que mente/Cala:parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse/Se pudesse ouvir o olhar/E se um olhar lhe bastasse/P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala/Quem quer dizer quanto sente/Fica sem alma nem fala/Fica só, inteiramente/ 

Mas se isto puder contar-lhe/O que não lhe ouso contar/Já não terei que falar-lhe/Porque lhe estou a falar"

A verdade é que, desde sempre, a humanidade procurou interpretar os sinais à sua volta. Os seus significados foram sendo estabelecidos de acordo com um certo padrão de frequência. Observava-se x e, se acontecia y, então atribuía-se a x um determinado significado. O povo encarregou-se de transmitir esses conhecimentos, todo esse saber, passando-o de geração em geração.

Como é óbvio, bons agouros indiciam algo de positivo, enquanto os maus pressagiam acontecimentos ou momentos desastrosos, até mesmo fatais.

(in Livro das PRAGAS, Agouros, Rezas, Superstições e outros Esconjuros", Guerra & Paz Editores, S.A. 1ª edição, março 2019)

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Ambições do partido PAN

Desta vez, venho aqui partilhar, com a devida vénia, um artigo de 07 de junho, escrito por Catarina Guerreiro no seu PONTO DE VISTA da ViSÃO DO DIA.

Todos tivemos ocasião de ler e ver nos meios de comunicação social que a nova líder do PAN se mostra ambiciosa, apressando-se a apresentar os desafios futuros do seu partido (Pessoas, Animais, Natureza - PAN). 

Sabendo que a negociação do Orçamento do Estado é um ponto importante, apresenta de certa forma, um "caminho aberto" a António Costa e mostrando também que o Pan quer ser governo uma vez que as duas facções existentes no partido, se uniram (aliança interna), estando disponíveis também para acordos com outros partidos.

Assim, tudo parece estar em harmonia...


OS ACENOS A COSTA, AS ALIANÇAS E AS AMBIÇÕES DO NOVO PAN

Uma nova líder, uma aliança interna e uma boa notícia para António Costa. É este o resumo do congresso do PAN – partido Pessoas–Animais–Natureza que decorreu este fim de semana numa sala do Hotel dos Templários, em Tomar, e que parece ter garantido, para já, a sobrevivência do Governo. 

No seu discurso, a nova líder, e sucessora de André Silva, Inês Sousa Real, deixou claro que entre os próximos desafios do partido estão as autárquicas e a negociação do Orçamento do Estado. Isto numa altura em que o primeiro-ministro se prepara para começar a negociá-lo com os partidos, sabendo que, perante o possível voto contra do BE, precisa apenas que o PCP e o PAN se abstenham. Do PAN sabe desde ontem que tem o caminho aberto com a recém eleita liderança. Inês Sousa Real é a nova porta-voz e, como ela própria o sublinhou , a quinta mulher a comandar um partido político nos 47 anos de democracia portuguesa. É jurista, deputada, foi provedora dos animais em Lisboa e fez 41 anos ontem - exatamente no dia em que foi eleita. Era, no entanto, a única candidata. E por um simples motivo: as duas fações do partido decidiram chegar a acordo e dividir o poder em vez de se enfrentarem. Assim, se Inês Sousa Real comandava a fação do anterior porta-voz, André Silva, já Bebiana Cunha liderava uma outra fação, conhecida como “corrente do norte”, com maior ligação aos fundadores do partido e mais intransigente em certas questões ambientais. Mas, contrariando os que pensavam que iria existir um duelo, decidiram optar antes por um acordo de bastidores: Inês ficou à frente do partido e Bebiana Cunha vai assumir a liderança parlamentar. Prova desta aliança interna é também o assumir de que o partido quer ser Governo, uma ideia mais defendida pela fação do norte do que por André Silva, que ainda há não muito tempo chegou a confessar que o PAN não estava preparado para integrar um Executivo. 
Nos próximos dias, o PAN, segundo anunciaram os seus responsáveis, irá pedir uma reunião ao Governo com o objetivo de perceber a execução das medidas incluídas no Orçamento anterior, e verificar se foram ou não cumpridas para depois avançar para as negociações. António Costa não foi o único a receber luz verde para eventuais entendimentos. Passando a mensagem de que não são um partido de esquerda nem de direita, e que por isso estão disponíveis para acordos com outros partidos, nomeadamente o PSD de Rui Rio, os responsáveis do PAN garantiram que só um cenário os afastará: a presença do Chega. De resto, tanto Inês Sousa Real como Bebiana Cunha garantiram que o PAN irá às próximas legislativas com a meta de "ser Governo".



in observador.pt

terça-feira, 15 de junho de 2021

Origem da palavra "salário"

'...(...)...o substantivo salário, palavra derivada de sal. O sal foi durante séculos um bem precioso, por ser raro em diversas regiões e ser necessário, nomeadamente, para a conservação de alimentos e tempero da comida. Dado o seu valor, em tempos recuados, alguns impostos eram pagos com certas quantidades de sal. No tempo dos romanos, os funcionários e os soldados recebiam como pagamento rações de sal, passando depois a palavra salário a designar o soldo dado às tropas para comprar sal. Mais tarde, a palavra salário passou a designar, em geral, a remuneração do trabalho de um empregado, tendo-se quase perdido a lembrança do seu significado primitivo.'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt[consultado em 15-06-2021]


in noticiasaominuto.com

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Consumir sal com moderação...é conveniente!

Atualmente, o sal é considerado um 'vilão' para a saúde. Mas a verdade é que o sal é fundamental, porque os seus minerais exercem funções específicas e importantes dentro do organismo. É tudo uma questão de moderação e de escolhas inteligentes. 


Assim como o sal refinado, o sal marinho é formado por cloreto de sódio e obtido a partir da evaporação da água do mar com a diferença de não passar pelo processo de refinação, o que faz com o tempero mantenha os minerais e os nutrientes. 

Isto significa que o sal marinho é mais saudável que o refinado, já que além de não passar pela refinação, contém menos sódio. O sal refinado perde quase todo o seu valor nutricional, obrigado a ser alterado com uma série de aditivos, como o iodo. 

Benefícios do sal marinho

Reforça o sistema imunitário
É um aliado à perda de peso
Excelente contra doenças de pele (tome um banho de sal)
Ajuda o corpo a lidar com stress
O potássio presente no sal é essencial para o bom funcionamento dos músculos
Ajuda os ossos a manterem-se fortes
Faz com que o corpo mantenha os níveis de açúcar regulares, combatendo a diabetes

in notíciasaominuto.com



https://revista.sociedadedamesa.com.br/2015/10/ingredientes-flor-de-sal/

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Hoje, 10 de junho de 2021, comemoram-se 110 anos deste dia feriado

Partilho aqui a história do feriado de 10 de junho. 

Quando lia as notícias on-line encontrei vários artigos interessantes debruçando-se sobre o Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas.

São histórias verdadeiras e que todos nós, portugueses, devemos conhecer e aprofundar.


imagem in portugues.com.br


Sabia que existe um motivo para se celebrar o Dia de Portugal a 10 de Junho? É verdade, neste dia celebramos em Portugal o Dia de Portugal, Dia de Camões e também o Dia das Comunidades Portuguesas.

Este feriado nacional é também o dia da morte do nosso poeta Luís Vaz de Camões, autor do famoso “Os Lusíadas”. Neste Dia de Portugal são realizadas muitas atividades, com destaque para as demonstrações militares e desfiles.

Sem dúvida um dia importante para a História de Portugal e também dos portugueses, mas será que até em tempos de ditadura era assim?

Neste artigo vamos dar a conhecer o motivo para se celebrar em 10 de Junho.

10 de Junho o Dia da Língua Portuguesa e do Cidadão Nacional.

Neste dia, é comum o Presidente da República e altas patentes do Estado participarem nas cerimónias de comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Todos os anos esta cerimónia decorre numa cidade diferente.

História do Dia de Portugal

O dia 10 de Junho nem sempre foi conhecido como na atualidade. Este dia já foi celebrado como o “Dia da Raça: a raça portuguesa ou o portugueses, isto aconteceu durante o ano de 1933 e 1974, entre o regime da Ditadura do Estado Novo até à Revolução dos Cravos em 25 de Abril. Como Luís de Camões foi uma figura emblemática para Portugal e associada aos Descobrimentos, fazia todo o sentido ser utilizado como forma de o regime celebrar os territórios coloniais e o sentimento de pertença a uma grande nação, como sendo uma só raça e língua comum.

O 10 de Junho é definido como feriado, após a implantação da República e na sequência dos trabalhos legislativos, em 5 de Outubro de 1910.

No decorrer desses trabalhos, foi realizada a publicação de um decreto onde definia os feriados nacionais, tendo sido inclusivamente eliminados feriados religiosos, com a intenção de diminuir a influência da Igreja Católica e consolidar a laicização da sociedade.

No decreto definia os feriados nacionais e dava a possibilidade dos concelhos e municípios seleccionarem um dia do ano que representasse as suas festas. Lisboa optou pelo 10 de Junho como feriado municipal, em homenagem a Camões, dado que esta era a data apontada como sendo a da morte do poeta.O que seria apenas um feriado municipal passa a ser exaltado com o Estado Novo. Assim, a partir desse momento o Dia de Camões passou a ser celebrado a nível nacional.

Mas não ficou por aqui, até ao 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça como anteriormente visto, este último epíteto criado por Salazar na inauguração do Estádio Nacional em 1944.

Assim sendo, a partir de 1978 o dia 10 de Junho ficou designado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

No Decreto-Lei n.º 39-B/78 de 2 de março, lê-se:

“O dia 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades, melhor do que nenhum outro, reúne o simbolismo necessário à representação do Dia de Portugal. Nele se aglutinam em harmoniosa síntese a Nação Portuguesa, as comunidades lusitanas espalhadas pelo Mundo e a emblemática figura do épico genial.”

Hoje, são várias as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo que celebram o Dia de Portugal com diversos tipos de atividades.

Uma mera curiosidade é que desde 2013 a comunidade autónoma da Extremadura espanhola também festeja este dia.

Agora que já sabe o motivo para o dia 10 de Junho ser o ideal para comemorar o Dia de Portugal, vamos comemorar e honrar os nossos ancestrais e cuidar da nossa pátria. (in portugalinsite.pt)



imagem in tenor.com



Um ano antes do golpe que instituiu a ditadura militar em 1926, a I República declarou que a “Festa de Portugal se celebrará no dia 10 de Junho de cada ano”. O Estado Novo manteve a data como Festa de Portugal, elevando-a à condição de feriado nacional em 1929.

O título de Dia de Portugal só surgiria décadas depois. E, apesar de ninguém saber se o poeta Luís Vaz de Camões morreu mesmo neste dia, a democracia continuou a celebrar o 10 de Junho como data da identidade nacional. Uma originalidade portuguesa que é praticamente “caso único” no mundo, segundo a professora Maria Isabel João, autora do livro “Memória e Império — Comemorações em Portugal (1880–1960)”. A historiadora lembra que a “maioria esmagadora dos países do mundo escolhe uma data que se relaciona com a fundação do Estado ou do regime político vigente”.

Como é que esta data consegue resistir a três regimes políticos como símbolo da identidade nacional?

Porque está identificada com a figura de Camões, que é o símbolo da nação desde o século XIX. É uma figura que emerge no contexto da mitologia nacional criada pelos românticos e que se transforma num símbolo da nação. O [historiador] Oliveira Martins diz que Camões é o epónimo de Portugal. E o [republicano] Teófilo Braga, num dos seus textos, diz que, se dissermos que somos portugueses no estrangeiro, ninguém nos identifica. Mas, se dissermos que somos da pátria de Camões, já nos identificam.

A I República acarinha o dia por causa de Camões?

Sim, porque na altura das comemorações do tricentenário da morte de Camões, em 1880, os republicanos, e nomeadamente Teófilo Braga, que tinha importado as conceções positivistas de Auguste Comte para Portugal, entendia que era importante substituir os símbolos religiosos por laicos. Camões surge como um símbolo laico.

Podemos dizer que Teófilo é o ‘pai‘ do Dia de Camões?

Ele é o pai da ideia da comemoração do III centenário da morte de Camões, que cria as bases para que o 10 de Junho pudesse vir a ser feriado nacional. Falou-se nisso na época, mas nunca foi feriado no período da monarquia. Teófilo empenhou-se muito, como estudioso de literatura, a estudar Camões e a obra dele, e também como mentor das comemorações do III centenário, bem como na promoção da figura de Camões como símbolo nacional. Este acontecimento adquiriu uma enorme importância, porque houve uma grande mobilização da imprensa da época, que contribuiu para que ficasse na memória.

A imprensa foi determinante para a consagração e interiorização da figura de Camões como símbolo nacional?

Teófilo Braga apareceu na imprensa [com artigos] a defender o centenário. Os republicanos impuseram um modelo de celebrações importado da França e da Revolução Francesa, o que fez com que os monárquicos e a própria Corte tivessem hesitado no modelo das comemorações sem desconfiarem da figura de Camões. A ideia de que na época iria haver uma procissão cívica no 10 de Junho era uma apropriação de rituais religiosos que foram [assim] laicizados. As comemorações mobilizaram Câmaras de todo o país, associações... E houve um grande cortejo, que partiu da Praça do Comércio e foi depor flores na estátua de Camões, que contribuiu para a afirmação dos republicanos como força política, embora o próprio rei tenha presenciado as comemorações.

A partir de 1911, o 10 de Junho passa a ser feriado municipal de Lisboa...

O regime republicano homenageou a data, tornando o dia feriado na capital. Ao longo dos anos, as comemorações do dia 10 de junho foram variando consoante as circunstâncias políticas. Em 1917, a data foi celebrada como Dia dos Aliados, porque a I Guerra Mundial mobilizava a atenção de todos. E em 1924, quando se celebrou o IV centenário do nascimento de Camões, o 10 de Junho foi a data escolhida. A imprensa da época utilizava a expressão Festa da Raça para as comemorações camonianas, e o sentido do termo ‘raça’ era vago e identificava-se com o próprio povo português. A celebração durou seis dias e teve repercussão no estrangeiro, em especial em Espanha.

É o Estado Novo que batiza a data como Dia de Portugal?

Sim, mas só em 1952. Entre 1925 e 1952, o 10 de Junho foi designado como Festa de Portugal. E só passou a ser celebrado como feriado nacional em 1929.

As pessoas precisam de símbolos. É isso que explica que o 10 de Junho tenha sobrevivido à queda da ditadura como símbolo da identidade nacional?

Exatamente, a questão simbólica é muito importante, mas isso [também] revela o quanto o 10 de Junho estava enraizado na consciência nacional. Em 1974, realizou-se uma manifestação de solidariedade com as Forças Armadas; no fim, colocaram flores na estátua de Camões [em Lisboa]. E em 1977, depois de Ramalho Eanes ter sido eleito, a data passou a Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. No ano seguinte começou a ser celebrado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas [designação que mantém].
[esta entrevista foi inicialmente publicada a 10 de junho de 2017]
in expresso.pt, por Manuela Goucha Soares, 10.06.2021